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02/09/14

A Ética Profissional do Adestrador Canino

Numa altura em que estão a aparecer no mercado cada vez mais adestradores caninos (e o Centro Canino Vale de Lobos tem algum mérito nisso uma vez que todos os anos forma diversos profissionais nesta área), convém lembrar que esta, como todas as profissões, deve reger-se por um código deontológico que nos deve conduzir ao longo de todo o nosso percurso profissional.

Como ainda não existe nenhuma associação deste grupo de profissionais que possa elaborar um código ético para a profissão, e para prevenir abusos de várias naturezas, cujos únicos atingidos serão não só as pessoas e os seus cães que, de boa-fé, confiam nos serviços do profissional que escolhem, mas também os colegas que, mesmo trabalhando honestamente, vêm a sua actividade profissional manchada e desacreditada por pessoas com poucos escrúpulos e que não olham a meios para atingir os seus fins, decidimos transcrever um excerto da lição que é dada durante os Cursos de Adestramento ministrados pelo Dep. de Formação do CCVL precisamente dedicada à ética na profissão de Adestrador e Terapeuta Comportamental Canino:

“1.4.3. Ética Profissional

A partir do momento em que uma pessoa é qualificada como Adestrador e começa a cobrar os seus serviços, está a actuar como um Profissional. Como em todas as profissões, nesta também deve existir um código deontológico e uma ética profissional. Por não estar regulamentada, esta profissão presta-se a todo o tipo de oportunistas, moralmente mal formados e charlatães.

Em todas as profissões encontramos pessoas mais ou menos qualificadas e que se intitulam de “profissionais”. A diferença entre o bom profissional e o charlatão radica na qualidade dos seus trabalhos, finalizados com êxito, dentro do respeito à ética da sua profissão.

Por ser uma profissão relativamente nova, faz com que a fiscalização do trabalho, por parte do cliente, seja quase nula. A transparência no processo de adestramento, de modo a evitar abusos e enganos, está sujeita à moralidade do profissional.

Se o adestrador possui um conceito claro do que é a moral, só aceitará um trabalho que seja capaz de realizar e que esteja dentro do que aprendeu na sua formação, rejeitará as tarefas para as quais não se sinta capacitado e não terá problemas em mostrar as limitações reais do animal e as do trabalho que vai desenvolver assim como as possibilidades de êxito.

Outro pecado capital é a crítica maldosa a outro colega de profissão. Quando se procede desta forma ninguém fica a ganhar, perdem, isso sim, todos os adestradores que consideram esta tarefa suficientemente digna para investir nela toda a sua vida.

Finalmente, o que o cliente espera de nós é que o seu cão se converta num amigo obediente, amável e educado, num guardião e defensor da sua família, companheiro de vigilância e patrulha, participante em salvamentos, olhos dos invisuais, consolo e ajuda na invalidez e velhice, etc.”


Com este pequeno artigo esperamos ter dado um contributo importante para que os adestradores portugueses sejam mais cautelosos na abordagem que fazem à sua profissão, mas também ajudar a que o dono consiga, com mais facilidade, distinguir o bom profissional, em todos os sentidos, daquele que aproveita esta actividade para atingir objectivos que nada têm a ver nobre arte de ensinar animais.


Sílvio Pereira

27/08/14

Influência Hormonal no Comportamento Canino

Os compêndios de Etologia Clínica recomendam que uma das primeiras medidas a tomar no tratamento de algumas tipologias de agressividade é a castração dos cães. Com este artigo vamos tentar explicar o porquê dessa recomendação, além de outras e, fundamentalmente analisar a enorme influência do sistema endócrino no comportamento dos cães.

O Sistema endócrino

Como é do conhecimento comum, o sistema endócrino, é composto por várias glândulas que segregam hormonas, sob supervisão do hipotálamo e que controla a coordenação fisiológica do corpo. Este controlo é efectuado através da libertação de hormonas, quando são necessárias, e contendo a sua produção quando não o são.

As glândulas do sistema endócrino são de segregação interna, o que quer dizer que inundam de hormonas directamente o sangue. A corrente sanguínea transporta essas hormonas para todos os tecidos do corpo. Como estas têm um cariz controlador, elas não só são enviadas para todos os órgãos, como também controlam as suas funções, mas atenção! Cada hormona, apesar de passar por todos os órgãos, ela tem como objectivo um especificamente e só afecta esse.

As glândulas e hormonas do sistema endócrino

A mecânica da acção deste sistema no comportamento é a seguinte:

O hipotálamo, que está situado na base do cérebro, envia sinais à glândula pituitária, hipófise, que se encontra muito perto dele. Ao receber os elementos libertados pelo hipotálamo a glândula pituitária segrega várias hormonas que estimulam as outras glândulas endócrinas para que segreguem as suas próprias hormonas.

Apesar de o sistema endócrino do cão ser bastante complexo e composto por várias glândulas, como são os casos da glândula pituitária que segrega a hormona luteizante, ou a supra-renal que segrega a insulina, as quatro hormonas que nos interessam e que influenciam mais directamente o comportamento canino são a testosterona, a adrenalina, a noradrenalina e o cortisol.

Testosterona

A testosterona é uma hormona esteroide que se produz a partir do colesterol. Grande parte da testosterona é produzida nos testículos do macho, mas também é sintetizada, em quantidades muito inferiores no córtex adrenal, nos ovários femininos e na placenta.

A testosterona pode regular certos comportamentos. Por exemplo, faz com que os animais mantenham a concentração durante mais tempo e respondam de uma maneira mais vigorosa aos estímulos emanados de conflito e agressividade. A testosterona leva a que os animais se activem e respondam a uma provocação com maior facilidade, e activam-se, e agridem-se de uma maneira mais intensa e por um período de tempo mais longo. Está provado que os seres humanos com altos níveis de testosterona no sangue são mais propensos a cometerem crimes, em especial crimes violentos.

Adrenalina e Noradrenalina

O córtex adrenal produz várias hormonas denominadas esteroides, que regulam o metabolismo da glicose, produzem as hormonas sexuais e mantêm os níveis equilibrados de minerais.

Uma dessas hormonas mais importantes é a adrenalina, também chamada epinefrina, que interactua com o sistema nervoso simpático para ajudar o corpo a preparar-se para situações de emergência. A adrenalina é libertada na corrente sanguínea quando um animal se assusta (stress agudo). O coração bate mais rapidamente e o fluxo sanguíneo altera-se desviando-se da pele e dos intestinos para os músculos preparando-se para a luta ou para a fuga.

A noradrenalina é responsável, entre outras coisas, pelo nível de energia de um cão. Se a noradrenalina diminui, o corpo bloqueia o gasto de energia.

Num cão, o estado letárgico e a depressão podem ser sintomas de inibição ou redução de noradrenalina no sangue. O organismo só pode funcionar durante um tempo limitado com níveis baixos de noradrenalina (stress crónico) antes de ficar bloqueado por completo. A diminuição da noradrenalina está associada à indefesa aprendida e à depressão.

A presença de um alto nível de noradrenalina provocará agressividade, um estado de alerta excessivo e inadequado, um comportamento impulsivo e uns altos níveis de excitabilidade.

As experiências traumáticas e o stress prolongado, levam a uma diminuição da noradrenalina

Cortisol

O cortisol, mais uma hormona sintetizada no córtex adrenal e que é segregado em pequenas quantidades em ciclos naturais ao longo do dia, mas em momentos de stress é segregado em grandes quantidades com a finalidade de preparar o animal para enfrentar os desafios e as ameaças.

O cortisol inibe o sistema imunológico e o processo de formação dos ossos. Inibe igualmente a acção da insulina e facilita a transformação dos hidratos de carbono, lípidos e proteínas para provir o corpo de mais energia para poder confrontar-se com o agente stressante.

A exposição ao cortisol por um breve período promove o armazenamento de recordações, que irá ajudar o animal a recordar-se das circunstâncias que originaram uma situação de intensidade importante. Infelizmente, estas recordações de tipo “flash” vividas intensamente são momentos de stress extremo. Quando um cão se sensibiliza e experimenta uma forte subida de cortisol, pode recordar muito bem esses factos. Daí que o cortisol seja particularmente problemático no desenvolvimento e tratamento de fobias e comportamentos agressivos.

A longa exposição ao cortisol tende a danificar as células do hipotálamo e, em consequência, a prejudicar o processo de aprendizagem. Um animal que sofre de stress crónico tem dificuldades em aprender. Isto tem implicações na hora de tratar problemas de comportamento relacionados com o stress.

Nesse contexto, devemos reduzir o stress para que as técnicas de modificação do comportamento tenham influência na aprendizagem do cão.

Resumo

É importante que o terapeuta na hora de intervir esteja de posse de todos os conhecimentos e de todas as ferramentas que estão à sua disposição para intervir na resolução do problema e, neste caso particular, deve ter presente que o sistema endócrino está encarregue de controlar as substâncias químicas que circulam no nosso corpo e têm um efeito sobre vários dos seus órgãos. O hipotálamo, um componente do sistema límbico controla quando e o que se segrega. Estas substâncias químicas que se libertam no sangue afectam o comportamento. Algumas como o cortisol combatem o stress enquanto que outras como a testosterona fazem com que os cães machos actuem como tal. A adrenalina é a substância química que prepara o organismo para as emergências mas também pode provocar muitos problemas.


Em breve publicaremos um artigo sobre os dois tipos de stress, agudo e crónico, e como eles afectam o comportamento dos cães.       

Sílvio Pereira

15/08/14

Estimulação Mental em Cães


A estimulação mental em cães, também conhecido por enriquecimento mental é, a par da estimulação física, essencial para o equilíbrio e bem-estar do animal.

 Na natureza e em animais que, apesar de domesticados, têm a oportunidade viver em liberdade, eles próprios conseguem obter estes dois tipos de estimulação, podendo correr à vontade, e procurando ocupar o seu tempo explorando todas as atracções que o meio envolvente lhe proporciona, conseguindo assim suprir as necessidades de gasto de energias acumuladas e de enriquecimento mental devido ao facto de todos os dias serem confrontados com a exploração e identificação de estímulos novos, quer olfactivos, quer auditivos quer visuais, permitindo-lhes alargar o leque de conhecimentos proporcionados por essa procura constante de novas estimulações mentais.

No outro extremo, encontram-se os animais que devido ao actual modo de vida nas cidades, são obrigados a viverem confinados em apartamentos, durante todo o dia, sem poderem expandir convenientemente as suas necessidades de libertação de energias e exercitação mental, como consequência disso, desenvolvem diversas patologias do comportamento, umas mais graves que outras, mas todas elas contribuem para o sofrimento do animal e para a deterioração da relação com os elementos humanos da sua matilha, contribuindo assim, de forma decisiva, para o crescente aumento do abandono e eutanásia dos animais.    
 
Patologias como:

      ·         Ansiedade por separação;
·         Hiperactividade;
·         Comportamentos estereotipados;
·         Manifestações ligadas à procura de atenção: micção e defecação inadequadas, vocalizações excessivas, agressividade por jogo, ingestão inadequada: pedras, objectos e coprofagia, etc.;
·         Fobias e manias.

Podiam ser resolvidas, na sua grande maioria, por uma estimulação mental mais intensa, mais presente no dia-a-dia do animal e que faça parte das suas rotinas.

 Os modernos terapeutas comportamentais caninos estão a dar um enfoque bastante grande à falta de estimulação quer física quer mental, como estando na origem das patologias acima descritas e cada vez mais têm prescrito tratamentos com base na alteração ambiental, criando regras e rotinas primeiro e trabalho específico de estimulação mental como complemento do processo de regressão comportamental.

 Para incentivar um cão a que disfrute e se concentre de forma activa em algo, promovemos a activação do córtex cerebral que impede que o sistema límbico active emoções problemáticas.

“Um cão, ou uma pessoa que está concentrada numa tarefa, normalmente não é surpreendido facilmente por emoções fortes. De facto, pode abdicar de estímulos irrelevantes para a tarefa. Por isso, cães com algum grau de problemas comportamentais podem interagir com outros em paz: a sua concentração não se centra nas suas respostas emocionais mútuas, mas sim na tarefa” (Clothier 1996).
 
Estimuladores mentais ou brinquedos interactivos

Os estimuladores mentais, há também quem lhe chame brinquedos intaractivos, podem ser divididos em dois: aqueles que mantêm concentrados e ocupados os cães quando sozinhos e os que nos ajudam a interagir com eles em ambiente de brincadeira ou jogo. Devido aos objectivos que pretendemos alcançar com o presente artigo, vamos só debruçar-nos sobre os primeiros.

Estes estimuladores servem, como o nome indica, para lhes manter a mente ocupada com a finalidade de atingir um objectivo que, independentemente do tipo de estimulador utilizado é sempre o de conseguir algo que lhe satisfaça um instinto que, quase sempre tem a ver com a alimentação.
 
O estimulador das 3 garrafas

Ideia muito interessante retirada de um vídeo da internet em que o objectivo é que o cão, com batidas de patas na base das garrafas de plástico que estão ligadas a um veio um pouco acima do centro da garrafa, que contêm pequenos pedaços de biscoitos, estas se virem e ao fazê-lo deixem cair pelo gargalo as guloseimas que lá se encontram. Isto mantém os cães bastante tempo entretidos com o brinquedo, uma vez que as garrafas ao serem viradas, dependendo do tamanho dos pedaços de comida, só deixam cair um, ou no máximo dois, de cada vez que são viradas. É muito fácil de construir e muito útil.

Se pretender, o Centro Canino Vale de Lobos disponibiliza este equipamento.

Um exemplo de como funciona este estimulador mental pode ser visto através deste link:


Os Kongs

Como o equipamento anterior, o objectivo deste estimulador é o de manter o cão empenhado em conseguir retirar toda a comida que foi colocada numa  cavidade que o brinquedo possui. Como os Kongs são fabricados de borracha resistente mas flexível, o animal ao abocanhar o brinquedo obriga a que este comece a libertar a comida que se encontra no seu interior.

Um credenciado autor, Ian Dunbar, defende que o animal que está confinado a um pequeno espaço, para o manter permanentemente ocupado, deveria receber toda a sua alimentação diária inserida num kong e não disponibilizada num comedouro

Pode encontrar este tipo de estimuladores em qualquer loja, física ou online, de artigos para animais.

Ossos naturais e artificiais

Apesar de já existirem à venda nas lojas da especialidade uma panóplia imensa de ossos com várias composições: pele de búfalo, plástico impregnado com agradáveis odores e sabores, fumados, etc., o osso natural do fémur, úmero ou joelho de vaca, cru ou cozido, limpos de todas as gorduras, ligamentos e tendões, ainda são os mais saborosos e os que mantém os animais mais tempo concentrados em lhes retirar as cartilagens e atingir o tutano, que é o objectivo final. Eles passam horas neste trabalho, exercitam as mandíbulas, limpam os dentes do tártaro que possa existir e estão descansados na sua labuta.

Dirija-se ao seu talho e peça uma parte dos ossos de vaca mencionados acima e que lhos corte em pedaços com cerca de 10 a 15 cm de tamanho.
 
Os puzzles

Estimuladores mentais criados há relativamente pouco tempo, muito interessantes e criativos e que, mais uma vez, o objectivo é que leve o cão, depois de passar por diversas fases que o obrigam a empenhar-se e a utilizar o processo tentativa/erro, a obter uma guloseima como recompensa.

Actualmente, há no mercado uma oferta bastante grande de vários tipos de puzzles e com vários níveis de dificuldade na obtenção da guloseima.

Se na sua loja não encontrar este tipo de estimulador pode encomendar neste site:


Conclusão

Se repararem, o princípio desta aprendizagem e a resolução das dificuldades que cada equipamento oferece, está mais uma vez baseado no Condicionamento Operante: um comportamento tem sempre uma consequência, agradável ou desagradável, e os animais têm sempre tendência a valorizar e a explorar a agradável e a extinguir a desagradável. 

Depois da leitura deste artigo, já não há desculpas para mantermos os nossos cães na ociosidade quando necessitamos de os deixar sozinhos, deem-lhe algo que os motive e que os mantenha ocupados e concentrados e vão ver os benefícios que daí advêm, tanto para o cão como para os seus donos.
 
Silvio Pereira

18/03/14

Cão de Companhia vs. Cão de Trabalho


Algumas vezes, os nossos serviços de aconselhamento são confrontados com pedidos de informação sobre a dificuldade que os novos donos têm em escolher o melhor cão em função daquilo que pretendem dele e tentar inseri-lo no seu estilo de vida, isso é o correcto. Mas com bastante mais frequência chegam ao nosso Departamento de Consultadoria em comportamento canino ajuda para resolução de distúrbios de conduta de animais que não foram seleccionados para viverem nos ambientes onde são inseridos. Muitos desses animais acabam, infelizmente, nos canis de adopção com um reduzido prognóstico de poderem um dia a virem a ser de novo integrados e recuperados. O que pretendemos dizer com isto é que, quase sempre a compra de um animal baseia-se mais em razões puramente estéticas e de preferência pessoal por uma raça ou um tipo de cão e menos no carácter e nas funcionalidades do animal e de saber se o escolhido está programado para se integrar no tipo de vida que lhe podemos proporcionar. O exemplo mais recente e mais gritante de como um certo tipo de cão não se adapta ao modo de vida que escolheram para ele é o caso dos Huskies Siberianos que, no início deste século, foram criados em massa, devido às particularidades fenotípicas serem muito parecidas com as do lobo, terem olhos azuis e parecerem muito dóceis, qualidades que as pessoas adoravam, ao serem inseridos em pequenos apartamentos criaram neles grandes necessidades de liberdade e de espaços abertos onde viveram os seus avós e bisavós, tendo como consequência uma total inadaptação à vida das cidades, sendo nessa altura os cães que mais fugiam das casas onde eram obrigados a viver.

A manipulação genética poderia tornar possível gerar cães que se parecessem mais com Huskies ou até com raposas do agrado de tanta gente mas com características mais dóceis, mais sociáveis e que se adaptassem bem a espaços confinados. No entanto, embora essa abordagem fosse, decerto, gerar novidades, mas também controvérsias, não é disso que se necessita para salvar o cão. Já existe alteração genética mais do que suficiente entre os cães de hoje para gerar uma ampla variedade de indivíduos bem adaptados para a vida de animais estimação; o que se precisa fazer então, é reconhecer esse papel como a função principal do cão e tomar a iniciativa das mãos daqueles que se empenham todos os dias em melhorar a qualidade dos animais que produzem, não só em termos de funcionalidade, de carácter mas também em termos de saúde.

A outra aplicação da engenharia genética, a clonagem, tampouco é a solução para produzir um cão de companhia perfeito. O multimilionário texano John Sperling clonou a sua cadela Missy, cruzada de Border Collie com Husky, e os clones com certeza parecem-se com ela. Mas de que é que o dono gostava? Da aparência da Missy ou da sua personalidade? Porque a personalidade de um cão é em grande parte produto da sua experiência de vida que não pode ser replicada graças à genética in vitro.

Quais são, então, as barreiras que impedem o desenvolvimento de um melhor cão de companhia? Deixando de lado, por um momento, as características desse tipo de cão, parece haver pelo menos duas barreiras. A primeira é que os criadores de cães raramente tomam as melhores decisões sobre que cães criar com base em quais deles se revelaram melhores companheiros. Simplesmente podem não ter informações sobre como os animais que venderam desempenharam as suas funções como tal. Ou podem estar primariamente concentrados nas possibilidades de que os cães de sua criação sejam ou não competitivos nos ringues de exposição – mesmo que a maior parte dos cães não seja adquirida para participar em competições. Além do mais, é difícil fazer com que os criadores sejam responsáveis pela qualidade dos cachorros que produzem. Eventuais fracassos podem ser prontamente atribuídos a erros cometidos por pessoas inexperientes que adquirem os cachorros – que os alimentaram com a dieta errada, que não lhes deram exercício suficiente, ou lhes deram em excesso e assim por diante.

A segunda barreira podemos defini-la com um ditado “preso por ter cão e preso por não ter”, quer isto dizer, que quanto mais responsável for o dono de um cão, maior a possibilidade de que esse cão seja castrado. Em resumo, muitos dos cães mais cuidadosamente seleccionados e nutridos, aqueles que se adaptam perfeitamente ao âmbito da companhia, quase nunca conseguem passar os seus genes para a geração seguinte. Por outro lado, o que nasce são cachorros produzidos mais ou menos por acidente, por causa de donos irresponsáveis, muitos dos quais são atraídos por cães com status, como os Pit Bulls, os Pastores Alemães ou os Rottweilers (daí a quantidade de exemplares dessas raças e de seus cruzamentos que acabam em canis de adopção ou de abate onde irão terminar os seus dias) Como todos os donos de cachorros são encorajados, de modo correcto, a castrar e esterilizar os seus animais para reduzir a superpopulação de cães, fazer isso, infelizmente, trabalha contra o propósito de criar uma população mais voltada para a companhia.

Também é problemático o facto de que a criação de cães com base na personalidade não seja tão simples como criar cães com vistas à sua aparência. Parte da explicação está em que os genes não codificam os comportamentos como tais – mas outra parte está em que o próprio papel do cão, de companhia não está claramente definido. Presume-se que cada dono ou futuro dono tenha um cão ideal em mente, de modo que existe um número infindável de cães “ideais”. No entanto, certos traços são universalmente desejados. A maioria das pessoas acredita que os cães de companhia devem ser dóceis, obedientes, robustamente saudáveis, fáceis de controlar, seguros com crianças, facilmente treináveis em casa e capazes de mostrar afeição pelos donos. Muitos donos também valorizam o contacto físico com o seu cão – uma descoberta que não deve surpreender, pois agora sabemos que acariciar um cão não só reduz o stress como também conduz à libertação da hormona do “amor” a oxitocina.

Outras características são avaliadas diferentemente por donos distintos. Algumas pessoas preferem um cão que seja dócil com toda a gente; outras, especialmente os homens, valorizam um alto sentido de territorialidade no cão, que eles veem como uma ajuda para a protecção da sua casa. Os homens também tendem a expressar uma preferência por cães enérgicos e leais, enquanto muitas mulheres dão mais valor à calma e à sociabilidade.

Mas a maior parte dos donos não prioriza o carácter quando escolhe um cão. Por exemplo, muitos valorizam mais a aparência que a personalidade e consideram o treino como relativamente sem importância, mesmo que esperem que os cães sejam obedientes. Além disso, se é verdade que um cão se adapta melhor ao estilo de vida de uma dada pessoa, isso pode mudar à medida das circunstâncias da vida dessa pessoa. Embora o tempo de vida dos cães seja menor que o nosso, ele ainda é bem longo se comparado com o moderno ritmo de mudança nos actuais estilos de vida.

Dito isto, a selecção com base no temperamento torna-se ainda mais desafiadora quando consideramos quantas variações existem, mesmo dentro de uma raça específica. Muitos dos traços “de companhia” mencionados acima são influenciados pela genética apenas de forma marginal. Anormalidades físicas e predisposições a doenças com base na genética podem, e devem, ser objecto dos cuidados de uma criação mais esclarecida; muitos outros traços, porém, tais como afabilidade, obediência, falta de agressividade e uma predisposição para a afeição são fortemente influenciáveis pelo ambiente e pela aprendizagem precoces. É difícil ver como esses traços podem ser activamente selecionados sem que paralelamente melhore a compreensão dos donos sobre como inculcá-los nos seus novos cães ou cachorros.

Traços de companhia podem ser difíceis de selecionar, mas com certeza outros traços comportamentais específicos das raças precisam ser reduzidos nos cães de companhia. A maior parte da selecção genética imposta aos cães durante a sua longa associação com o homem tem sido dirigida para traços úteis, como a habilidade nos pastoreio, na caça e na guarda. Mas agora que os cães no Ocidente, na sua grande maioria não se destinam a cumprir essas tarefas, precisamos reduzir esses vínculos, pois de outra forma a frustração prevalecerá. Aconteceu inúmeras vezes terem-nos pedido conselho se um lindo cachorro Border Collie daria um bom animal de companhia. Sempre dissemos que não, que esses cães são criados para trabalhar no campo e decerto achariam intolerável a vida na cidade. No entanto, quase todas essas pessoas que aconselhámos dessa forma foram em frente e compraram Border Collies de qualquer maneira e muitos arrependeram-se disso – mas não tanto como decerto fariam os próprios cães se o arrependimento existisse no seu arsenal emocional. Se tais cães devem adaptar-se ao âmbito da companhia, precisamos reconfigurar a raça para que eles não se sintam frustrados.

Finalmente, embora a extensão em que podemos criar cães de companhia seja ilimitada, também devemos ser cuidadosos para não ir longe demais na direcção oposta – aumentando a capacidade de afeição dos nossos cães até ao ponto de se tornar uma carga para eles. Já existe uma epidemia de desordens de separação, as chamadas ansiedades por separação, entre cães de companhia; aqueles que sejam avassaladoramente motivados para estar com os seus donos, o hiperapego, iriam, presume-se, sofrer de forma desproporcionada se deixados sozinhos. A maior parte dos donos não quer que o seu cão seja demasiado “pegajoso”. (ou, por falar nisso, demasiado saltitante: pede-se que os cães de companhia fiquem inativos, em média, durante três quartos das suas vidas.)

Há consideráveis desafios a serem enfrentados antes que os métodos de criação melhorem, não só porque muitos criadores ainda subestimam a necessidade de socialização dos cachorros, mas também porque existe um óbvio mecanismo pelo qual a melhor prática se tornará disseminada, graças simplesmente ao número de pessoas envolvido. A informação de que os criadores precisam para produzir cachorros bem socializados agora está amplamente disponível – esperemos que a sua adopção universal seja apenas uma questão de tempo.

Mesmo que a informação seja cuidadosamente difundida, não é provável que a criação irresponsável desapareça. As instituições de adopção e de recolocação arcarão inevitavelmente com o peso de lidar com os cães não desejados que resultarem dessa criação. Mas, felizmente também, elas começam a ter à sua disposição cada vez mais a informação necessária para adoptar métodos de bases científicas para reabilitar esses cães, e para garantir a compreensão, entre os donos adoptivos, do que faz os cães comportarem-se de uma certa forma e como o fazem, e para os auxiliarem estão a formar-se jovens terapeutas comportamentais caninos possuidores de vasta base técnica e cientifica, como são os casos dos formados nos Cursos de Formação do Centro Canino de Vale de Lobos. 

24/02/14

A "Adolescência" Canina

Como nos humanos, os cães também passam por um período similar à nossa adolescência que no caso deles tem o nome de “período juvenil”.

Também como nos humanos, este período tem como principal finalidade a afirmação e integração do cachorro no seio da matilha (família) onde estão inseridos, com todas as consequências, positivas e negativas, que daí advêm. Inicia-se com o final do período crítico ou de socialização, entre os 3 e os 4 meses, e termina em plena fase de maturação sexual, por volta dos 12 meses.

Um dos principais objectivos da posse de um cão e, para que ele os cumpra, é que seja amistoso, confiante, dócil e obediente de forma que sejamos capazes de resolver os problemas que podem influenciar os seus comportamentos e o seu adestramento durante a sua juventude, e que ele possa enfrentar a imensa convulsão social a que os cães, sobretudo os machos, têm que fazer frente quando entram na sua “adolescência”.

É muito mais fácil entrarmos nesta idade canina com um cão correctamente socializado e bem educado, o que não quer dizer que este trabalho de fundo não continue durante o período juvenil, apesar de poder ser uma tarefa difícil se não se souber como a enfrentar, e é essa a finalidade deste artigo: ajudar os adestradores e, fundamentalmente os donos, a superar esta fase bastante critica do comportamento social dos cães.


Mudanças de comportamento durante a adolescência

O comportamento está continuamente a mudar, umas vezes para melhor e outras para pior. Existem muito mais probabilidades de tudo correr bem se trabalharmos de forma recorrente com o nosso cão adolescente, mas de certeza que existem muito mais hipóteses de tudo correr mal se definitivamente nada fizermos. Nesta altura das suas vidas, tanto o seu comportamento como o seu carácter tendem a estabilizar (para o bem e para o mal) e para que se alcance esse equilíbrio benéfico só é necessário que o dono tenha o cuidado de gerir esta etapa da vida do seu cão de forma a que o animal, através de experiências positivas, aprenda a conduta que deve apresentar para que a inserção na estrutura familiar seja a mais correta. Pelo contrário, se não existir o cuidado de acompanhar este período da vida do animal de forma assertiva, poder-se-à no futuro não conseguir controlar as situações, podendo como consequência haver mudanças catastróficas que serão projectadas no seu carácter e, por arrasto, no seu comportamento futuro. Mesmo depois de ultrapassada esta fase e o animal alcance a sua maturidade social, devemos continuar atentos à aparição de comportamentos não desejados, que devem ser de imediato eliminados antes que se convertam em hábitos difíceis de erradicar.

A adolescência dos cães é a etapa em que tudo pode começar a desmoronar-se a não ser que se faça um esforço coordenado, se for caso disso com o adestrador, para a superar e alcançar a estabilidade da idade adulta. É, como a anterior, uma etapa critica e se é ignorada nesta altura a sua educação, iremos dar-nos conta que vivemos com um cão com maus hábitos, pouco familiarizado e, quiçá, altamente hiperactivo e descontrolado com todas as consequências desagradáveis que daí advêm.


A hierarquização como factor de integração na família humana

Esta é a melhor altura da vida de um cão para desenvolver as suas capacidades de adaptação ao meio ambiente em que vive, de hierarquização e de discriminação das características presentes no seu mapa filogenético. Dito de uma forma mais abrangente é neste período da vida dos cães que são desenvolvidos intrinsecamente os conceitos de hierarquia: liderança e submissão sem que esta seja sinónimo de subjugação. Como o leitor já deve ter reparado, não utilizamos aqui o termo dominância porque, como já afirmámos em artigos anteriores, esse é um conceito errado que não é aplicado aos cães na sua convivência com os humanos. O dono deve aproveitar esta altura para mostrar ao cão que está inserido numa estrutura social em que as regras são ditadas e impostas pelo elemento humano do grupo e, como tal, para que tudo decorra correctamente e sem grandes contratempos de percurso, só tem que as aceitar e seguir.

Para que isso aconteça, o dono, ajudado pelo adestrador, deve tomar algumas atitudes que induzem no cão que este não necessita de disputar a liderança no grupo porque esta posição já está ocupada pelo elemento humano e de que forma é que nós vamos dizer isso mesmo ao cão? Através de uma atitude coerente, recorrendo a descriminações positivas e negativas das condutas do animal (recompensando as boas e ignorando as más), interagindo com o animal e aproveitar os passeios para fomentar essa ligação através de brincadeiras controladas, sem excessos para evitar condutas de hiperactividade, ao mesmo tempo que, subtilmente, se começará a introduzir alguns exercícios de obediência básica. Ignorar os pedidos constantes de atenção por parte do cão; somos nós que decidimos quando e em que contexto o animal terá a nossa atenção com o objectivo fundamental de prevenir os saltos constantes e a colocação das patas no nosso peito, assim como os irritantes ladridos típicos de pedido de atenção. A refeição e a importância que esta tem para a sobrevivência dos animais, também deve ser aproveitada para o estabelecimento e reforço da hierarquia através de processos simples, tais como, a hora, o local e o recipiente da refeição devem ser sempre os mesmos, o animal tem que fazer sempre qualquer coisa de positivo para que possa começar a comer, como sentar-se, por exemplo, todos os elementos humanos da residência devem poder mexer na comida e retirá-la, se for caso disso, enquanto o cão se está a alimentar, sem que este manifeste nenhuma atitude agressiva.


O que se pode e deve fazer nesta fase

O início desta fase é altura óptima para se começar, além do estabelecimento da hierarquia, alguns processos de modificação de conduta, tais como:
  •    Criar associações na cabeça e nos hábitos dos cães como sejam, por exemplo, o trabalho do condicionamento clássico em que de um estímulo previamente condicionado obtemos uma resposta também condicionada. Poderemos assim, fazer com que o cão dê uma extrema importância ao ouvir o barulho de um clicker, por exemplo, e essa associação vai ser de extrema importância no futuro, durante os trabalhos de aquisição de hábitos nos exercícios de obediência básica;
  • Ensinar, de forma assertiva e sem recorrer a castigos físicos, que o seu comportamento tem sempre uma consequência – positiva se é o desejado, através de recompensas, ou negativa se não foi o solicitado, através da inibição da recompensa ou do acto de ignorar o cão. A este processo de criação de associações foi dado o nome de Condicionamento Operante porque opera sempre sobre o comportamento do cão e as consequências que este produz;
  • Se na altura devida não foi efectuada, podemos ainda, nesta fase, proceder ao ensino da inibição de mordida. É sempre muito desagradável e motivo de algum distanciamento e pretexto para não se interagir com um cão o facto de este, recorrente e inconscientemente, por não lhe ter sido ensinado que deve abrandar a pressão que coloca nas mandíbulas quando em contacto com a nossa pele, mordiscar as mãos e os braços dos donos. É um processo simples, fácil e rápido de se “dizer” ao cão que, se não nos tocar com os dentes quando estamos a brincar, essa brincadeira poder-se-á tornar muito agradável e estimulante. Os bons adestradores sabem como o fazer
  • É o período ideal para se iniciarem os trabalhos de adestramento em obediência básica e social. É nesta altura que as brincadeiras lúdicas e inconsequentes se transformam, subtilmente, em algo com algum conteúdo e utilidade para a convivência com o grupo humano, e não só, da sua matilha. Através de processos que utilizam os instintos e os reflexos do cão podemos potenciá-los, transformá-los e canaliza-los para os objectivos que pretendemos, sempre de uma forma positiva, assertiva e sem recorrermos ao castigo, principalmente físico e verbal. Se nós conseguirmos enraizar na nossa mente que os cães, e os outros animais, aprendem com as experiências vividas e criando relações entre elas, estamos capacitados para compreendermos o nosso cão e evitarmos erros desnecessários que irão comprometer irremediavelmente, não só a nossa relação com ele, mas também todo o trabalho correcto feito até ali. Metamos isto na nossa cabeça: o cão fez uma coisa bem feita, então recompensamos, se, pelo contrário, fez algo que não devia, em vez de castigarmos física ou verbalmente, ignoramos. Eles são excelentes discriminadores e brevemente chegarão à conclusão que vale mais a pena fazerem algo que da última vez foi recompensado do que algo que foi ignorado. O processo de castigar os animais quando estes fazem qualquer coisa que não devam, foi o utilizado durante muitos anos, até ao desenvolvimento a etologia como a ciência da aprendizagem e do ensino animal, pelos adestradores. Actualmente faz-se precisamente o contrário: recompensam-se os bons comportamentos e não se premeiam os maus ou até se ignora o animal que os pratica.
  • Outra acção que se pode fazer nesta fase, se não houve oportunidade de o fazer mais cedo, é a socialização intra-especifica, com animais da mesma espécie. Este trabalho é muito importante para evitar problemas futuros, principalmente confrontações entre machos inteiros (não castrados) tornando-se sempre muito desagradável e passível de lesões corporais por vezes de prognóstico reservado. Este trabalho de socialização deve ser efectuado em ambiente controlado, num recinto fechado, de preferência o mais cedo possível e com animais com mais ou menos a mesma idade.

O que não se deve fazer nesta fase

Todo o processo de ensino e modificação comportamental num cão deve ser feito sempre com enfoque na recompensa e não no castigo e, acima de tudo, nunca devemos ceder quando estabelecemos planos de hierarquização.

Os cães têm uma capacidade imensa de nos fazer sentir pena deles e adoptam condutas e posturas que nos levam a isso. Se, mesmo por uma vez que seja, inadvertidamente, cedemos, então estamos perante um problema de difícil solução por processos assertivos, portanto, o primeiro passo é certificar-mo-nos que o que estamos a fazer é o correcto, e para isso podemos pedir ajuda a um adestrador que utilize o reforço positivo no seu método de trabalho, depois, é implementar de forma coerente e irreversível todos os processos que levem à consecução dos nossos propósitos.


Não devemos, por proposta de um nosso amigo, de um suposto “expert” na matéria, ou de quem quer que seja, desviar-mo-nos do nosso caminho sempre que tenhamos a certeza de que o que estamos a fazer é o correcto. Se assim fizermos e se seguirmos à risca todos os conselhos aqui apresentados, teremos de certeza no futuro um grande companheiro para a vida pronto para ter e para nos dar grandes alegrias.        

27/11/13

A importância da caixa na educação e adestramento canino

A introdução da caixa, mais conhecida por caixa transportadora, no dia-a-dia dos nossos cães é relativamente recente. O próprio nome é indicativo da utilidade que lhe era, e é dada – servia e serve para transportar os animais, principalmente nas viagens de avião e, posteriormente, devido ao seu fácil manuseamento e à sua portabilidade uma vez que é construída num material leve, o pvc, foi também adaptada para o transporte nos veículos automóveis.
Recentemente começaram a ser descobertas as enormes vantagens que este acessório também tem ao nível do adestramento, da educação e principalmente do bem-estar dos cães e, como consequência, dos próprios donos.


A desmistificação do conceito “confinamento”.


O grande óbice que é colocado a uma utilização mais frequente da caixa transportadora na educação canina é a ideia enraizada, que a grande maioria das pessoas têm, de que este é um instrumento de tortura e clausura, uma vez que os animais ficam confinados a um pequeno espaço do qual nem se mexer podem e, isso sim, é muitas vezes erradamente utilizada como castigo por um qualquer acto reprovável que o animal tenha cometido. Quem nunca ouviu o termo: “portaste-te mal, vais para a caixa!”?

Nada mais errado.

O princípio que está subjacente à utilização deste importante acessório na educação dos nossos cães está alicerçado na maneira como os seus ancestrais, os lobos, utilizam um equipamento semelhante, mas mais rudimentar, que é a sua toca. Este pequeno buraco feito na terra ou entre pedras é tão importante para eles que o defendem com a própria vida, se for necessário. E porquê? Porque é o seu espaço, é aí que descansam, que dormem, que se abrigam, onde se protegem, onde têm e criam os seus filhos, enfim, é o seu pequeno mundo e por isso é um recurso tão importante e ao qual eles dão tanto valor e que o protegem tão afincadamente.

Como sabemos, os lobos deambulam e caçam principalmente ao nascer e ao final do dia, todo o resto do tempo passam-no nas suas tocas a descansarem e protegerem-se do calor, e de noite para dormirem, portanto, passam pelo menos 20 horas do seu dia refugiados no seu bem tão precioso que é a toca, e não julguemos que esse espaço é tão amplo como uma caixa transportadora, por exemplo, não, é uma pequena galeria onde não conseguem andar senão rastejando, mas é deles e é ali que se sentem bem e seguros, podendo assim descansarem com absoluta segurança.

Para os nossos cães a caixa tem o mesmo valor que a toca tem para os lobos. Se a habituação for a correcta, os cães encaram a caixa como sendo o seu pequeno mundo onde podem descansar, onde dormem mais confiantes sem a possibilidade de serem constantemente incomodados com os movimentos normais dos donos nas suas lides diárias e, inclusivamente, onde podem até brincar com os seus brinquedos favoritos sem terem que os partilhar.

Não. O estar na caixa não é considerada uma clausura para os cães, mas sim a possibilidade que eles têm de, como os seus ancestrais, se poderem recolher e descansar quando disso necessitem sem serem incomodados, exactamente como nós quando nos recolhemos aos nossos quartos.


Os enormes benefícios da utilização da caixa

  • §  Como já dissemos anteriormente, a primeira e mais importante mais- valia da utilização da caixa é a possibilidade que os cães têm de disfrutar da sua privacidade e poderem descansar e dormir mais comodamente sem serem importunados. Como consequência disso, quando acordam ficam mais activos, mais bem dispostos e prontos para a interacção com os seus donos;


  • §  Permite aos donos uma maior liberdade nos seus afazeres diários sem ter sempre o cão como sua “sombra”, permitindo também uma diminuição do hiperapego, se ele já existir, tão prejudicial para o correcto e saudável relacionamento entre o dono e o seu cão;


  • §  Muito maior facilidade no treino dos comportamentos de eliminação inadequada em cachorros e cães adultos. Os cães não eliminam onde dormem ou descansam e, como sabemos, normalmente fazem as suas necessidades depois de dormirem ou descansarem, sendo assim, a utilização da caixa permite-nos, logo que começam a ficar activos dentro da caixa, levá-los rapidamente para o local definido para a eliminação sem terem possibilidades de o fazer em local que não seja o adequado;


  • §  A utilização da caixa é uma ferramenta de inestimável importância no tratamento de uma patologia tão comum nos cães que vivem em apartamentos: a ansiedade por separação. Através dela e associada a um parque de maiores ou menores dimensões, em função do tamanho do animal, podemos delimitar o espaço que tem disponível para utilizar durante o período em que se encontram sozinhos em casa e, se além disso, dispuserem de brinquedos inetractivos com que se entretenham e rádio ou televisão ligados, permite prevenir os comportamentos destrutivos, a automutilação, e as vocalizações exageradas tão comuns nesta patologia;


  • §  É uma ferramenta de fundamental importância no ensino das regras e rotinas aos cachorros quando estes chegam à sua nova casa e são inseridos numa nova estrutura familiar. Com ela, além de os podermos ensinar a eliminarem num local adequado, indicamos-lhe logo de início onde dormir e descansar, quando o deve fazer, quando pode passear, quando e onde pode comer uma vez que passará a fazê-lo dentro da própria caixa, porque todas estas actividades irão estar ligadas ao se manterem ou não na caixa;


  • §  E por fim, fazendo jus ao nome, é um objecto fundamental para o transporte do cão não só de avião como de automóvel. Neste último caso, o facto de o animal ser transportado dentro de uma caixa e não nos bancos dianteiros ou traseiros, pode fazer a grande diferença de um acidente ter mais ou menos consequências em função da sua gravidade, tanto para o cão, como para o condutor e acompanhantes, como ainda para estranhos envolvidos no acidente.



A habituação do cão à caixa

Ao contrário do que possa parecer, a habituação do cão à sua caixa é um processo fácil e rápido, principalmente se o mesmo for feito ainda em cachorro e de uma forma correcta e assertiva, o que não quer dizer que o mesmo não se possa fazer com um cão adulto.

Regra básica nº 1: associar sempre a caixa a algo agradável e nunca a um castigo recorrente de algo que o animal tenha feito de errado.

Para que o cão vá por vontade própria para a caixa, tem que haver aqui sempre algo de muito agradável para ele: biscoitos, guloseimas, uns pedaços de queijo, de salsicha, um brinquedo que ele adore, etc., qualquer coisa muito interessante para ele e que o motive a entrar na caixa de livre vontade. O dono também pode ajudar a motivar o cão com muitas festas e palavras de incentivo.

No início, a porta da caixa mantém-se aberta enquanto ele disfruta das coisas agradáveis que lá estão, a pouco e pouco vamos começando a fechar a porta por pequenos períodos, de início só o tempo que ele demora a comer as guloseimas. Depois, a porta irá manter-se fechada por períodos cada vez maiores: 2 minutos, 5 minutos, 10 minutos, etc. Devemos aproveitar as alturas em que sabemos que ele vai descansar para o incentivarmos a fazê-lo dentro da caixa. O que é importante neste processo é que ele saiba que não vai ficar fechado eternamente mas sim o período necessário para o seu descanso.


O que não se deve fazer

  • §  Como já dissemos anteriormente, nunca devemos associar a caixa a qualquer espécie de castigo. A caixa, na cabeça do cão, tem que estar sempre ligada a coisas muito positivas e agradáveis;


  • §  Por razões óbvias, o animal nunca deve estar fechado na caixa por mais de 4 horas de forma contínua, excepto durante a noite enquanto dorme;


  • §  A caixa nunca deve ser aberta enquanto o animal estiver a bater na porta ou a ladrar, se isso for feito ele associa o seu acto à abertura da porta, consequentemente sabe que sairá sempre que quiser;


  • §  Somos nós que decidimos quando devemos abrir a porta da caixa e deixar sair o cão e não ele que pelas suas atitudes impõe que esta lhe seja aberta.



Resumo


Ao contrário do que se possa pensar e pela experiência que tenho com os meus cães, eles adoram a sua caixa (toca). Se o processo de habituação e cumprimento das regras for bem executado, o nosso cão ir-se-á deslocar para o seu abrigo sempre que sinta necessidade de dormir ou descansar, com as consequências altamente positivas que esse facto tem no bem-estar dele e nosso, promovendo assim uma sã convivência entre nós e o nosso amigo de quatro patas. 

24/09/13

Será que os cães consideram as crianças como pequenos seres humanos?

A visita que dois dos cães do Centro Canino de Vale de Lobos fizeram a um jardim de infância com o objectivo de demonstrarem a cerca de 100 crianças, com faixas etárias dos 3 aos 5 anos, que um cão pode efectivamente ser um grande amigo e, principalmente a forma como eles interagiram com as crianças proporcionando a estas momentos de puro deleite, levou-me a reflectir sobre a convivência entre cães e crianças e a questionar-me se de facto eles as vêm como seres humanos numa escala mais reduzida.

Actualmente, há investigadores empenhados em estudar esta área tão complexa e que têm chegado a conclusões no mínimo inesperadas. Nesse sentido, gostava de partilhar algumas das palavras do investigador Inglês John Bradshaw e que vamos citar do seu último livro “Dog Sense” (2011)

“Mesmo que os cães possam ter várias categorias «amigáveis» de forma simultânea (capacidade que é incomum entre os mamíferos), todo o indivíduo tem os seus limites. Isso está bem exemplificado pela desconfiança que alguns cães nutrem em relação a crianças. Como sabem os cães que as crianças são seres humanos pequenos e não uma espécie inteiramente diferente? A resposta, ao que tudo indica, é que eles não sabem. As crianças são marcadamente diferentes dos humanos adultos em muitas coisas – a forma como se movem, os sons que produzem, e provavelmente, o que é de significação específica para os cães, o cheiro que emitem. Cães que nunca estiveram expostos a crianças quando cachorros podem ficar muito desconfiados delas quando se encontram pela primeira vez já adultos, embora, sendo cães, possam vir a ser treinados para vencer essa relutância inicial. Por outro lado, se no seu primeiro encontro com uma criança tiverem as suas caudas e as suas orelhas em posição de alerta, tais cães se tornarão irritáveis e mal-humorados com outras crianças. O cão generaliza as crianças, tratando-as como uma categoria e não como indivíduos. Do mesmo modo, durante a socialização, os cachorros precisam generalizar entre um adulto e outro. Embora os cachorros decerto cheguem a reconhecer algumas pessoas como indivíduos, gente estranha será presumivelmente categorizada como «amigável» com base na sua similaridade com as primeiras poucas pessoas que o cachorro conheceu.

Por isso é tão importante (de forma calma e simpática) apresentar os cachorros a um espectro tão amplo de gente quanto for possível: tanto homens como mulheres (pessoas que vistam diferentes tipos de roupa), homens com barba, assim como homens bem barbeados, e assim por diante. Esse procedimento ajuda a expandir os limites do que o cão categoriza como «ser humano adulto». Se o gabarito for muito estreito, talvez porque o cachorro conheça apenas uma ou duas funcionárias do canil durante todo o seu período sensitivo, ele pode reagir à aparição de homens com medo e ansiedade. Essa é uma das (muitas) razões porque os donos têm dificuldades com cães provenientes de «produtores industriais de cães» ou de pet shops: o conceito que fazem os cachorros sobre a aparência da raça humana é, com frequência, muito restrito, e eles reagem de forma padronizada ao evitar, com temor, qualquer outro animal de duas patas com que se defrontem”

Na sequência do que John Bradshaw argumentou, atrevia-me a perguntar: será que os cães vêm os homens e as melhores como pertencendo à mesma espécie?

Porque este é um conceito totalmente inovador, carece de mais investigação, mas pelos sólidos argumentos apresentados pelos investigadores, penso que merecem da nossa parte um voto de confiança na continuação das investigações.


Apesar disso, não deixa de ser um tema que merece, pelo menos, um acto de reflexão da nossa parte e pensemos assim: será que não faz algum sentido as conclusões que chegaram até agora os investigadores?     

Sílvio Pereira