O que é que existe na sociedade humana que a torna tão passível de ser explorada? E como é que os cães conseguem fazê-lo? Nós somos, tal como dizia John S. Kennedy, etólogo especialista do comportamento animal, antropomorfizadores “compulsivos”, sempre à procura de comportamentos que mimem, mesmo ao de leve, fenómenos sociais humanos como a lealdade, a traição, a reciprocidade.
A nossa capacidade cognitiva que faz com que atribuamos responsabilidades aos outros é, em parte o que nos torna humanos. Mas isso é realmente compulsivo. Os seres humanos fazem-no de uma forma tão instintiva que estão sempre a atribuir motivos bons ou maus a forças inanimadas como, por exemplo, o tempo.
A nossa esperteza desaparece quando estamos na presença de um mestre como o cão. A nossa tendência é agarrarmo-nos a comportamentos caninos, que afinal são programados, e vermos nesses comportamentos histórias de amor e fidelidade. Muitas vezes, os cães só precisam de ser eles próprios para nos iludirem.
Tomemos como exemplo o “instinto de protecção” em que os donos de cães têm tanto orgulho. Estudos recentemente divulgados concluíram que este foi dos instintos que mais se foi diluindo com a domesticação do cão desde o seu inicio, há 16 000 anos. Os investigadores demonstraram que esta manifestação pretensamente instintiva não tem nada a ver com a lealdade do cão e a suposta preocupação que ele tem por nós. É sim um exemplo daquilo que os psicólogos chamam de “agressão facilitada”. Em vez de sermos protegidos, o cão sente-se protegido por nós e está alerta para qualquer sinal de perigo vindo do exterior.
Pensemos também nas inúmeras histórias que já ouvimos sobre cães que salvaram pessoas. Os cães não têm nenhum instinto especial que os faça salvar pessoas e não entendem que é isso que estão a fazer mesmo quando o fazem. Os cães de busca e salvamento são treinados através da exploração do instinto que têm (esse sim) de cobro ao trazer objectos que lhes são atirados. Os cães são treinados a apanhar e a ir buscar apenas um objecto. Uma vez que conseguem dominar esta tarefa, estão prontos para o passo seguinte: o treinador pega num objecto que o cão goste muito e esconde-se e o cão é encorajado a encontrar o seu brinquedo (motivador). Quando o cão descobre o seu treinador, recebe o brinquedo como recompensa. A repetição frequente deste exercício facilita a consolidação do mesmo.
Isto não retira aos cães o seu fabuloso sentido de olfacto e a capacidade que têm para serem treinados, nem o útil que são em situações desse género. O Que isto significa é que as coisas são mais simples do que nós queremos acreditar. Tal como Gregory Acland salienta, “o que estamos a fazer é isolar um comportamento e a subvertê-lo.” Newfoundlands e outros cães que retiram objectos da água não podem nadar ao lado dos seus donos porque estão sempre a tentar “salvá-los”.
O ponto a que comportamentos complexos semelhantes são geneticamente programados é por vezes assustador. Cadelas grávidas ou em pseudo-gestação tentam frequentemente adoptar um animal de peluche e “tomar conta” dele. Um pássaro cardeal no seu ambiente natural foi observado durante semanas a alimentar peixinhos. Os peixes vinham à tona da água e abriam a boca – como fazem os filhos dos pássaros -, e isto despoleta o comportamento “paternal” da ave.
Uma parte do trabalho de Elaine Ostrander no Projecto sobre o Genoma Canino apresenta uma tentativa em identificar os genes responsáveis por instintos caninos tão complexos como o dos border collies e a sua tendência gregária ou o gosto pela água dos newfoundlands. A terceira geração de cachorros cruzados entre border collies e newfoundlands revelou uma boa mistura dos dois comportamentos – o suficiente para acreditarmos que foram controlados geneticamente. Esta experiência, que envolveu cerca de uma dúzia de genes, prova que precisaríamos de uma centenas de cães para concebermos uma estrutura desses genes.
Melissa Fleming, uma seguidora dos passos de Ostrander, desenvolveu uma análise que permite quantificar certas diferenças de comportamento inatas. Fleming descobriu, que os border collies olhavam fixamente para um carro que funciona por controlo remoto, enquanto o newfoundland não lhe prestava qualquer atenção e só reagia quando o carro vinha na sua direcção.
Outros estudos demonstraram até que ponto é que o comportamento canino é geneticamente definido. Certos tipos de huskies siberianos e de pointers têm uma enorme timidez ou aversão em relação ao ser humano. Quando em contacto com outros cães e mantidos no mesmo canil, os cães tímidos retraem-se (os pointers chegam mesmo a ficar totalmente imóveis quando as pessoas se aproximam), enquanto os outros cães pedem festas. Os criadores conseguiram produzir cães de raça que ladram e outros que não ladram quando sentem o cheiro de uma pista e dálmatas que assumem ou não posições de estátua e acompanham de perto o galope dos cavalos, e até poodles miniatura que nos dão um “passou bem” ou não.
Muito provavelmente o gene da submissão não existe, mas é isso que faz com que o cão saia muitas vezes ileso de situações, inclusivamente de homicídio, na sociedade humana e é inato no comportamento social do lobo. Os cães são animais sociais, tal como nós. A organização social canina consiste numa hierarquia muito rígida em que a submissão a cães superiores e o seu apaziguamento são elementos fundamentais para a sobrevivência. As hierarquias de domínio evitam a violência, mas ela está sempre presente. “É isso que os cães fazem na vida”, diz Gregory Acland, “calculam o comportamento que é esperado deles numa determinada situação e actuam”.
Até os maus treinadores conseguem que os cães façam o que eles querem. Se berrarmos a um cão, ele adula-nos. Será que isto significa que ele se está a desculpar por se ter “descuidado” no tapete persa? A verdade é que isso não interessa ao cão. A adulação é uma técnica de desvio da agressão que o cão domina. Comportamentos como estes são próprios da evolução dos lobos porque são socialmente eficazes. Os cães limitaram-se a afinar estes comportamentos para os poderem aplicar na convivência com o ser humano. Tal como nós somos geneticamente programados para procurarmos sinais de amor e lealdade, os cães são geneticamente programados para explorarem essa nossa fraqueza.
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30/12/09
23/09/09
Origem e Evolução da Espécie Canina
No ano do 200º Aniversário de Charles Darwin e do 150º da publicação da sua magistral obra “A ORIGEM DAS ESPÉCIES”, damos o nosso modesto contributo aliando-nos às comemorações destes importantes eventos com a publicação deste artigo
As últimas investigações da genética molecular poderão alterar tudo aquilo que pensávamos em relação ao período, que era consensual, acerca da qual a espécie canina evoluiu demarcando-se da que lhe deu origem: a espécie lupina.
O mito conta que o homem achou que o cão era uma companhia útil e resolveu acolhê-lo. Os cães eram guardas, pastores ou ajudavam na caça. O testemunho arqueológico mais antigo de cães com uma morfologia diferente da dos lobos remonta a 16 mil anos no Médio Oriente, sugerindo uma evolução que coincide com o aparecimento das primeiras aldeias e antecede em alguns milhares de anos a domesticação de outros animais como as ovelhas e cabras.
A ideia de que os cães surgiram quando o homem se tornou um ser sedentário, é frequentemente repetida, de tal forma que é surpreendente encontrar provas na genética que contradizem por completo este conceito. A prova está num estudo feito por Robert Wayne, um biólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que aplicou as ferramentas da biologia moderna a cães, lobos, coiotes e chacais. Robert Wayne e os seus colegas recolheram amostras de sangue, tecido e pêlo de 140 cães de 67 raças e de 162 lobos de três continentes. Os cientistas mediram as diferenças existentes nos ADN das mitocondrias a fim de calcularem como esses vários tipos de caninos estão relacionados entre si e qual a data possível da separação de um antepassado comum. As mitocondrias são pequenas células que estão dentro das células dos animais e que transformam comida armazenada em energia com a ajuda do oxigénio e que também têm a particularidade – muito apreciada pelos geneticistas, aliás – de se reproduzirem assexuada e independentemente do resto da célula. O ADN normal de uma célula animal provem de ambos os pais. No entanto, o ADN das mitocondrias vem exclusivamente do ADN das mitocondrias da mãe. Numa reprodução sexual normal, a mudança genética de uma geração para a geração seguinte é muito rápida devido às misturas dos genes parentais em novas combinações.
Isto significa que o ADN das mitocondrias pode ser utilizado como um cronómetro da evolução. Os Lobos e os coiotes diferem em cerca de 6% no ADN das mitocondrias e, de acordo com fósseis descobertos, separam-se de um antepassado comum há cerca de um milhão de anos. Os lobos e os cães diferem em apenas 1%, o que sugere que lobos e cães se separaram há cerca de 135 mil anos, muito mais cedo do que a data sugerida para a descoberta do primeiro fóssil de um cão sem semelhanças com o lobo.
O cronómetro da evolução é uma medida antiga que não capta diferenças que tenham ocorrido entre as várias raças nas últimas centenas de anos. A descoberta mais marcante da equipa de Wayne foi constatar que não existia quase relação nenhuma entre a raça do cão a as sequências de ADN das mitocondrias. Em oito Pastores Alemães, os cientistas descobriram cinco sequências diferentes; em seis Golden Retrievers, descobriram quatro e as mesmas sequências apareceram repetidas vezes em muitas raças que aparentemente não tinham qualquer relação entre elas.
A questão é esta: se os cães forem de facto domesticados há mais de 100 mil anos, como sugerem os estudos de Wayne, então não houve muita variedade de raças nesses mesmos 100 mil anos. Em vez de se separarem em diferentes raças, o conjunto de genes caninos permaneceu num só, mas misturado. Houve uma saída de genes considerável na população, o que não teria acontecido caso os homens tivessem tentado manipular a criação dos seus cães ou desenvolvido raças especiais com determinadas características. O estudo de Wayne também sugere que durante muito tempo a diferença genética entre o cão e o lobo era demasiado pequena para provocar qualquer mudança morfológica significativa que pudesse ser comprovada no fóssil.
Mesmo se a distância do lobo ao cão fosse pequena, aparentemente isso não acontecia muitas vezes. Wayne descobriu que as sequências do ADN das mitocondrias se juntavam em quatro grupos principais. Se houvesse um novo afluxo de sangue de lobo na população canina (isto é, se o cão fosse reinventado sucessivas vezes de populações selvagens em épocas diferentes), estes diferentes agrupamentos não teriam ocorrido. Wayne concluiu que os primeiros cães “foram inventados de alguma forma na sociedade humana” para serem geneticamente isolados da população de lobos selvagens. E também que a domesticação dos cães provavelmente foi “um acontecimento raro”, algo que sucede muito poucas vezes.
Tudo isto aconteceu numa altura em que “os humanos não eram ainda humanos”, tal como refere Gregory Acland – veterinário que trabalhou com o investigador Aguirre no Centro para a Genética e Reprodução Canina de Cornell - , o que levanta a possibilidade interessante que o homem pré-histórico não tenha querido sequer domesticar cães. Pelo contrário, o cão pré-histórico achou por bem ficar perto dos humanos e convenceu-os a não lhe atirarem pedras nem a comê-lo.
Claro que este é um comentário hipotético. Se esta descrição está certa, não foi com intenção consciente dos cães. Mas também não houve praticamente intenção da parte dos humanos. A maravilha e a beleza da escolha natural está na criatividade e na inteligência “impensada” com que essa escolha é feita. A verdade é que os homens com os seus acampamentos, as suas pilhas de lixo e práticas de caça, representavam um nicho ecológico ideal para a exploração dos lobos, ou pelo menos por aqueles lobos, que na sua estrutura genética, conseguiram explorar aquele nicho e depois passaram esta capacidade aos seus descendentes. Apesar de existirem lobos espalhados por todo o Mundo, desde a Europa à Ásia, à América do Norte, a população total resume-se a 150 mil espécimes. Nos Estados Unidos existem cerca de 50 milhões de cães com dono e mais outros tantos sem dono, o que pode ser interpretado da seguinte forma: é preferível “engraxar” as pessoas que lutar contra elas.
19/08/09
O Genoma Canino
O ponto de partida para uma revisão científica sobre assuntos caninos é um esforço extremamente modesto mais conhecido por Projecto sobre o Genoma Canino, que não se compara ao Projecto sobre o Genoma Humano, um programa financiado com 3 biliões de dólares que tem por objectivo o levantamento de todos os genes do corpo humano. O projecto canino vai custar alguns milhões de dólares e muitos dos fundos serão provenientes de clubes de criadores Norte Americanos que pretendem desenvolver testes genéticos para doenças congénitas mais susceptíveis na raça que criam.
Descobrir os genes que provocam esta ou aquela doença é no que a maior parte das pessoas pensa quando se fala em levantamento de genes e investigação genética. Indicar as causas das doenças congénitas é, certamente, uma das maiores recompensas que surgirá dum melhor entendimento da estrutura genética do cão. Mas os genes de um indivíduo são mais do que um mapa da saúde pessoal. Eles são também a chave do percurso da evolução da espécie. O percurso do cão nos últimos 16 000 anos na companhia do homem deixou marcas distintas nos genes da população canina. Tal como um Arqueólogo pode deduzir hierarquias sociais, crenças e superstições numa civilização à muito desaparecida a partir de materiais por ela deixados, também o geneticista poderá deduzir muito acerca da história, evolução e ambiente social de uma espécie a partir dos padrões que todo este conjunto gravou nos seus genes.
Só o facto de termos chegado ao ponto em que os cientistas se decidem a fazer um estudo profundo sobre o genoma do cão, já significa uma mudança e um passo em frente no mundo da ciência. Durante vários anos, a comunidade científica manteve uma certa distância em relação aos animais domésticos em geral, mas particularmente no que diz respeito ao cão. Os zoólogos sempre consideraram os animais domésticos desinteressantes e sempre os classificaram como “degenerados” ou impróprios para pesquisa porque tinham perdido a capacidade de adaptação. Se pusermos a Medicina Veterinária de lado, é como se a genética molecular e outros grandes avanços científicos do século vinte e vinte e um tivessem pura e simplesmente esquecido o cão.
E depois convém não esquecer que os cientistas são tão sentimentais e pouco objectivos no que diz respeito aos cães como o resto da humanidade. “A maior parte dos cientistas que fala de cães tem o seu chapéu de cientista e de idiota”, refere Gustavo Aguirre do Instituto Baker para a Saúde Animal da Universidade de Cornell. “E sempre que começam a falar de cães põem o chapéu de idiota. Dizem coisas que não podem ser verdade. E, como cientistas, sabem-no. A verdade é que os cientistas sabem infinitamente mais sobre o genoma de um rato ou de uma ovelha ou ainda de uma mosca do que sobre o do cão”.
Há alguns anos, Aguirre e outros decidiram pôr os seus chapéus de cientista e aplicar as ferramentas da biologia moderna ao serviço do estudo do genoma do cão. O motivo foi tentar perceber as raízes genéticas de doenças congénitas como a cegueira que aprece em determinadas raças, como os poodle miniatura, os elkhound noruegueses, os setters irlandeses, os collies e os cocker spaniel. Estas doenças, caracterizadas pela cegueira nocturna seguida de uma deterioração da visão durante o dia, têm uma semelhança incrível com uma doença humana denominada retinite pigmentosa.
O estudo das causas das doenças genéticas caninas permanece um assunto central no trabalho destes cientistas, mas ao longo do tempo, o projecto adquiriu um teor mais vasto: elaborar um mapa aproximado, mas claro, do genoma do cão que nos permite compreender o que é que faz com que o cão seja aquilo que é e faça aquilo que faz.
Aguirre gosta de mostrar o seu laboratório ou “canil” aos visitantes. O laboratório tem quatro arcas enormes de aço inoxidável com filas de amostras de sangue congelado a temperaturas de 80 graus negativos. Para o mapa do genoma, os investigadores recolheram amostras de sangue de 212 cães de três gerações, todos eles resultados de cruzamento de cães de raças tão diferentes como poodls, Dobermann, setters irlandeses, elkhounds noruegueses e beagles. Felizmente, tanto para Aguirre como para os investigadores neste campo, os cães prestam-se a estudos genéticos. Ao contrário dos humanos, que têm tendência para o casamento entre familiares próximos, as raças de cães têm mantido a sua pureza através do cruzamento de cães da mesma raça. Os elkhouds noruegueses, por exemplo, são muito diferentes dos beagles não só pela sua aparência e pelas doenças congénitas que têm (os beagles quase nunca sofrem de cegueira degenerativa) mas também por causa do ADN “alterado” que se encontra em cada um dos seus cromossomas. Os genes são a sequência de ADN num cromossoma que dá ordens ao corpo para actuar. Mas longas tiras de ADN entre os genes acumularam-se ao longo dos tempos. As mutações em zonas importantes do genoma são frequentemente nocivas e têm tendência a serem eliminadas rapidamente, enquanto mutações no ADN alterado simplesmente amontoam-se, em variações ao acaso que podem servir para distinguir uma raça de outra. Os investigadores acreditam que as sequências de ADN alterado são úteis porque tendem a possuir padrões identificativos que facilitam a elaboração de uma “sonda” molecular que os define.
Isto significa que os investigadores podem usar sequências de ADN alterado como marcadores para os ajudarem a descobrir o caminho do genoma. Se cruzarmos um beagle com um elkhound, e depois cruzarmos também os seus descendentes, alguns destes cães sofrerão de degeneração da retina e outros não. E quase de certeza terão muitas diferenças nas marcas genéticas fáceis de reconhecer e medir. Se todos os portadores de doenças têm o marcador A numa determinada mancha num cromossoma enquanto os não-portadores não têm, o gene da doença deve estar eminente.
O laboratório de Aguirre e um grupo liderado por Elaine Ostrander no Centro de Investigação de Cancro Fred Hutchinson, em Seattle, utilizando a técnica descrita acima, criaram o primeiro mapa com um “sistema articulado” do genoma do cão que foi publicado em 1997. O mapa é composto por cerca de 150 marcas no genoma canino. Cada marca consiste em ADN alterado ligado a um gene que permanece constante. O gene permite aos investigadores identificar a sua posição no genoma. As variações permite-lhe investigar as diferenças genéticas entre os indivíduos e assim relacionar uma doença ou uma determinada característica física com um marcador específico.
Outra vantagem que os cães têm no que respeita à definição de um mapa de estrutura genética é o facto de se reproduzirem em grande número – ninhadas de 10 ou 12 cachorros é algo de muito frequente nos cães. As estatísticas indicam que as doenças que não podem ser identificadas no genoma humano, podem sê-lo numa família de cães. Vários genes responsáveis por distúrbios caninos foram já identificados e testes de rastreio foram desenvolvidos nesse sentido. O Clube Americano do Setter Irlandês, o primeiro a apoiar a investigação genética centrada nos problemas da criação, faz sempre um teste sanguíneo aos setters irlandeses puros que permite saber se sofrem de degeneração da retina.
Patrocinadores mais convencionais da investigação científica, como os Institutos Nacionais de Saúde e a Sociedade Americana de Oncologia, começaram a angariar fundos para o estudo da genética canina uma vez que, a pouco e pouco, se verificava que as doenças caninas e humanas parecia estarem cada vez mais relacionadas. Mais de vinte doenças congénitas nos cães foram identificadas em determinados genes defeituosos e em todos os casos o mesmo gene defeituoso foi encontrado no ser humano. Os cães são portadores do gene brca1, que foi identificado há uns anos como causador de aumento significativo do risco de cancro da mama nas mulheres. Provavelmente, 90 a 95% dos genomas canino e humano são idênticos.
Desde o início, os investigadores do genoma do cão aperceberam-se de que iriam descobrir muitas coisas acerca da história do cão e do seu comportamento inato – o tipo de coisas que as pessoas sempre quiseram saber. Ninguém espera encontrar o gene da lealdade, mas talvez existam genes do comportamento protector. E, embora não haja um gene nem sequer uma série deles que justifiquem a transformação do lobo em cão, o estudo da população genética de ambas as espécies podia dizer muito acerca da origem e história da domesticação.
Descobrir os genes que provocam esta ou aquela doença é no que a maior parte das pessoas pensa quando se fala em levantamento de genes e investigação genética. Indicar as causas das doenças congénitas é, certamente, uma das maiores recompensas que surgirá dum melhor entendimento da estrutura genética do cão. Mas os genes de um indivíduo são mais do que um mapa da saúde pessoal. Eles são também a chave do percurso da evolução da espécie. O percurso do cão nos últimos 16 000 anos na companhia do homem deixou marcas distintas nos genes da população canina. Tal como um Arqueólogo pode deduzir hierarquias sociais, crenças e superstições numa civilização à muito desaparecida a partir de materiais por ela deixados, também o geneticista poderá deduzir muito acerca da história, evolução e ambiente social de uma espécie a partir dos padrões que todo este conjunto gravou nos seus genes.
Só o facto de termos chegado ao ponto em que os cientistas se decidem a fazer um estudo profundo sobre o genoma do cão, já significa uma mudança e um passo em frente no mundo da ciência. Durante vários anos, a comunidade científica manteve uma certa distância em relação aos animais domésticos em geral, mas particularmente no que diz respeito ao cão. Os zoólogos sempre consideraram os animais domésticos desinteressantes e sempre os classificaram como “degenerados” ou impróprios para pesquisa porque tinham perdido a capacidade de adaptação. Se pusermos a Medicina Veterinária de lado, é como se a genética molecular e outros grandes avanços científicos do século vinte e vinte e um tivessem pura e simplesmente esquecido o cão.
E depois convém não esquecer que os cientistas são tão sentimentais e pouco objectivos no que diz respeito aos cães como o resto da humanidade. “A maior parte dos cientistas que fala de cães tem o seu chapéu de cientista e de idiota”, refere Gustavo Aguirre do Instituto Baker para a Saúde Animal da Universidade de Cornell. “E sempre que começam a falar de cães põem o chapéu de idiota. Dizem coisas que não podem ser verdade. E, como cientistas, sabem-no. A verdade é que os cientistas sabem infinitamente mais sobre o genoma de um rato ou de uma ovelha ou ainda de uma mosca do que sobre o do cão”.
Há alguns anos, Aguirre e outros decidiram pôr os seus chapéus de cientista e aplicar as ferramentas da biologia moderna ao serviço do estudo do genoma do cão. O motivo foi tentar perceber as raízes genéticas de doenças congénitas como a cegueira que aprece em determinadas raças, como os poodle miniatura, os elkhound noruegueses, os setters irlandeses, os collies e os cocker spaniel. Estas doenças, caracterizadas pela cegueira nocturna seguida de uma deterioração da visão durante o dia, têm uma semelhança incrível com uma doença humana denominada retinite pigmentosa.
O estudo das causas das doenças genéticas caninas permanece um assunto central no trabalho destes cientistas, mas ao longo do tempo, o projecto adquiriu um teor mais vasto: elaborar um mapa aproximado, mas claro, do genoma do cão que nos permite compreender o que é que faz com que o cão seja aquilo que é e faça aquilo que faz.
Aguirre gosta de mostrar o seu laboratório ou “canil” aos visitantes. O laboratório tem quatro arcas enormes de aço inoxidável com filas de amostras de sangue congelado a temperaturas de 80 graus negativos. Para o mapa do genoma, os investigadores recolheram amostras de sangue de 212 cães de três gerações, todos eles resultados de cruzamento de cães de raças tão diferentes como poodls, Dobermann, setters irlandeses, elkhounds noruegueses e beagles. Felizmente, tanto para Aguirre como para os investigadores neste campo, os cães prestam-se a estudos genéticos. Ao contrário dos humanos, que têm tendência para o casamento entre familiares próximos, as raças de cães têm mantido a sua pureza através do cruzamento de cães da mesma raça. Os elkhouds noruegueses, por exemplo, são muito diferentes dos beagles não só pela sua aparência e pelas doenças congénitas que têm (os beagles quase nunca sofrem de cegueira degenerativa) mas também por causa do ADN “alterado” que se encontra em cada um dos seus cromossomas. Os genes são a sequência de ADN num cromossoma que dá ordens ao corpo para actuar. Mas longas tiras de ADN entre os genes acumularam-se ao longo dos tempos. As mutações em zonas importantes do genoma são frequentemente nocivas e têm tendência a serem eliminadas rapidamente, enquanto mutações no ADN alterado simplesmente amontoam-se, em variações ao acaso que podem servir para distinguir uma raça de outra. Os investigadores acreditam que as sequências de ADN alterado são úteis porque tendem a possuir padrões identificativos que facilitam a elaboração de uma “sonda” molecular que os define.
Isto significa que os investigadores podem usar sequências de ADN alterado como marcadores para os ajudarem a descobrir o caminho do genoma. Se cruzarmos um beagle com um elkhound, e depois cruzarmos também os seus descendentes, alguns destes cães sofrerão de degeneração da retina e outros não. E quase de certeza terão muitas diferenças nas marcas genéticas fáceis de reconhecer e medir. Se todos os portadores de doenças têm o marcador A numa determinada mancha num cromossoma enquanto os não-portadores não têm, o gene da doença deve estar eminente.
O laboratório de Aguirre e um grupo liderado por Elaine Ostrander no Centro de Investigação de Cancro Fred Hutchinson, em Seattle, utilizando a técnica descrita acima, criaram o primeiro mapa com um “sistema articulado” do genoma do cão que foi publicado em 1997. O mapa é composto por cerca de 150 marcas no genoma canino. Cada marca consiste em ADN alterado ligado a um gene que permanece constante. O gene permite aos investigadores identificar a sua posição no genoma. As variações permite-lhe investigar as diferenças genéticas entre os indivíduos e assim relacionar uma doença ou uma determinada característica física com um marcador específico.
Outra vantagem que os cães têm no que respeita à definição de um mapa de estrutura genética é o facto de se reproduzirem em grande número – ninhadas de 10 ou 12 cachorros é algo de muito frequente nos cães. As estatísticas indicam que as doenças que não podem ser identificadas no genoma humano, podem sê-lo numa família de cães. Vários genes responsáveis por distúrbios caninos foram já identificados e testes de rastreio foram desenvolvidos nesse sentido. O Clube Americano do Setter Irlandês, o primeiro a apoiar a investigação genética centrada nos problemas da criação, faz sempre um teste sanguíneo aos setters irlandeses puros que permite saber se sofrem de degeneração da retina.
Patrocinadores mais convencionais da investigação científica, como os Institutos Nacionais de Saúde e a Sociedade Americana de Oncologia, começaram a angariar fundos para o estudo da genética canina uma vez que, a pouco e pouco, se verificava que as doenças caninas e humanas parecia estarem cada vez mais relacionadas. Mais de vinte doenças congénitas nos cães foram identificadas em determinados genes defeituosos e em todos os casos o mesmo gene defeituoso foi encontrado no ser humano. Os cães são portadores do gene brca1, que foi identificado há uns anos como causador de aumento significativo do risco de cancro da mama nas mulheres. Provavelmente, 90 a 95% dos genomas canino e humano são idênticos.
Desde o início, os investigadores do genoma do cão aperceberam-se de que iriam descobrir muitas coisas acerca da história do cão e do seu comportamento inato – o tipo de coisas que as pessoas sempre quiseram saber. Ninguém espera encontrar o gene da lealdade, mas talvez existam genes do comportamento protector. E, embora não haja um gene nem sequer uma série deles que justifiquem a transformação do lobo em cão, o estudo da população genética de ambas as espécies podia dizer muito acerca da origem e história da domesticação.
17/12/08
Será que co-habitamos com um Lobo?
Como foi amplamente analisado num artigo anterior, hoje temos 100% de certeza que o nosso cão (canis familiaris) descende do Lobo (canis lupus). Os testes entretanto realizados provam que a sequência de ADN mitocondrial de ambas as espécies são iguais em 99,8%. Portanto, seguindo a tese da evolução Darwiniana convivemos diariamente com um Lobo carregado com 16000 anos de domesticação.
Poder-se-á dizer que esse período de tempo é o suficiente para obtermos uma espécie construída à nossa imagem e às nossas necessidades? Os que pensam desta forma têm a seu favor o facto de que, através da Selecção Artificial, terem-se conseguido multiplicar raças com determinadas características, cada uma delas programadas geneticamente. Através da sequência de cruzamentos, conseguiu-se o aperfeiçoamento dessas mesmas características para fins específicos: cão de pastoreio, de caça, de cobro, de guarda, de tracção, etc., e mais recentemente, depois do advento da implementação da Etologia como Ciência do Comportamento e dos estudos subsequentes sobre a aprendizagem, através do adestramento científico foram-se especializando cães com o objectivo de ajudar o homem noutras áreas, como é o caso dos cães-guia de invisuais, cães de terapia, de busca e salvamento, detecção de drogas e armas, de despiste de algumas patologias como alguns tipos de neoplasias.
Pois, mas também há quem advogue que, em termos evolutivos, 16 000 anos é um período demasiado curto para que uma nova espécie seja criada despojada de todas as ligações genéticas, instintivas e comportamentais que as unia à que a precedeu.
Portanto, estamos numa encruzilhada e daí a pertinência da pergunta: Será que convivemos diariamente com um Lobo?
Quando o leitor observa atentamente um grupo de cães em liberdade, constata que existe uma série de posturas ritualizadas que estes adoptam com um vincado cariz organizacional muito estruturado. Podemos observar claramente que existe uma perfeita hierarquização no grupo: há um chefe que eles sabem qual é, e depois há os subordinados que não se importam de o ser, desde que, para bem do grupo, seja emanada uma liderança segura e convincente por parte do chefe. Como demonstração da aceitação desse facto, os cães comunicam entre si através de uma série de tipos de linguagem intra-especifica que vão desde o olhar, a uma vasta panóplia de vocalizações, posturas corporais específicas, colocação da cauda, expressões faciais, etc.
De vez em quando – não tantas quanto desejávamos – somos brindados com documentários televisivos sobre Lobos. Aí podemos observar, com admiração e alguma incredulidade, as parecenças que existem entre o comportamento das alcateias e a das matilhas de cães em liberdade. Todo o conjunto dos vários tipos de comunicação e organização social que tínhamos observado nos cães, estávamos agora a apreciar nos Lobos.
A dúvida adensa-se: Será que o nosso inofensivo cão é um Lobo?
Para tentarmos compreender melhor esta temática, falemos de comportamentos instintivos procurando fazer uma analogia entre o cão e o Lobo:
- Quando estamos a brincar com o cão atirando uma bola ou um pau para ele ir buscar, estamos a desenvolver-lhe sequencialmente dois instintos primários típicos dos Lobos: o Instinto de caça – correr para alcançar – e o instinto de presa – agarrar com os dentes. Estes são dois dos instintos mais básicos dos Lobos e que têm entre si um denominador comum: sobrevivência.
- O ladrar ao carteiro ou ao transeunte que passa junto dos muros da nossa propriedade, não tem para nós um significado muito especial, mas para o cão é um comportamento instintivo herdado dos seus ancestrais, os Lobos. O instinto de guarda é aquela conduta que os Lobos utilizam para proteger a alcateia dos invasores, ou dos predadores, como os ursos ou o próprio homem. Nos cães esse instinto é inato e não tem a ver com raças. Quantas vezes ouvimos um chihuahua ou um pinscher a ladrar da mesma forma que um pastor alemão ou um dobermann, quando nos aproximamos dos seus territórios?
Territórios esses que são de tal maneira guardados e protegidos, por serem escassos, que os seus ocupantes, de tão zelosos que são, têm o cuidado de os delimitar marcando-os com a sua própria urina, para que um possível intruso saiba que o mesmo já tem dono impedindo-o de se aventurar em o ocupar. Assim como identificar possíveis visitantes através do cheiro da zona anal com o objectivo de saber se pertence ou não ao grupo residente. Quantas vezes já vimos os nossos cães alçar a pata e urinar contra o muro de entrada da nossa propriedade, e quantas vezes deparámos com a desagradável situação de vermos o nosso cão cheirar o traseiro do cão do vizinho. Não existe nada de estranho neste comportamento, eles estão unicamente a fazer o que lhes está nos genes e a comportar-se como os seus ancestrais, tentando defender o seu território e a sua “matilha” humana.
- Ficamos aflitos quando o nosso cão desaparece sem motivo aparente e, depois de muita procura, o encontramos num grupo de outros cães que, aparentemente, nada têm em comum. Mas o facto é que têm: uma fêmea na fase produtiva do ciclo estral. Ficamos horrorizados e sem entender porque é que o nosso super premiado poodle se misturou com aqueles rafeiros mal cheirosos. Mas é verdade, o nosso cãozinho de estimação, durante esse período, deixou de ser um cão para se transformar num Lobo. O instinto de procriação é muito forte e a passagem dos genes para a geração seguinte é um dos objectivos de vida de todos os seres vivos.
Três instintos básicos inerentes quer a cães, quer a Lobos: Sobrevivência, Protecção e Procriação.
Posto isto, chegamos à seguinte conclusão: aquele que dorme, come e brinca connosco, que nos deixa meter a mão na boca, que é afagado por nós, que partilha os nossos sentimentos e as nossas emoções não é nem mais nem menos que um... LOBO com um percurso evolutivo de 16000 anos, daí que a designação científica mais correcta seria: Canis Lupus Familiaris
Poder-se-á dizer que esse período de tempo é o suficiente para obtermos uma espécie construída à nossa imagem e às nossas necessidades? Os que pensam desta forma têm a seu favor o facto de que, através da Selecção Artificial, terem-se conseguido multiplicar raças com determinadas características, cada uma delas programadas geneticamente. Através da sequência de cruzamentos, conseguiu-se o aperfeiçoamento dessas mesmas características para fins específicos: cão de pastoreio, de caça, de cobro, de guarda, de tracção, etc., e mais recentemente, depois do advento da implementação da Etologia como Ciência do Comportamento e dos estudos subsequentes sobre a aprendizagem, através do adestramento científico foram-se especializando cães com o objectivo de ajudar o homem noutras áreas, como é o caso dos cães-guia de invisuais, cães de terapia, de busca e salvamento, detecção de drogas e armas, de despiste de algumas patologias como alguns tipos de neoplasias.
Pois, mas também há quem advogue que, em termos evolutivos, 16 000 anos é um período demasiado curto para que uma nova espécie seja criada despojada de todas as ligações genéticas, instintivas e comportamentais que as unia à que a precedeu.
Portanto, estamos numa encruzilhada e daí a pertinência da pergunta: Será que convivemos diariamente com um Lobo?
Quando o leitor observa atentamente um grupo de cães em liberdade, constata que existe uma série de posturas ritualizadas que estes adoptam com um vincado cariz organizacional muito estruturado. Podemos observar claramente que existe uma perfeita hierarquização no grupo: há um chefe que eles sabem qual é, e depois há os subordinados que não se importam de o ser, desde que, para bem do grupo, seja emanada uma liderança segura e convincente por parte do chefe. Como demonstração da aceitação desse facto, os cães comunicam entre si através de uma série de tipos de linguagem intra-especifica que vão desde o olhar, a uma vasta panóplia de vocalizações, posturas corporais específicas, colocação da cauda, expressões faciais, etc.
De vez em quando – não tantas quanto desejávamos – somos brindados com documentários televisivos sobre Lobos. Aí podemos observar, com admiração e alguma incredulidade, as parecenças que existem entre o comportamento das alcateias e a das matilhas de cães em liberdade. Todo o conjunto dos vários tipos de comunicação e organização social que tínhamos observado nos cães, estávamos agora a apreciar nos Lobos.
A dúvida adensa-se: Será que o nosso inofensivo cão é um Lobo?
Para tentarmos compreender melhor esta temática, falemos de comportamentos instintivos procurando fazer uma analogia entre o cão e o Lobo:
- Quando estamos a brincar com o cão atirando uma bola ou um pau para ele ir buscar, estamos a desenvolver-lhe sequencialmente dois instintos primários típicos dos Lobos: o Instinto de caça – correr para alcançar – e o instinto de presa – agarrar com os dentes. Estes são dois dos instintos mais básicos dos Lobos e que têm entre si um denominador comum: sobrevivência.
- O ladrar ao carteiro ou ao transeunte que passa junto dos muros da nossa propriedade, não tem para nós um significado muito especial, mas para o cão é um comportamento instintivo herdado dos seus ancestrais, os Lobos. O instinto de guarda é aquela conduta que os Lobos utilizam para proteger a alcateia dos invasores, ou dos predadores, como os ursos ou o próprio homem. Nos cães esse instinto é inato e não tem a ver com raças. Quantas vezes ouvimos um chihuahua ou um pinscher a ladrar da mesma forma que um pastor alemão ou um dobermann, quando nos aproximamos dos seus territórios?
Territórios esses que são de tal maneira guardados e protegidos, por serem escassos, que os seus ocupantes, de tão zelosos que são, têm o cuidado de os delimitar marcando-os com a sua própria urina, para que um possível intruso saiba que o mesmo já tem dono impedindo-o de se aventurar em o ocupar. Assim como identificar possíveis visitantes através do cheiro da zona anal com o objectivo de saber se pertence ou não ao grupo residente. Quantas vezes já vimos os nossos cães alçar a pata e urinar contra o muro de entrada da nossa propriedade, e quantas vezes deparámos com a desagradável situação de vermos o nosso cão cheirar o traseiro do cão do vizinho. Não existe nada de estranho neste comportamento, eles estão unicamente a fazer o que lhes está nos genes e a comportar-se como os seus ancestrais, tentando defender o seu território e a sua “matilha” humana.
- Ficamos aflitos quando o nosso cão desaparece sem motivo aparente e, depois de muita procura, o encontramos num grupo de outros cães que, aparentemente, nada têm em comum. Mas o facto é que têm: uma fêmea na fase produtiva do ciclo estral. Ficamos horrorizados e sem entender porque é que o nosso super premiado poodle se misturou com aqueles rafeiros mal cheirosos. Mas é verdade, o nosso cãozinho de estimação, durante esse período, deixou de ser um cão para se transformar num Lobo. O instinto de procriação é muito forte e a passagem dos genes para a geração seguinte é um dos objectivos de vida de todos os seres vivos.
Três instintos básicos inerentes quer a cães, quer a Lobos: Sobrevivência, Protecção e Procriação.
Posto isto, chegamos à seguinte conclusão: aquele que dorme, come e brinca connosco, que nos deixa meter a mão na boca, que é afagado por nós, que partilha os nossos sentimentos e as nossas emoções não é nem mais nem menos que um... LOBO com um percurso evolutivo de 16000 anos, daí que a designação científica mais correcta seria: Canis Lupus Familiaris
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