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07/07/10

Explicação Etológica para a ANSIEDADE POR SEPARAÇÃO CANINA

Os problemas derivados da angústia por separação canina agrupam uma grande diversidade de manifestações de hipervinculação social e de lugar. A angústia por separação pode-se encontrar de maneira natural em muitas espécies de canídeos, sobretudo nas mais sociais como são o caso dos Lobos e dos cães domésticos.

Os comportamentos de ansiedade, incluindo a vocalização e a tentativa de conseguir proximidade em relação ao objecto de apego, são comportamentos adaptativos. O propósito evolutivo dos comportamentos de angústia por separação é prevenir que o cachorro se afaste para demasiado longe da unidade familiar e também para ajudar a mãe e outros membros da família a encontrá-lo. A angústia experimentada motiva o cachorro a permanecer junto do seu objecto de apego (primeiro o local de abrigo e depois a mãe). As vocalizações têm como objectivo actuar como localizador de forma que a mãe, ou outros membros da matilha, possam localizar o cachorro perdido. As vocalizações do cachorro podem provocar uma resposta de base psicológica na mãe que a leve a localizá-lo. No fundo, o propósito da angústia por separação é recalcar a importância do contacto directo e a vinculação entre o cachorro e a unidade familiar que o cria.

A ansiedade por separação não se observa em espécies de animais que não criam a sua prole. Há muitos répteis como as tartarugas marinhas, por exemplo, que não mostram comportamentos de angustia por separação. Grande parte deste sistema está presente de forma instintiva no cachorro cão e a aprendizagem adquire um efeito modulador à medida que passa o tempo. O alivio e consolo do contacto social (a mãe) e do local (abrigo) reforçam o contacto e o apego enquanto que a ausência relativa de consolo e a experiência negativa do jovem actuam para castigar o desenraizamento. Reunir o cachorro com o objecto de apego reforça os comportamentos de angústia. Quando o cachorro se afasta para demasiado longe é castigado com o isolamento. A dependência está afiançada no sistema social canino na criação dos cachorros. O período critico – ou de socialização - seguramente tem um papel fundamental no desenvolvimento de objectos de apego.

O ancestral do cão doméstico é o Lobo. Apesar dos cães serem uma espécie aparte, não há duvida de que compartilham a maioria das suas características mais enraizadas. Em ambiente selvagem, um lobito normalmente não deixa a sua toca antes das 3 ou 4 semanas de idade, nesse momento as excursões acabam com o regresso à segurança da toca. Os lobitos começam com um apego espacial (a toca) mais que social (a mãe). Nas semanas seguintes o cachorro vai amadurecendo, adquire maior confiança e familiariza-se mais com o mundo exterior. Começa a desenvolver um maior apego social com os membros da alcateia e familiariza-se cada vez mais com o mundo que rodeia a toca. Entre as 10 e as 12 semanas, os lobitos abandonam a toca de vez. Espera-se dos lobitos que, gradualmente, participem mais na vida da alcateia, também na caça dado que já ninguém lhe proporciona comida. Passam os dias ao lado das presas mortas onde comem e brincam. Logo vão a outra zona onde foi abatida outra presa. Este processo de maturação biológica e integração na alcateia é gradual e tem uma temporização perfeita. A ansiedade por separação raramente se converte num problema ou transtorno nestas condições.

O que ocorre com os cachorros é um pouco diferente. Quando estão na ninhada é possível que os criadores manipulem a proximidade dos cachorros à mãe. Parecendo que não, este procedimento pode ter resultados nocivos. Muitas vezes retira-se os cachorros da ninhada antes que estejam preparados, do ponto de vista biológico e psicológico. Nesta situação, a transição é brusca e traumática totalmente contrária ao pretendido que seria uma alteração gradual e sem problemas. Os novos donos, em muitos casos, enjaulam o cachorro num local separado da casa (canil, por ex.). Durante os dias seguintes o cachorro sente-se traumatizado por lhe ser estranho o local e o meio social. A isto muitas vezes junta-se o isolamento intolerável dos novos “objectos sociais” (a família). Os donos saiem para os empregos ou vão para a escola e querem que o cão fique sossegado longe do olhar da família. O isolamento provoca ansiedade, naturalmente, e o cachorro vocaliza constantemente para que o objecto de apego se reúna a ele. Isto não ocorre e o cachorro começa a sentir que não pode controlar o seu próprio meio envolvente: estamos a criar um animal neurótico. O cão sente-se desesperado.

Há muitos donos que não percebem o sofrimento do pobre cachorro, sentem-se frustrados e castigam-no por ladrar ou uivar. Gritar, ou o que é pior, bater no cão agrava o problema ao fazer com que o cachorro se sinta mais perdido e com maior necessidade de apego social. O apego social do cão pode reforçar-se (às vezes a níveis nada saudáveis) com este tipo de tratamento porque procura consolo no contacto social. Esta situação aumenta a incidência, duração e intensidade da angustia e tem como resultado vocalizações de ansiedade.

Se o cachorro não tem uma predisposição genética para a ansiedade por separação (sensibilidade/reactividade), e o dano não é muito grave, então pode aprender a adaptar-se a esse meio ambiente. Em situações novas é onde os cachorros se mostram mais ansiosos, tal como acontecem com as suas vocalizações às seis semanas de idade. A partir deste pico as vocalizações começam a baixar em circunstâncias normais, e entre as 12 e as 16 semanas os cachorros apresentam uma adaptação cada vez maior ao seu meio e menos ansiedade perante o isolamento.

Este é um processo adaptativo normal. Com uma predisposição genética ou práticas de criação inadequadas a angústia pode transformar-se em ansiedade, frustração e pânico, situação que marca o declive do estado psicológico do cão e da relação entre este e o seu dono.

09/06/10

Os Mecanismos do CONDICIONAMENTO OPERANTE

Este é um artigo fundamentalmente destinado aos Adestradores Profissionais que utilizam o Adestramento Positivo como método de ensino e que, por qualquer motivo, desconheçam as bases e os mecanismos que esse método utiliza na aprendizagem animal. Também é uma excelente oportunidade para corrigir um pouco a denominação de “Adestramento Positivo” que se atribui a este método uma vez que, mesmo nesta forma de aprendizagem, para corrigir os comportamentos inadequados utiliza-se sempre o “Castigo Negativo”.

O conceito de Condicionamento Operante, também por vezes chamado Condicionamento Instrumental ou Aprendizagem Instrumental foi criado por B. F. Skinner (1904-1990), baseando-se na Lei do Efeito de Edward L. Thorndike (1874-1949) que teorizou; as respostas que produziam consequências mais satisfatórias, foram "escolhidas" pela experiência e portanto, aumentaram de frequência. Algumas consequências reforçavam o comportamento, outras enfraqueciam-no.

O Condicionamento Operante

O condicionamento operante é o que ocorre quando aumenta ou diminui a frequência de um comportamento baseado nas consequências que o produziu anteriormente. Os comportamentos operantes são influenciados pelas suas consequências. O condicionamento operante aplica-se ao comportamento para alcançar objectivos. Os cães motivam-se para conseguir certos objectivos na vida, sejam de necessidade imediata, como conseguir oxigénio, ou o que seria alcançar uma experiência agradável subjectiva como pode encontrar no brinquedo preferido ou num odor para cheirar. Os cães fazem aquilo que os ajuda a conseguir o que querem ou que necessitam. Os comportamentos que realizam para conseguir tais objectivos estão muito influenciados pelo nível de êxito de métodos utilizados no contexto actual. Se um cão quer que o seu dono volte para ele, ladra e consegue que ele volte, seja por casualidade ou intencionalmente por parte do dono, então a probabilidade de que ladre no futuro aumentará exponencialmente. Se a estratégia teve êxito então repeti-la-á de novo.

A lei de efeito de Thorndike estabelece a noção básica do condicionamento operante: “se um comportamento tem como resultado um evento satisfatório então esse comportamento vê-se reforçado (fortalecido) e se um comportamento tem como consequência um evento desagradável então esse comportamento enfraquecerá”. Recordamos que o facto de que uma consequência seja considerada “satisfatória” ou “irritante” depende totalmente da perspectiva do animal que realiza o comportamento. Se o cão quer que o deixemos em paz e nos afastamos então o comportamento utilizado para conseguir tal objectivo ver-se-á reforçado positivamente. Por outro lado, se o cão quer que nos mantenhamos ao pé dele ou que lhe façamos festas e se nos afastamos, isso não seria um reforço positivo. De facto, para o cão isso seria um castigo negativo. Ao fim de contas tudo se reduz ao que o cão quer e se consegue o que quer como resultado do seu comportamento ou não. O facto de que algo se reforce ou se castigue não determina como nós o sentimos ou o que pensamos sobre o estímulo que foi apresentado ou retirado. A única maneira de sabermos se algo foi reforçado ou castigado é observar a frequência do comportamento, se é aumentada ou não. Tentemos concentrarmo-nos no efeito das nossas acções no comportamento em questão, mais do que pensarmos que algo deveria ter efeito de reforço ou de castigo.

Procedimentos do Condicionamento Operante


Genericamente existem quatro procedimentos que produzem um condicionamento operante.

Um animal pode experimentar consequências que provenham de distintas fontes. O dono ou outros animais podem ser a origem de tais consequências. O ambiente também. Há outras consequências que podem provir do próprio cão: os produtos químicos excitantes ou analgésicos que chegam ao cérebro do cão quando se sensibiliza podem-lhe provocar uma experiência agradável, por exemplo, e esta situação pode aumentar a frequência do comportamento que levou a essa resposta sensibilizada. Alguns cães aprendem a auto-mutilarem-se devido às respostas químicas que provocam no seu corpo. Poderá entender-se este comportamento como uma forma de se auto-medicarem.

Reforço Positivo (R+)


R+ implica o aparecimento de algo agradável para o animal. Se lhe apresentamos algo que ele entende como bom, então o comportamento que apresentou quando o recebeu será reforçado. Os cães com este tipo de comportamentos reforçados continuam a apresentá-los para que obtenham respostas positivas. São os primeiros a procurar e maximizar reforços.

O instante da apresentação do reforço é importante. O comportamento que realizava o cão quando recebeu o reforço aumentará em frequência. Assim que fizer algo que queremos premiar e se esperamos três segundos para o fazer, fica-se sem saber o que foi efectivamente premiado (e aí é muito importante o uso do clicker como marcador). Pode dar-se o caso de o cão ter feito uma dezena de coisas nesse espaço de tempo, e uma ou duas delas são as que serão reforçadas e nenhuma delas poderá ter nada a ver com o comportamento que queríamos reforçar. Pode acontecer também que julgamos que estamos a castigar um comportamento mas não importa o que nós achamos: só importa o que pensa o animal e se o toma como reforço positivo, então, isso é o que conta. Por exemplo, muitas pessoas pensam que gritar e empurrar o cão quando salta para atrair a nossa atenção é um castigo mas de facto essas acções podem reforçar o comportamento porque o cão procura atenção quando salta; gritar-lhe e empurrá-lo é dar-lhe atenção. O comportamento aumenta em frequência e nós não somos capazes de o reconhecer porque sentimos que as nossas acções deveriam castigar e esta situação bloqueia a nossa capacidade para avaliar de forma correcta os efeitos das suas acções. Outro exemplo: uma vez que o cão se habitua ao castigo, o seu corpo liberta uma grande quantidade de hormonas de luta contra o stress quando é castigado. Estes produtos químicos são muito aditivos desde o ponto de vista fisiológico e provocam prazer. O dono não consegue notar o aumento do comportamento porque está “seguro” de que deveria ser um castigo quando na realidade o castigo resulta num grande reforço. Para evitar estas situações devemos observar o efeito real sobre o comportamento para determinar se algo é um reforço ou não.

Castigo Negativo (C-)

C- implica retirar ao cão algo que lhe dá satisfação. Se o cão quer a nossa atenção ou apoio, afastamo-nos dele quando faz algo errado. Com este procedimento irá diminuir o frequência do seu comportamento. Se lhe colocamos uma guloseima diante do nariz, como isco, e entretanto se comporta de forma inapropriada, se lha tiramos (se a damos a outro cão ou se a comemos nós) a frequência desse comportamento inapropriado será reduzido, já que não deu resultado para conseguir o reforço.

Castigo Positivo (C+)

C+ implica apresentar ao animal algo que ele conote como negativo ou desagradável. Se lhe damos um puxão de trela, uma palmada ou uma severa reprimenda então o comportamento que realizava nesse momento seguramente diminuiu de frequência. Os cães são os primeiros a quererem minimizar os castigos e portanto comportam-se de maneira a evitá-los, a menos que exista um reforço que supere a experiência negativa. Não se deveria usar o C+ se existem opções de R+ e só deverá ser utilizado por um profissional que o deve programar com cuidado. O uso indiscriminado e sem conhecimento do C+ não é ético. Para se usar um C+ devem ser observados numerosos critérios. Primeiro deve ser suficientemente intenso para surpreender e erradicar o comportamento. Segundo, deve se aplicado cada vez que se produz o comportamento. Terceiro, o C+ deve ser utilizado imediatamente depois de ter acontecido o comportamento a corrigir. Quarto, devemos ensinar ao cão um comportamento alternativo que pode realizar para evitar o C+. Quinto, o comportamento deverá cessar ou reduzir-se significativamente com um par de aplicações do C+. Numa situação ideal o cão deveria apresentar um novo comportamento imediatamente depois de se aplicar o C+. Se existe um historial de reforço desse comportamento então será muito difícil que seja afectado pelo C+.

Não é que o castigo não funcione. Funciona se aplicado correctamente (que raramente acontece, mesmo aplicado por profissionais). O problema é que a aplicação do castigo não é ético se existe uma opção de R+ disponível e esse pode ser o caso. O C+ tão pouco é desejável se tivermos em conta os efeitos secundários. O condicionamento operante ocorre ao mesmo tempo que o condicionamento clássico (ou pavloviano). O cão associa as coisas agradáveis e desagradáveis com a pessoa que lhas apresenta, nós!. A menos que as façamos correctamente, inclusivamente neste caso, o cão experimentará uma resposta de stress e a aprendizagem será inibida. Além disso o cão tem que realizar um comportamento para ser castigado e cada ensaio do comportamento reforça de forma intrínseca e lhe dá mais confiança. E por que não prevenir o ensaio, baixar o valor do reforço do comportamento e aumentar o valor do reforço de um comportamento ou opção alternativa? Além disso, utilizar um C+ faz-nos entrar em areias movediças. Uma vez que se decide considerar o C+ como uma opção, normalmente deixamos de ser criativos para procurar um método de R+. A explicação está no facto da utilização do C+ ser mais fácil e requerer menos reflexão e também porque reforça descarregar coisas sobre o pobre animal. Aqueles que não utilizam o uso do C+ por opção são mais criativos e procuram maneiras menos arriscadas para alterar o comportamento.

Reforço Negativo (R-)

R- implica eliminar algo que o animal considere desagradável, a sua aplicação obriga à presença do C+. Se estrangularmos o cão, quando o levamos num colar de estrangulamento, na altura em que ele deixar de puxar estamos a aplicar um R- e uma vez que o animal o experimenta várias vezes reduzir-se-á a frequência do comportamento, a menos que exista um reforço que compense a má experiência ou a menos que a experiência do estímulo aversivo seja tão intensa que iniba o córtex cerebral (parte do cérebro que realiza a função cognitiva e a aprendizagem) ou a menos que se habitue a ele. Uma resposta emocional a uma experiência negativa inibirá a aprendizagem. O R- não deverá ser utilizado se existirem opções de R+ (é seguro que existem se se tiver disposição para pensar no assunto de forma criativa).

É importante salientar, por ser de extrema importância, que um C+ deve sempre terminar com um R-

Conheça melhor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Condicionamento_operante
http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/877.html

10/05/10

A Responsabilidade da Criação na Agressividade e Taras Hereditárias Caninas

2ª Parte


Hoje em dia, quando a aceitação da “biodiversidade” não científica é quase tão comum como a aceitação da “pureza da raça” o era há um século, a criação consanguínea é muitas vezes retratada como um mal absoluto. A criação consanguínea foi realmente uma técnica fundamental no desenvolvimento de praticamente todas as plantas e de todos os animais usados na agricultura e é a única forma de desenvolver rapidamente um caminho que produzirá consistentemente determinadas linhas desejadas. Isto é, no fundo, uma consequência do facto biológico de que os cromossomas vêm em pares e que cada um é herdado de cada um dos pais. Os indivíduos directamente relacionados – irmãos e irmãs, pais e filhos – certamente têm os mesmos genes. O cruzamento entre dois indivíduos directamente relacionados aumenta a possibilidade de o filho ter o mesmo gene para uma determinada característica em ambos os cromossomas – um estado denominado “homozigose”. Um organismo que é heterozigótico numa determinada característica, ou seja, que tem versões diferentes do mesmo gene em cada cromossoma, pode parecer-se a um outro que seja homozigótico, mas não passará essa característica ao seu descendente de uma forma tão consistente. Senão, vejamos o exemplo clássico. Tanto um indivíduo homozigótico como um indivíduo heterozigótico podem ter olhos castanhos, embora o segundo tenha um gene para olhos castanhos e outro para olhos azuis. O Castanho é “dominante” neste caso, embora os genes “recessivos” (azuis) de dois indivíduos heterozigóticos podem combinar na reprodução e produzir um descendente que seja homozigótico na característica recessiva e que por isso mesmo tenha um aspecto diferente: uma pessoa com dois genes azuis tem olhos azuis. Com um cruzamento entre homozigóticos, nada há a dizer. Seja qual for o par de cromossomas que passa para o filho, não haverá qualquer diferença nos resultados. Por outras palavras, os homozigóticos criam “a verdade do tipo” para determinadas características para as quais foram seleccionados.

Uma vez que os indivíduos aparentados têm muitos outros genes em comum, o cruzamento consanguíneo também aumenta a possibilidade de alguns genes de características indesejáveis noutros campos do genoma criarem problemas. Falhas em cruzamentos da mesma raça em animais domésticos tendem a ser recessivas, porque as doenças genéticas provocadas por marcadores dominantes são rapidamente eliminadas num programa de reprodução. Se eliminarmos da população reprodutora todos os animais que manifestaram sinais de uma determinada doença, displasia da anca por exemplo, estaremos também a eliminar os genes da doença de toda a população reprodutora. (Basta um só gene dominante para provocar uma doença dominante, então não existem portadores “silenciosos” destes genes). Mas as doenças genéticas que aparecem num só animal homozigótico numa característica recessiva podem ser transmitidas em silêncio durante várias gerações. Só quando há a combinação entre dois portadores desse gene recessivo é que a doença se manifesta.

Os dados genéticos confirmam que o último século de criação de cães produziu animais extremamente puros. Investigações utilizando marcadores de genes mostram que dois membros e uma família humana normal terão uma combinação de genes diferente de 71%. Em cães arraçados, essa quantidade de genes é de 57%, na maioria dos cães puros é de 22% e em certas raças raras é de 4%. Até os rafeiros são mais puros do que as populações humanas mais “puras” (os Amish, por exemplo, ou famílias na Índia em que existem casamentos entre tio e sobrinha).

Este grau de uniformidade significa que quando um marcador mau entra por acaso ele vai ficar restrito ao grupo. Uma série de doenças genéticas tem surgido em várias raças caninas. Algumas são verdadeiramente estranhas: a epilepsia dos poodles, rigidez muscular súbita nos terriers escoceses, febre crónica nos shar-peis, tumores em retrievers, problemas cardíacos em boxers e Dobermanns, etc.

O mundo do espectáculo canino e a preocupação obsessiva pela aparência das raças são frequentemente apontados como grandes responsáveis pela origem destas doenças genéticas. Mas nessa crítica não está o essencial: seleccionar uma coisa apenas (como a aparência) não invalida a escolha simultânea de outras coisas, como o comportamento gregário (social) e a saúde. Os criadores podem seleccionar as características que mais lhes agradam e não conseguirem travar o surgimento de doenças indesejáveis. Isto se começarem por uma população de início e fizerem os possíveis por manter o gene fundador nas gerações seguintes. Os cães de caça são testados frequentemente pra confirmação da condição física para competições. São seleccionados cuidadosamente pelo faro apurado que têm, pelo trabalho em “equipa” e pela habilidade em “falar” quando apanham o faro. Os border collies são seleccionados pela capacidade gregária. Quase todos por acaso também têm pescoços brancos e a cauda com a ponta branca.

A verdadeira origem do problema genético em muitas raças não está tanto na criação de raças com critérios de aparência, até porque a raça tem poucos ascendentes. Muitas raças também sofrem o “efeito de popularidade”, e aqui justificam-se as críticas feitas aos criadores. Um campeão dos ringues de exposição poderá dar origem a centenas de ninhadas , espalhando os seus genes virtuosos – e defeituosos – e afastando outras linhagens ancestrais. O problema é mais grave em raças que sofreram uma selecção genética. Raças que exibiam padeceres recessivos estranhos como os pastores irlandeses , os retrievers de pelo curto, os cães de água portugueses ou os shar-pei, quase desapareceram durante o último século e foram repescados de outras raças.

Ataques de agressividade em raças como os springer spaniel podem muito bem ser o resultado da existência de características recessivas numa população inadvertidamente fechada onde existem poucos genes originais. Mas os Juízes dos eventos de morfologia canina também têm culpas no cartório. Senão vejamos: os cães que têm a cabeça e a cauda direitas e erguidas atraem a atenção dos juízes e ganham os concursos. Mas estas são também marcadores de um cão dominador e agressivo. Alguns criadores de cães de exposição não vivem com os seus animais (são deixados nos canis) e estão perfeitamente dispostos a esquecer as características recessivas em detrimento de um pelo perfeito, por exemplo.

Reparar os danos

A conclusão surpreendente dos estudos genéticos modernos leva a crer que a pior maneira de corrigir estes erros é eliminar os portadores das doenças genéticas da população reprodutora. A falácia do ponto de vista racista foi centralizada na ideia de que a purificação da raça é geneticamente forte. De facto, o que se passa é o oposto – a diversidade genética é fortalecida porque ajuda a assegurar a reprodução entre homozigóticos em características desejáveis noutras partes do genoma. Até os portadores de doenças contribuem para a manutenção da heterozigose . Por exemplo, um cão que possui o gene da epilepsia pode também ser o portador do gene que o protege contra o cancro, tal como defende Deborah Lynch, da Fundação para a Protecção Canina (que investe cerca de um milhão de dólares anualmente em investigação de doenças caninas).

A chave está em não cruzar dois portadores de genes defeituosos. A solução está em manter os laços parentais o mais diversos possível enquanto se corrige o problema, e esta correcção vai sendo aos poucos e poucos mais fácil à medida que se vão descobrindo mais medidas de detecção de doenças genéticas nos cães.

Actualmente os criadores de cães já procuram obter formação nesta área (já existem Cursos, em Portugal inclusive, que formam criadores caninos) e já começam a entender cada vez melhor as questões genéticas e, como consequência dessa formação, hoje em dia têm mais capacidade de enfrentar problemas do que há alguns anos. No entanto, ainda existem criadores que em vez de utilizarem os conhecimentos existentes para detectar as doenças utilizam-nos para medir a pureza genética. Mas a criação de raças puras é como contratar um contador de histórias tendo somente em conta a quantidade de gerações que o precederam. O facto é que alguns marcadores genéticos podem estar associados a uma determinada raça por mero acaso. É possível, devido ao cruzamento consanguíneo entre cães, encontrar DNA (alterado) que é característico de uma determinada raça. Mas a estratégia mais sensata é basear a criação de cães na diversidade genética. De um ponto de vista científico, é perfeitamente possível fazer isto e simultaneamente satisfazer os desejos dos criadores em manterem pura uma determinada raça.

Porém, certos criadores de cães não têm o mesmo incentivo e as recompensas ainda vão para aqueles fecundados por campeões. Mas, a longo prazo, a disponibilidade cada vez maior de testes genéticos comprovará que os criadores sacrificaram bons genes na busca de cachorros que tenham no seu pedigree um ou mais campeões. Muitos clubes de raça incentivam o uso de testes disponíveis no mercado.

A verdade é que a diversidade genética canina é tão vasta como a dos seus antepassados selvagens.

Mas podemos ficar descansados porque teremos sempre os cães rafeiros ao nosso lado, apesar das tentativas sucessivas de os pormos de parte. Os rafeiros normalmente são saudáveis devida à sua energia híbrida e, em geral, são bons cães. De facto, os rafeiros simbolizam a herança da evolução do “Verdadeiro Cão”, esse animal que viveu connosco, que se adaptou e explorou a nossa sociedade e que o fez por si só. Os rafeiros são os verdadeiros cães e caso o pior aconteça talvez eles consigam abrir-nos novos caminhos, tal como os seus antepassados tão habilmente o fizeram pelo menos durante 15 900 dos últimos dezasseis mil anos.

09/04/10

Workshop de Iniciação ao Adestramento Positivo Canino

O Centro Canino de Vale de Lobos em parceria com a Associação Amigo do Rottweiler realizou no passado dia 8 de Maio um Workshop de Iniciação ao Adestramento Positivo Canino. Foi uma excelente jornada de trabalho e que contou com a presença de quinze pessoas extremamente interessadas em conhecer melhor a mente canina.
No final do evento, formadores e participantes mostraram-se bastante agradados com o produtivo dia de trabalho e alguns dos comentários que foram ouvidos foi de que "nunca pensei que se podia adestrar um cão sem ser através da obrigação..." ou que "nunca pensei que a mente canina fosse tão complexa e ao mesmo tempo tão simples e com interacções tão básicas e tão fáceis de perceber...".
Por fim, todos sentiram a necessidade de se continuar com este tipos de eventos para que cada vez mais pessoas possam ter acesso a um conhecimento mais profundo e correcto da mente canina e dos mecanismos que estão ao nosso alcance para os podermos ensinar ao mesmo tempo que brincamos com eles, e a tornarem-se membros de pleno direito da nossa sociedade.
Até à próxima.

A acção de formação teve a seguinte estrutura programática:

Data: Sábado, 08 de Maio de 2010
Local: Instalações do Centro Canino de Vale de Lobos
Horário:

9,30h às 13,00h

COMPONENTE TEÓRICA

Formador: Cláudio Nogueira (AAR)

* Apresentação da Associação Amigo do Rottweiler
* A Educação de um Cão
* A Socialização de um Cão
* O Adestramento de um Cão
* Ser dono de um Cão - Direitos e Deveres


Formador: Sílvio Pereira (CCVL)

* Apresentação do Centro Canino de Vale de Lobos

* Conhecer o Cão

- O Carácter
- O Temperamento
- Os Instintos
- A comunicação

* Condicionamento Operante

- O que é o clicker
- O treino com clicker

13,00h às 14,30h

Almoço

14,30 às 18,00h

COMPONENTE PRÁTICA

* Demonstrações de Adestramento
* Adestramento com cães dos participantes
* Encerramento com entrega de Diplomas


Condições de Inscrição:

* Esta acção de formação está limitada a 20 participantes
* Cada participante pode levar 1 cão
* Data limite para inscrições: 04-05-2010
* Preço da formação: 20,00 € (os subscritores do site da AAR têm um desconto de 5,00€)

De seguida apresentamos algumas fotos do evento:








09/03/10

A Responsabilidade da Criação na Agressividade e Taras Hereditárias Caninas

1ª Parte

Porque é que há tantos cães desadaptados nos nossos dias? Se os cães se domesticaram a eles próprios, se conseguiram o seu lugarzinho confortável na sociedade humana, caindo nas boas graças dos homens, se aprenderam comportamentos que suscitam uma resposta favorável, então porque é que os jornais estão constantemente a noticiar casos de agressão entre cães e pessoas?

Um jovem casal tinha um setter irlandês com 18 meses. O marido era frequentemente ameaçado pelo cão, que já lhe tinha mordido várias vezes. O cão rosnava cada vez que o marido entrava na sala. Isto acontecia quando a mulher e o cão estavam na sala antes do marido entrar. O cão gostava de ser passeado pelo marido, mas só a mulher podia estar presente na cozinha na hora da comida. Era frequente o cão atacar o marido quando ele tentava entrar no seu quarto depois de a mulher lá estar.

É impossível dizer ao certo se problemas como este pioram de dia para dia, mas não há dúvida que o fenómeno da agressividade nos cães é recorrente. Em Baltimore, uma cidade com aproximadamente 100 mil cães, houve cerca de sete mil ataques a pessoas num só ano. De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção da Doença, todos os anos nos Estados Unidos, 800 mil pessoas requerem assistência médica por terem sido atacadas por cães, seis mil são hospitalizadas por ataques mais graves e cerca de quinze pessoas, a maior parte crianças, são mortas.

A agressão faz parte da psicologia do cão. É assim que os cães mais jovens desafiam cães superiores na hierarquia canina. Outros comportamentos específicos reflectem tendências inatas que se revelaram incompatíveis com o dia-a-dia urbano da civilização moderna. Por exemplo, as raças de cães de montanha sofrem daquilo que os Etólogos como Katherine Houpt, da Universidade de Cornell, chamam “barreira da frustração”. Estes cães adoram correr, odeiam estar confinados a um espaço fechado e reagem a esta situação roendo tudo ou adoptando outro comportamento destrutivo.

Mas muitas vezes é o comportamento dos donos que influencia o cão. Os cães são tão bons a captar os sinais humanos que captam rapidamente as nossas falhas psicológicas. Um inquérito feito a donos de Cocker spaniel na Grã-Bretanha provou que os donos que menos se afirmavam tinham cães mais agressivos. O problema da ansiedade por separação aumentou com a quantidade de casais jovens que trabalham fora de casa e deixam o cão sozinho em casa a estragar tudo e depois regressam a casa e os enchem de mimos porque se sentem culpados por os terem abandonado. Existe também uma tendência, apontada tanto por criadores como por veterinários, para as pessoas verem as suas expectativas frustradas porque não fazem a menor ideia no que estão a meter-se quando trazem um cão de caça, por exemplo, para suas casas.

No entanto existem várias razões que nos levam a acreditar que a agressividade canina e outros problemas comportamentais não são “normais” no relacionamento entre o dono e o cão. Nem são sequer apenas o resultado da personalidade do dono. Em 16 000 anos, é provável que tenha havido uma selecção bastante apurada (mesmo que involuntária) dos cães agressivos. E a maior parte das pessoas que procuram ajuda por causa deste problema já fizeram como Houpt diz, “tudo o que podiam fazer”. Os cães selvagens não são muito agressivos; estudos feitos sobre cães urbanos indicam que apenas um terço de rafeiros exibe um comportamento agressivo quando alguém se aproxima.

Muitos explicam a agressividade canina pelo culto que certos grupos sociais fazem dos seus animais de estimação. Mas nem isto explica o que se está a passar. Raças como os Dobermann ou os Pastores Alemães, temidas pela agressividade, nem sequer aparecem nas listas dos cães mais problemáticos. De acordo com a investigação efectuada por Houpt, são cães como os Springer ou os Cocker Spaniel ou os Labrador que predominam nessa lista negra. O fenómeno da “fúria dos Springer” é conhecida pelos donos desta raça e dos Cocker Spaniel e de acordo com o inquérito de Houpt, 27% dos Springer morderam uma pessoa, o que é o dobro da média para os cães.

Estes ataques súbitos são estranhos, e tudo indica que a explicação está na forma como os cães foram educados durante o último século. Agora, quase todos já ouviram falar dos malefícios do cruzamento de cães da mesma família e outras doenças hereditárias estão constantemente a ser citadas por activistas dos direitos dos animais nas campanhas contra donos de animais de estimação, mas em especial contra criadores de cães. Estas imperfeições são frequentemente apresentadas como a consequência inevitável de qualquer tentativa por parte dos homens em manipular ou direccionar a evolução de uma espécie para características que lhe agradam.

Mas os marcadores genéticos sugerem que, há cerca de um século atrás, várias raças de cães foram desenvolvidas – qualquer raça, desde cães de colo até cães de guarda, desde cães de caça até cães de neve – sem que houvesse uma perda na diversidade genética geral e sem que houvesse uma alteração muito grande no que respeita à existência de anomalias físicas ou de comportamento. Também está provado que os problemas que surgiram não são tanto uma consequência directa de uma prática deliberada de criação, mas sim um efeito secundário que se poderia evitar.

Habitualmente os cães eram divididos em tipos gerais. Existiam cães pastores, cães de caça, spaniels, pointers, retrievers. Mas os pointers eram apenas pointers, e não pointers alemães de pêlo curto nem Vizslas nem Weimaraners. Tal como demonstraram os dados genéticos de Wayne, a reprodução na mesma raça e um fluxo de genes a uma escala universal estava a acontecer mesmo com a existência desta separação em tipos. Os tipos eram distintos, tanto no que diz respeito à aparência física como ao comportamento, e tinham sido pensados e escolhidos com objectivos específicos humanos. Mas o ponto crucial da questão está em que estes cães foram definidos pela forma e função e não pelo seu parentesco.

A partir de 1870, com a abertura de canis na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, livros de criação foram introduzidos no mercado em defesa da raça pura. Um cão só poderia ser registado como pertencendo a uma dada raça se os pais tivessem sido registados igualmente como sendo dessa mesma raça. Havia mais do que um pensamento racista por trás de tudo isto. Escritos sobre criação de animais de finais do século XIX, inícios do século XX, apontavam para uma eliminação de “fraquezas” e da necessidade de se manter a “linhagem pura” da raça. Olhando para a bibliografia de livros sobre cães o nome de Leon Fradley Whitney irá com certeza aparecer. Whitney foi o autor de muitos clássicos como O Livro Completo dos Cuidados do cão (ainda em circulação), O Cocker Spaniel, Como Treinar Cães de Caça e Como Criar Cães. O que certamente não se irá encontrar numa bibliografia sobre cães é uma outra faceta das obras de Whitney que inclui o livro Em defesa da Esterilização publicado em 1934, que recebeu uma carta elogiosa vinda de uma autoridade na matéria: Adolf Hitler (Whitney, pelo seu lado, elogiou Hitler publicamente, considerando-o um “grande estadista” quando ordenou a esterilização dos doentes mentais e dos loucos. Numa autobiografia que não chegou a ser publicada, escrita quarenta anos depois, Whitney ainda defendia a sua teoria de que “nenhum outro governante tinha tido a coragem nem o conhecimento de pôr o processo da esterilização a funcionar”. No entanto, concordou que na década de 30 não se tinha apercebido de que Hitler “era um ser humano desprezível.”)

Continua…

02/02/10

Comportamentos tipo dos cães que são separados temporariamente dos donos

Devido às necessidades actuais, têm crescido exponencialmente os hotéis caninos com vista a acolher temporariamente cães de donos que vão de férias ou, por qualquer outro motivo, necessitam de se afastar por um determinado tempo e não podem ser acompanhados pelo seu cão. É de registar, pelo que nos temos dado a perceber, uma intenção dessas instituições de proporcionar um elevado nível de bem-estar do cão de maneira a tentar fazer com que o animal se sinta “como em casa”. Mas muitas dessas intenções são baseadas no estabelecimento de uma analogia connosco próprios, quer dizer, pondo-nos no lugar do cão que está no canil.

Richard Dawkins em 1980 comentava que, “deduzir que um animal sofre enjaulado, porque nós reagiríamos dessa forma numa situação análoga, pode chegar a ser tão absurdo como pensar que um peixe se deveria afogar dentro de água”. Este conceito está tão difundido, que alguns fabricantes de rações preocupam-se em que os seus produtos tenham aromas agradáveis ao olfacto humano.

Quando falamos no castigo através da dor ou submissão, temos que ter em conta que tanto o medo como a dor ou outras formas de sofrimento não ocorrem por azar ou capricho masoquista da natureza, mas que foram produzidas pela Selecção Natural como mecanismos adaptativos e supõem uma vantagem evolutiva tanto para o homem como para o cão.

Por outro lado, a percepção da dor ou sofrimento está associada ao sistema nervoso e os componentes desse sistema é que são muito parecidos em ambas as espécies. Isto torna possível a ideia de que: apesar de não sofrermos pelas mesmas causas, o conceito de dor pode ser similar entre homem e cão.

É nas primeiras horas da estadia do cão no Hotel Canino que, através de observações atentas e conhecedoras, permite avaliar os comportamentos indicadores do seu bem-estar.

Os investigadores apontaram três tipos de comportamento ou categorias metodológicas que podem ser investigadas neste primeiro período de permanência num local estranho e acompanhadas por pessoas estranhas.

1. Modelo de comportamento associado ao GAS


Nalguns cães, o Síndrome Geral de Adaptação (GAS), é acompanhado de erecção dos pelos dorsais, expulsão de fezes e urina, vocalizações específicas, fuga ou agressões. A esta situação é chamada Reacção geral de emergência e, mais que como um indicador fiável de sofrimento, é utilizada para identificar o efeito desencadeador de stress em qualquer das manipulações a que são submetidos pelo tratador.

As reacções gerais de emergência são totalmente desejáveis para a sobrevivência de qualquer espécie. Imaginemos que somos sequestrados e introduzidos local fechado sem podermos comunicar com os nossos familiares. Não podemos, em nenhum momento, pensar que nos encontramos nessa situação por gosto, relaxados e em total acordo com o procedimento utilizado pelos nossos sequestradores. Sem cair no antropomorfismo podemos assegurar que qualquer cão equilibrado mostrará reacções anteriormente descritas. O GAS manifestar-se-á em função da classe hierárquica do indivíduo e o tempo que leva a desaparecer a predisposição do cão para se adaptar à sua nova situação.

2. Comportamentos associados ao medo, conflito ou frustração.

O estudo sobre estes modelos pode ser levado a cabo experimentalmente colocando o animal em situações que provoquem estes estados emocionais:

Presença de um humano com atitudes agressivas = medo
Colocar alimento frente a um modelo agressivo = conflito
Impedir-lhe o acesso a um alimento visível = frustração

Para esta experiência temos que ter em conta que é preferível contar com pessoas do sexo masculino que posteriormente não voltem a ter contacto com o cão. Se observarmos a magnitude dos conflitos descritos durante várias repetições num período não superior a dois dias, teremos um indicador quase fiável daquilo que o cão irá sentir posteriormente.

De realçar que é possível encontrar algumas raças e alguns indivíduos cujos comportamentos associados sejam totalmente dispares quanto à sua exteriorização.

A idade, a experiência do animal, a sua aprendizagem prévia, sexo e raça serão factores de variabilidade na hora de se estabelecer um “padrão próprio de tratamento” que deve ser estabelecido pelo tratador.

3. Comportamentos anormais.


Segundo Fox (1968) “são acções persistentes e não desejáveis que aparecem numa minoria da população, que não são provocadas por nenhum dano do sistema nervoso e que se generalizam para lá da situação que originalmente as provocou”. Normalmente são mal interpretadas como sendo “vícios”. O movimento de sacudir a cabeça, os contínuos passeios com o mesmo trajecto e, inclusivamente, a reiterada tentativa de morder a cauda é uma advertência de que nos encontramos perante um comportamento estereotipado indicador de uma conduta anormal.
Comportamentos estereotipados são um conjunto de movimentos repetidos e relativamente invariáveis que são realizados sem nenhum propósito aparente. A diferença entre um estereótipo indicador de uma conduta anormal e a de uma frustração ou medo, pode ser muito subtil e só um bom especialista pode distinguir se o cão apresenta uma reacção geral de emergência (totalmente desejável para a sua sobrevivência) ou realmente apresenta um comportamento anormal que é necessário corrigir.

Num período de férias em que há muitos cães entregues em hotéis caninos para uma estadia enquanto os donos se ausentam, achámos pertinente publicar este artigo que é fundamentalmente destinado aos responsáveis pelos Hotéis Caninos em geral e aos tratadores em particular.

O que nos motivou a fazê-lo são as nossas observações, em hotéis onde somos consultores, das dificuldades que os tratadores têm em resolver problemas de comunicação e manipulação de alguns cães, principalmente os que são separados dos donos pela primeira vez, com a consequente frustração de ambos. Sabemos que é uma situação pouco conhecida dos donos mas que é um problema altamente preocupante de todos os que estão encarregues de tratar de um “hóspede” a quem não conseguimos “dizer” que está ali temporariamente e que, sendo assim, não foi abandonado pelos “queridos” donos.

30/12/09

Adaptação Genética em Função das Necessidades da Domesticação

O que é que existe na sociedade humana que a torna tão passível de ser explorada? E como é que os cães conseguem fazê-lo? Nós somos, tal como dizia John S. Kennedy, etólogo especialista do comportamento animal, antropomorfizadores “compulsivos”, sempre à procura de comportamentos que mimem, mesmo ao de leve, fenómenos sociais humanos como a lealdade, a traição, a reciprocidade.

A nossa capacidade cognitiva que faz com que atribuamos responsabilidades aos outros é, em parte o que nos torna humanos. Mas isso é realmente compulsivo. Os seres humanos fazem-no de uma forma tão instintiva que estão sempre a atribuir motivos bons ou maus a forças inanimadas como, por exemplo, o tempo.

A nossa esperteza desaparece quando estamos na presença de um mestre como o cão. A nossa tendência é agarrarmo-nos a comportamentos caninos, que afinal são programados, e vermos nesses comportamentos histórias de amor e fidelidade. Muitas vezes, os cães só precisam de ser eles próprios para nos iludirem.

Tomemos como exemplo o “instinto de protecção” em que os donos de cães têm tanto orgulho. Estudos recentemente divulgados concluíram que este foi dos instintos que mais se foi diluindo com a domesticação do cão desde o seu inicio, há 16 000 anos. Os investigadores demonstraram que esta manifestação pretensamente instintiva não tem nada a ver com a lealdade do cão e a suposta preocupação que ele tem por nós. É sim um exemplo daquilo que os psicólogos chamam de “agressão facilitada”. Em vez de sermos protegidos, o cão sente-se protegido por nós e está alerta para qualquer sinal de perigo vindo do exterior.

Pensemos também nas inúmeras histórias que já ouvimos sobre cães que salvaram pessoas. Os cães não têm nenhum instinto especial que os faça salvar pessoas e não entendem que é isso que estão a fazer mesmo quando o fazem. Os cães de busca e salvamento são treinados através da exploração do instinto que têm (esse sim) de cobro ao trazer objectos que lhes são atirados. Os cães são treinados a apanhar e a ir buscar apenas um objecto. Uma vez que conseguem dominar esta tarefa, estão prontos para o passo seguinte: o treinador pega num objecto que o cão goste muito e esconde-se e o cão é encorajado a encontrar o seu brinquedo (motivador). Quando o cão descobre o seu treinador, recebe o brinquedo como recompensa. A repetição frequente deste exercício facilita a consolidação do mesmo.

Isto não retira aos cães o seu fabuloso sentido de olfacto e a capacidade que têm para serem treinados, nem o útil que são em situações desse género. O Que isto significa é que as coisas são mais simples do que nós queremos acreditar. Tal como Gregory Acland salienta, “o que estamos a fazer é isolar um comportamento e a subvertê-lo.” Newfoundlands e outros cães que retiram objectos da água não podem nadar ao lado dos seus donos porque estão sempre a tentar “salvá-los”.

O ponto a que comportamentos complexos semelhantes são geneticamente programados é por vezes assustador. Cadelas grávidas ou em pseudo-gestação tentam frequentemente adoptar um animal de peluche e “tomar conta” dele. Um pássaro cardeal no seu ambiente natural foi observado durante semanas a alimentar peixinhos. Os peixes vinham à tona da água e abriam a boca – como fazem os filhos dos pássaros -, e isto despoleta o comportamento “paternal” da ave.

Uma parte do trabalho de Elaine Ostrander no Projecto sobre o Genoma Canino apresenta uma tentativa em identificar os genes responsáveis por instintos caninos tão complexos como o dos border collies e a sua tendência gregária ou o gosto pela água dos newfoundlands. A terceira geração de cachorros cruzados entre border collies e newfoundlands revelou uma boa mistura dos dois comportamentos – o suficiente para acreditarmos que foram controlados geneticamente. Esta experiência, que envolveu cerca de uma dúzia de genes, prova que precisaríamos de uma centenas de cães para concebermos uma estrutura desses genes.

Melissa Fleming, uma seguidora dos passos de Ostrander, desenvolveu uma análise que permite quantificar certas diferenças de comportamento inatas. Fleming descobriu, que os border collies olhavam fixamente para um carro que funciona por controlo remoto, enquanto o newfoundland não lhe prestava qualquer atenção e só reagia quando o carro vinha na sua direcção.

Outros estudos demonstraram até que ponto é que o comportamento canino é geneticamente definido. Certos tipos de huskies siberianos e de pointers têm uma enorme timidez ou aversão em relação ao ser humano. Quando em contacto com outros cães e mantidos no mesmo canil, os cães tímidos retraem-se (os pointers chegam mesmo a ficar totalmente imóveis quando as pessoas se aproximam), enquanto os outros cães pedem festas. Os criadores conseguiram produzir cães de raça que ladram e outros que não ladram quando sentem o cheiro de uma pista e dálmatas que assumem ou não posições de estátua e acompanham de perto o galope dos cavalos, e até poodles miniatura que nos dão um “passou bem” ou não.

Muito provavelmente o gene da submissão não existe, mas é isso que faz com que o cão saia muitas vezes ileso de situações, inclusivamente de homicídio, na sociedade humana e é inato no comportamento social do lobo. Os cães são animais sociais, tal como nós. A organização social canina consiste numa hierarquia muito rígida em que a submissão a cães superiores e o seu apaziguamento são elementos fundamentais para a sobrevivência. As hierarquias de domínio evitam a violência, mas ela está sempre presente. “É isso que os cães fazem na vida”, diz Gregory Acland, “calculam o comportamento que é esperado deles numa determinada situação e actuam”.

Até os maus treinadores conseguem que os cães façam o que eles querem. Se berrarmos a um cão, ele adula-nos. Será que isto significa que ele se está a desculpar por se ter “descuidado” no tapete persa? A verdade é que isso não interessa ao cão. A adulação é uma técnica de desvio da agressão que o cão domina. Comportamentos como estes são próprios da evolução dos lobos porque são socialmente eficazes. Os cães limitaram-se a afinar estes comportamentos para os poderem aplicar na convivência com o ser humano. Tal como nós somos geneticamente programados para procurarmos sinais de amor e lealdade, os cães são geneticamente programados para explorarem essa nossa fraqueza.