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27/06/09

Ladrido Incontrolado

Recebe queixas do seu cão por parte dos vizinhos quando sai, ou gostaria de conseguir escutar o seu interlocutor quando está a falar ao telefone? Não desespere pois não é o único! O ladrido surge de forma natural, mas quando é excessivo e incontrolado é um dos problemas mais difíceis de resolver.

O ladrido incontrolado é um dos sintomas mais visíveis duma patologia comportamental da qual sofrem grande parte dos cães: A ansiedade por separação.

Como foi mencionado num artigo anterior dedicado à Comunicação Canina, os cães podem comunicar entre si utilizando cerca de dez tipos diferentes de sons, que vão desde o gemido até ao grunhido.

Ainda que o ladrido seja útil e normal como meio de comunicação, em excesso pode ser um incómodo para os humanos não só os que vivem com o cão mas também para os vizinhos.

Ladrar para dissuadir alguém de entrar no seu território – propriedade do dono – é normal, é o seu instinto de protecção a actuar, mas se existe uma sucessão de pessoas cruzando a propriedade e o cão ladra a todos eles, pode ser muito aborrecido e bastante incómodo. Infelizmente, os donos com frequência tentam silenciar o seu cão gritando-lhe, mas como as capacidades da comunicação canina não se estendem à compreensão do idioma humano, o cão simplesmente supõe que o seu dono está ladrando também e continua a ladrar, inclusivamente aumenta o seu tom.

Outros descobrem que ao ladrar fazem com que o seu dono lhes preste logo atenção, mesmo que só lhe grite: “Cala-te!” Afinal, parece que o cão desenvolve imaginação e ladra por tudo e por nada somente para conseguir atenção do seu dono.

Não obstante, a razão principal pela qual os cães aprendem a ladrar em excesso a toda a gente que cruza o seu território é o simples facto de que a maioria dessas pessoas se afastam. O cão não se dá conta de que não querem entrar, pensa que os afugentou, reforçando o seu acto.

Com frequência os proprietários de cães debatem-se com o problema do incómodo que os seus cães criam, principalmente aos vizinhos, que ladram incessantemente quando são deixados sozinhos em casa. Esses cães estão a tentar chamar os seus donos para que regressem a casa. Quando estes regressam o cão pensa que a consequência desse regresso prende-se com o facto de ele os ter chamado através do ladrido insistente. Assim, na próxima ocasião ladram com mais determinação ainda. A causa deste problema de conduta normalmente radica numa relação demasiado estreita entre o cão e os seus donos quando estes se encontram em casa. Isto causa ansiedade quando saiem porque não podem passar sem eles.

No seu habitat natural, o antepassado do cão, o Lobo, uiva para comunicar e reunir a alcateia. Como versões permanentemente imaturas dos seus ancestrais parentes, os cães tendem a ladrar mais que uivar à semelhança do que fazem os lobos adolescentes.

Para alguns donos, não obstante, a conduta vocal de solicitação de companhia não se limita a quando eles saiem. De certeza que já visitou um amigo para conversar, encontrando o seu cão impossibilitando a conversa com os seus ladridos incessantes durante a totalidade da visita. Para tentar deter este barulho ensurdecedor, o seu amigo grita ao cão para que se cale ou, noutro extremo, tenta acalmá-lo acariciando-o com a mão. Com certeza, qualquer destas estratégias simplesmente dará mais força ao cão para que continue a ladrar logo que se sinta ignorado de novo.

Muitos casais também têm que comprovar cuidadosamente onde se encontra o seu cão antes de se abraçarem. Se são observados, a sua demonstração de afecto é provável que seja rapidamente interrompida com o ladrido de um cão aparentemente zeloso. O mesmo tipo de ladrido de busca de atenção pode surgir quando o dono fala ao telefone, vê televisão ou quando está concentrado na condução de um veículo.


Resolva pela positiva


Por exemplo, cada vez que o seu cão ladra pedindo atenção, ignore-o, levante-se e sai da sala em silêncio. Com o tempo aprenderá que ladrar por esse motivo é contraproducente.

Não recomendamos nenhum dispositivo para deter a vocalização sem uma tentativa para encontrar as causas do ruído. Podemos erradamente estar a inibir um ladrido que nada tem a ver com uma chamada de atenção mas sim o sinal da aproximação de um potencial agressor.

Ainda que pareça mentira, uma das maneiras mais simples de ensinar um cão a não ladrar é ensiná-lo a ladrar à ordem. Primeiro encontre uma maneira de incentivar o seu cão para que ladre. Pode tentar que ladre de excitação ao levantar o seu comedor no ar, ou unicamente poderá fazer o mesmo movimento com uma guloseima ou um brinquedo que ele goste. Prender um cão com segurança também incrementará a frustração e estimular-lhe-á a vocalização. Quando o seu cão ladrar, elogie-o e repita a palavra “Fala!”. Se realizar esse exercício com frequência, o seu cão associará a palavra “Fala!” com o acto de ladrar e será capaz de conseguir que ladre à ordem. O objectivo final deste exercício é introduzir a palavra “Para!” enquanto o cão está a ladrar. Quando ele se calar deve dar-lhe um brinquedo ou um prémio em forma de guloseima. Se o exercício é repetido bastantes vezes, o seu cão associará o facto de estar calado com o cessar do ladrido e com a recompensa.

A recompensa é, claro está, a melhor motivação do comportamento, assim é importante elogiar o cão no preciso momento em que executa o exercício correctamente e não depois. Isto significa recompensá-lo quando pára de ladrar, e também quando não ladra numa situação em que normalmente o faria. Quando o seu cão está tranquilamente a descansar e permite-lhe conversar com as visitas sem ser importunado, ou quando os seus vizinhos cheguem a casa e o seu cão não ladre, deve elogiá-lo e recompensá-lo, assim encorajará o seu cão a permanecer quieto e calmo na próxima vez que se veja confrontado com situações semelhantes.

27/05/09

Linguagem Canina II - Expressões Faciais e Corporais

Linguagem Corporal

São todo um conjunto de sinais que um animal transmite a outro através de uma ou várias partes específicas do seu corpo. Para que estes sinais possam ser considerados como comunicação têm que alterar, de forma intencional, o comportamento do receptor.

O cão usa todas as partes do seu corpo para dar informação, mas em especial a sua cabeça e os seus olhos, os dentes, lábios, orelhas e sobrolhos. O pescoço com as suas diversas possibilidades de posicionamento, ângulos e combinações, normalmente confirmam outros sinais. As patas e o dorso são utilizados principalmente em comunicações simples.

A compreensão por parte do cão dos detalhes da linguagem corporal da sua espécie permite-lhe “ler” também a linguagem corporal humana. Em certas situações, a interpretação por parte de um cão mais atento dos sinais corporais que as pessoas emitem, pode levá-lo a reagir de modo diferente do esperado. Por exemplo, o nosso modo de saudar os cães é inclinarmo-nos para a frente e esticar o braço em direcção à sua cabeça com o objectivo de lhe fazermos festas sorrindo (mostrando os dentes). Esse acto pode ser considerado como dominância ou ameaça para um cão sensível aos sinais.

A Linguagem da cauda

A cauda tem uma linguagem própria. Os cães com caudas amputadas ou que por questões estéticas tenham sido alteradas em relação à forma original podem encontrar-se em desvantagem na hora de estabelecerem a comunicação. É muito comum ver os cães sem cauda meneando toda a parte traseira para compensar a sua ausência.

Os cães utilizam as caudas para enfatizarem os sinais expressos pelas posturas facial e corporal, ou vocal.

A colocação da cauda em posição erguida está normalmente associado com dominância e em posição baixa com submissão. É importante reconhecer que é mais provável que a cauda indique dominância e submissão que agressividade e medo. Por exemplo, um cão para mostrar agressividade e submissão ao mesmo tempo, colocará a cauda para baixo.

Abanar a cauda não significa só afabilidade. Uma cauda que se encontra alta, combinada com um ligeiro movimento, indica dominância. Um pequeno movimento com a cauda baixa pode ser uma preparação para ataque. Os cachorros e os cães jovens podem menear as suas caudas entre as patas para mostrar submissão incondicional. Este movimento provavelmente dissemina o seu odor despertando os sentimentos paternais dos adultos, apaziguando-os. Durante o ataque, os cães dominantes colocam a cauda ligeiramente abaixo da horizontal.

Normalmente a linguagem da cauda é clara. É muito possível que possam surgir dificuldades para a interpretar em cães com esta amputada ou deformada, especialmente se nos encontramos a uma certa distância.

No diagrama abaixo, podemos visualizar todas as posturas corporais e a correspondente interpretação, assim como a diferença de expressões corporais entre machos e fêmeas e entre dominantes e subordinados.

25/05/09

Visita ao CRLI (Centro de Recuperação do Lobo Ibérico)

Vamos fazer um pequeno parêntesis na série de artigos que temos vindo a publicar sobre o comportamento canino, para relatarmos, por imagens, uma visita que fizemos ao CRLI - Centro de Recuperação do Lobo Ibérico - na sequência do estudo que estamos a efectuar acerca da diferença do Comportamento do Lobo em liberdade e em cativeiro - apesar de, neste caso, o cativeiro ter a ver com cercados com cerca de 4 hectares de perímetro - e as implicações na sua conduta futura. O estudo tenta provar que o imprinting e a socialização têm importância preponderante na atitude comportamental também dos Lobos apesar destes serem uma espécie selvagem. O resultado desse estudo será mais tarde divulgado através do Departamento de Divulgação do Centro Canino de Vale de Lobos. Esperamos que gostem das belas imagens que nos proporcionam estes magníficos animais.

Edifício da Recepção - Entrada do Centro


Vista parcial de um Cercado - O Lobo "Soajo"

A Loba "Faia" - Os irmãos "Soajo" e "Faia"

O Lobo "Prado" - O Lobo "Fágus"

Por vários motivos aconselhamos a que visitem este magnífico Centro de Recuperação do Lobo Ibérico:

1º - É uma tarde diferente e muito bem passada;
2º - Respira-se natureza selvagem, não só na fauna como na flora;
3º - É barato (5,00€ uma visita guiada e pode-se ter a sorte de se ver um ou outro lobo)
4º - Estamos a ajudar uma instituição que vive momentos difíceis cujas receitas são somente provenientes das visitas guiadas, do programa de adopções e de donativos.

Deixo-vos aqui o link para o site do Grupo Lobo instituição que gere este Centro

http://lobo.fc.ul.pt/AspLoboNovo/homenovo.htm

02/05/09

Linguagem Canina I - Vocalizações

A Comunicação.

Só existe comunicação quando, intencionalmente, o envio de sinais por um individuo (A) afecta o comportamento de outro (B). Assim, podemos definir comunicação como sendo o processo pelo qual os emissores utilizam sinais especialmente concebidos para modificar o comportamento dos receptores.

A comunicação é efectuada através da emissão de sinais e está muito condicionada pelo meio ambiente. Assim, vemos que não comunicam entre si de igual modo os mamíferos e as aves. Os primeiros fazem-no fundamentalmente através dos sons e olfacto e as segundas utilizam os sons e a visão.

O habitat também condiciona a comunicação em relação às possibilidades de alteração de vocalizações, de passar obstáculos, de localização e de custos energéticos de produção. Afecta também a quantidade e a qualidade de sinais que cada espécie pode produzir.

A Comunicação Canina

Linguagem Canina e a Neotenia

Podemos definir o conceito de neotenia como sendo a manutenção de caracteres juvenis, na sua forma selvagem, durante o período adulto dos indivíduos na forma doméstica. Assim, os antigos sinais do lobo domesticado evoluíram noutros, utilizados pelo cão, que fazem com que este se assemelhe a um exemplar adolescente na sua forma selvagem. O cão deixa de uivar, como forma natural de comunicação, e utiliza mais o ladrido próprio dos cachorros de lobo.

A neotenia não só afecta a comunicação como também o seu comportamento sendo estes, fenómenos resultantes da domesticação.

A Linguagem do Cão

Os cães, como todos os canídeos, comunicam entre si através de três grandes grupos de sinais: as vocalizações, as expressões faciais e corporais, e as olfactivas. Noutro grupo mais pequeno: o táctil.

Dentro do primeiro grupo distinguimos as mais comuns: o ladrido, o latido e o grunhido (rosnar). Os cães ladram durante toda a sua vida parecendo lobos que nunca alcançaram a maturidade. O grunhido é comum a todos os canídeos e pode ser considerado como um sinal de baixa intensidade ou como a primeira fase de um conjunto complexo de sinais.

Os ladridos podem ser classificados pelo seu tom em:

  • Roucos ou baixos
  • Normais ou médios
  • Agudos ou altos

Pela sua intensidade:

  • Alta
  • Baixa
  • Média

Pelo seu timbre:

  • Secos
  • Prolongados
  • Uivos

Assim, um ladrido pode ser rouco, alto e seco para mostrar, neste caso, a decisão de lutar ou defender-se. Os latidos e grunhidos podem ser enquadrados entre os ladridos já que pertencem ao mesmo grupo de comunicação fónica de tal forma que, um grunhido rouco, profundo e longo, pode ser o aviso de uma possível defesa, sobretudo se vai acompanhado da mostra dos dentes e/ou o eriçamento do pêlo dorsal e garupa. Os latidos podem ser utilizados com uma função social e como expressões de dor ou alegria. Estas são as expressões que menos evoluíram dentro das vocalizações. Assim, uns latidos acompanhados de movimentos horizontais da cauda indicam sempre alegria ou vontade de brincar.


MAPA DE CORRESPONDÊNCIA ENTRE COMPORTAMENTO E VOCALIZAÇÕES


Comportamento

Vocalização correspondente

Aqui passa-se algo!

Ladridos de tom médio, encadeados e secos. O cão utiliza-o quando quer advertir possível perigo não eminente mas real. Pode-se ser o aviso de uma invasão de território.

Estou aborrecido!

4 ou 5 ladridos de tom médio encadeados com pausas de 3 ou 4 segundos de intervalo, secos e de intensidade baixa. Podem ser utilizados para chamar outro congénere que esteja longe. São produzidos mais entre os espécimes subordinados e podem afectar a paciência do dono e dos seus vizinhos.

Olá chefe!

Ladridos agudos, secos, de alta intensidade em cadeias de 1 ou 2. São acompanhadas de movimentos horizontais da cauda. Parecem “disparos” lançados à cara dos dominantes.

Dá-me água!

Um único ladrido agudo, seco e de intensidade alta. É acompanhado de um olhar prévio à cara do líder e um segundo em direcção ao objecto ou recurso que o animal deseja. A cauda está sempre em movimento enquanto se produz esta comunicação.

Vamos brincar!

É o mesmo tipo de ladrido do anterior mas encadeado. O cão pode agachar os quartos dianteiros e levantar os traseiros. O olhar fixa-se no indivíduo que está a convidar.

Deixa-me em paz!

Grunhido de tom normal, de baixa intensidade e prolongado. O olhar para o receptor faz-se de soslaio e pode ser acompanhado de uma incipiente mostra de dentes. É o aviso de um dominante a um subordinado o cachorro chato.

Vem aqui, cachorro!

Ladrido de tom alto, intensidade alta e seco. É emitido só, quer dizer, um só, olhando na direcção do receptor.

Estou assustado mas sou capaz de te atacar!

Grunhido que se mantém até se converter em ladrido de defesa.

Não estou bem neste território!... Quero ir com os meus!

Começa com um ladrido de aborrecimento, até se converter num uivo suave e prolongado. É muito normal em raças nórdicas e inclusivamente nos pastores belgas. Atribui-se à falta de neotenia. Muitos donos ensinam ao seu cão a arte de “cantar”, através dos uivos. Nestes casos, que já não são espontâneos, o uivo é uma comunicação social ou actividade lúdica do cão. No lobo o uivo é utilizado para comunicar a longas distâncias e convocar uma reunião da alcateia.

Não gosto de fazer isso!

Gemido suave, prolongado de baixa intensidade que soa como “Piii...Piii”. Os donos de Pastores Alemães, Dobermanns, Pastores Belgas e de outras raças de trabalho, sofrem quando o cão está fazendo algo que lhe tenhamos ordenado e ele quer fazer outra coisa. É uma autentica comunicação de protesto.

Invasão real de território!

Ladrido de defesa, encadeado e com a cabeça voltada para o perigo. Pode ser acompanhado de eriçamento dos pelos dorsais, orelhas erectas e boca cerrada (no intervalo dos ladridos).

Estou Stressado!

Arquejar contínuo que pode ser acompanhado de “Piii...Piii”. É sempre acompanhado de uma expressão facial: o estiramento para trás dos lábios (parece que se estão a rir). Quando começa a relaxar o arquejar, acaba-se o “Piii...Piii”, os lábios voltam ao normal e podemos concluir que o cão está a libertar-se do stress.

Acabou-se, estou definitivamente relaxado.

Grunhido passando a ronco de baixa intensidade e longo. O cão deita-se no solo.

Estas são, na generalidade, as vocalizações mais frequentes, apesar de existirem variações individuais em função do cão. Se a elas juntarmos as expressões corporais e faciais (que iremos abordar no próximo artigo), podemos observar a quantidade de combinações que há que decifrar no dicionário canino. É tudo uma questão de paciência e de aceitar os frequentes equívocos, mas garantimos que, a curto prazo, a comunicação com o cão será mais fluida.



11/04/09

Agressividade Canina III

Parte 3

Prevenção

Como em todas as enfermidades – é de uma doença que estamos a falar – o melhor tratamento para a agressão canina é a prevenção, e essa, na grande maioria dos casos, deve ser enfocada em duas situações: correcta socialização na altura certa e a afirmação do dono como líder. Se a essas juntarmos uma correcta interpretação da comunicação canina, podemos garantir que 95% do problema da agressão canina está resolvido.

Diagnóstico e tratamento

Vamo-nos debruçar sobre os três tipos mais frequentes e mais problemáticos de agressividade para com pessoas e que são as que mais repercussão social têm.

Agressividade por complexo de controlo ou agressividade por dominância

Diagnóstico

A agressão pode ser desencadeada para com qualquer pessoa que estabeleça uma interacção com o cão, mas é mais frequente para com membros da família, amigos, ou vizinhos que tenham uma relação estreita com o animal.
Este tipo de agressividade é mais frequente em machos não castrados e em muito menos situações em fêmeas castradas. Pode desenvolver-se em qualquer idade mas é mais frequente entre o primeiro e o terceiro ano.
As situações que desencadeiam esta conduta são bastante previsíveis, sobretudo aquelas em que se entra em competição com o cão e se coloca em jogo algum recurso (comida por exemplo) ou se ordena ao cão que faça algo que ele não queira.

Tratamento

O Tratamento desta doença inclui duas acções que em conjunto ajudam a resolver este problema: a castração e o adestramento em obediência.
A castração é recomendada em machos para diminuir o mais possível o nível de agressividade influenciado pelas hormonas, mas está contra-indicado em fêmeas, sempre e quando a conduta não está directamente relacionada com o período estral ou maternal.
O adestramento deve ser direccionado à sistemática recompensa de condutas de submissão, sem castigos, uma vez que estes desencadeiam agressividade. O que queremos é reforçar a obediência do animal, portanto podemos começar a ensinar-lhe uma ordem básica, como “senta” e fazer com que ele cumpra a ordem sempre que queira obter algo como festas ou comida. Todas as pessoas que convivem com ele têm que ter uma postura idêntica e devem evitar, no possível, as situações de risco que são as que desencadeiam a conduta a fim de evitar uma possível actuação errada.
É aconselhável também o acompanhamento médico que sugerirá a administração de fármacos específicos que, ao diminuírem a ansiedade, ajudarão o trabalho de adestramento. Atenção – Não existe nenhum fármaco anti-agressividade.

Agressividade por medo

A agressividade por medo é a segunda forma mais importante e a mais dependente de factores genéticos (o medo é uma das condutas que mais taxa de hereditariedade possui) e além disso tem igual frequência nos dois sexos.

Diagnóstico

É certo que um dos sintomas do hipotiroidismo é a agressividade, que se pode demonstrar tanto nesta patologia como nas agressões por complexo de controlo e territorial, portanto a via a seguir para fazer a distinção é utilizarmos o contexto em que ele se demonstra, a quem é dirigida e a postura da conduta.

Tratamento

O tratamento baseia-se num programa de dessensibilização e contra-condicionamento. Deve-se pedir a uma pessoa que o cão desconheça para que se vá acercando pouco a pouco deste com a finalidade de comprovar se se desencadeia a agressão. É nesse momento que se dá uma ordem ao cão e se premeia, se ele a cumpre e se acalma. Vai-se procedendo assim, pouco a pouco utilizando todos os estímulos e contextos que resultam ameaças para o animal.
O êxito da resposta dependerá da gravidade do problema, da duração e frequência das sessões de dessensibilização e da aplicação do dono.
O êxito do programa atinge-se com mais facilidade se a causa é uma experiência traumática e com mais dificuldade se a causa for uma deficiente socialização. A farmacologia só é utilizada se o animal apresentar um medo paranóico.

Agressividade Territorial

A agressividade territorial é fundamentalmente protectora e por essa razão pode ser devida em parte ao medo provocado por uma ameaça a um recurso tão valioso como é o território.
O facto de um indivíduo, que se aproxima do território do cão, fugir ou se afastar pode ser entendido pelo animal como um reforço, para ele é provável que a intensidade da conduta aumente com a experiência.

Diagnóstico

O cão apresenta este tipo de conduta com pessoas desconhecidas que se aproximam ou entram no seu território. Por território subentende-se a casa em que a sua matilha humana vive, o carro, ou até a mesa do bar onde estamos tranquilamente sentados.
Acontece com mais frequência em machos em desenvolvimento hormonal e, se vivem permanentemente confinados num local ou presos por corrente, este problema tende a agravar-se

Tratamento

O controlo é difícil, a castração não é solução e, na maioria das vezes, o tratamento médico também não resolve, só nos resta o adestramento específico.
Este adestramento é focado na obediência básica e para solucionar este problema tenta-se interromper a reacção agressiva com uma ordem, como no tratamento da agressão por medo. Recompensa-se a tranquilidade e logo provocamos o animal com o objectivo de conseguirmos, cada vez com mais frequência, interromper o comportamento à nossa ordem. Como no outro caso, evitamos reforçar a conduta com festas e premiar só quando a conseguimos efectivamente interromper a acção e o cão se tenha acalmado. Nesta terapia recomenda-se o uso de açaime.

Resumindo, a agressividade é um problema grave. Não existe um remédio milagroso que cure esta patologia. Como em todas as terapias de problemas de conduta canina, podem haver êxitos e fracassos, mas de certeza que não conseguimos resolver este, nem nenhum problema, se não nos empenharmos a fundo para atingirmos os nossos objectivos.

11/03/09

A Agressividade Canina II

Parte 2

Diversos tipos de agressão canina

A agressão é actualmente o maior e mais complexo problema comportamental canino. É o que causa mais impacto, o que é mais explorado pelos média, e aquele que divide mais, não só o publico em geral, mas também quem se dedica a estudar, analisar e resolver esta conduta anómala.

Convém esclarecer o seguinte: quando falamos de agressividade canina falamos exactamente de quê? Existe uma ou várias agressões caninas? A agressão dirigida para com outros cães é diferente ou igual à dirigida para com as pessoas? A etiologia da agressão é genética ou adquirida? Ou as duas? É a estas e outras perguntas que nos propomos responder neste artigo que consideramos de primordial importância, com o objectivo de elucidar todos aqueles para quem a agressividade é um tabu ou uma área inexpugnável e de difícil abordagem.

Em primeiro lugar, a agressividade faz parte da condição animal. Seria impossível considerar como válida a teoria da evolução Darwiniana – sobrevivência do mais apto – se para se afirmar e passar os seus genes para a geração seguinte, o animal ou o ser vivo não fosse agressivo e não utiliza-se essa agressão para atingir os seus objectivos. Portanto já distinguimos aqui dois tipos de agressão: conservação (status social, alimentação, território, e protecção) e reprodução (eleição e luta pela parceira, protecção e segurança da descendência por parte da mãe)

Etiologia da agressão canina

Temos que dividir em dois grandes grupos as causas da agressão canina:

• Orgânicas (15% dos casos) – consideram-se neste grupo aquelas causas físicas que afectam o animal e que podem ser facilmente detectáveis através de uma simples observação (dor, prurido, debilidade, desorientação...) ou pelo contrário, causas mais difíceis de detectar à primeira vista (hipotiroidismo, hidrocefalia, tumores intra-craneais, epilepsia e outras, como enfermidades víricas, bacterianas ou tóxicas que causam afecções encefálicas e sintomas neurológicos).

• Inorgânicas (85% dos casos) – podem-se considerar neste grupo uma grande variedade de tipos distintos, mas a maioria dos casos que nos chegam às mãos podem-se resumir a três: Agressividade por complexo de controlo (dominância), agressividade territorial e agressividade por medo.

Obviamente não nos vamos pronunciar sobre o primeiro grupo uma vez que as causas deste são puramente clínicas.

Em relação à agressividade por causas inorgânicas queríamos ressalvar que uma conduta agressiva inibe-se, redirige-se e controla-se. Quando um animal agride é porque tem um razão válida para o fazer. Naturalmente desde o ponto de vista humano isto é inaceitável, mas é importante que esta situação seja tida em conta pelo proprietário para que não se gere um sentimento negativo para com o animal que acentue ainda mais o já deteriorado vínculo existente entre o dono e o cão.

Existe uma classificação dos comportamentos agressivos que apresentam os canídeos e que está baseada no estímulo que desencadeia a conduta agressiva. É importante conhecê-la uma vez que nos permite entender um pouco melhor o animal que apresenta este problema.

Os diversos tipos de condutas agressivas são:

Agressão predatória

É uma agressão dirigida àquilo a que o cão considera como sendo uma presa. O exemplo típico é o dos cães que perseguem os ciclistas que passam, ou pessoas que correm.

Agressão entre exemplares do mesmo sexo

É um comportamento muito frequente em locais onde convivem dois ou mais exemplares do mesmo sexo. Nos machos tem a ver com os elevados níveis de testosterona que são gerados em situações de conflitualidade. Nas fêmeas tem a ver com o estabelecimento da ordem hierárquica entre elas.

Agressão por medo

Esta conduta evidencia-se em animais inseguros e de pouco carácter que, ao serem tocados por alguém e não tendo possibilidades de fugir, sentem-se encurralados e mordem. Geralmente não produzem mordidas graves, uma vez que não o fazem com convicção. O seu único objectivo é afastar o estímulo que lhes produz o medo. São animais que não devem ser tratados com brusquidão.


Agressão por dor

É um comportamento que tem uma função protectora para o animal uma vez que é um modo de defesa. Apesar disso, é inaceitável que um animal morda o seu dono quando este, por exemplo, o está a tratar.

Agressão territorial

É um comportamento normal num cão e em muitos casos estimulado pelos próprios donos quando desejam que estes sejam os guardas das suas propriedades. Muitas vezes o animal excede-se nesta conduta e que resulta num problema que há que solucionar. É o caso dos exemplares que tentam morder as visitas, carteiros e qualquer pessoa estranha ao núcleo familiar

Agressão maternal

É um tipo de agressão desenvolvida por cadelas com crias de poucos dias de vida. Tem uma forte influência hormonal e depende da relação que tenha com os seus donos e como desenvolve essa conduta com os mesmos. Normalmente passado cerca de um mês de parir, esta conduta desaparece.

Agressão por Complexo de Controlo (antigamente denominada agressão por dominância)


Este tipo de agressão é a mais frequente de todos os comportamentos agressivos dos cães. Acontece geralmente em machos não castrados e com mais de 1 ano de idade. Tem mais incidência em animais de raça pura devido ao facto de as qualidades estéticas que são valorizadas nas exposições caninas, tais como cauda erecta, porte altivo, cabeça muito levantada, que são similares às atitudes e gestos próprios de animais dominantes.
Um cão que é agressivo por Complexo de Controlo pode sê-lo com todos ou com algum dos habitantes da casa. Devido ao facto de a comunicação entre os canídeos se fazer através de gestos, posturas e contactos corporais fortes e como o cão é um animal social e gregário, os estímulos específicos que desencadeiam a agressão, são os contactos corporais que os seus donos têm com eles, tais como carícias, escovagem, tentativas para colocação da coleira e trela, etc. Para o dono, o ataque do cão não foi provocado uma vez que somente o estava a acariciar, mas para o cão haveria muitas razões para o agredir. Esta é uma situação muito crítica pois a pessoa agredida tem muita dificuldade em compreender a atitude do seu cão. Apesar disso, quase sempre os animais que sofrem do complexo de controlo avisam antes de chegar à agressão directa (iremos falar destes avisos num dos próximos artigos dedicados à comunicação canina). Resumindo, na agressão por complexo de controlo, o objectivo do cão é ser ele a controlar todos os aspectos da vida comunitária do seu grupo, utilizando todos os meios que tem ao seu dispor, isto devido ao facto do dono não ter sido capaz de exercer ele próprio esse controlo.

No próximo artigo iremos falar do diagnóstico e tratamento deste problema condutal.

12/02/09

A Agressividade Canina I

Devido à importância e seriedade que este tema tem, iniciamos agora uma série de artigos relacionados com esta área do Comportamento Canino que tem levantado tantas controvérsias, erros e inexactidões quando é abordado. Debruce-mo-nos então, sem preconceitos, sobre a "Agressividade Canina".

Parte 1

Compreender a agressividade canina

Actualmente, a agressividade é o maior e mais complexo dos problemas de comportamento canino, principalmente devido à maneira como é publicitado e também devido ao alcance social que o mesmo atinge. Contudo, a informação que é veiculada pelos média deve ser filtrada e interpretada com precaução, uma vez que existem muitos factores implicados no fenómeno que podem confundir e desvirtualizar a realidade. Por exemplo, segundo um estudo realizado em 2000 só 9,3% das vítimas de mordidas de cães são observados em hospitais. Outro factor importante é a raça, já que algumas são mais mediáticas que outras e consequentemente aparecem com mais frequência na imprensa e, na maioria dos casos, não é solicitado a um especialista em comportamento canino uma análise à situação nem uma pesquisa ao historial dos cães agressores.

Outra estatística diz-nos que, nos Estados Unidos, as mordidas de cães, por ano, variam entre as 500.000 e os 4,7 milhões.

De todos os ataques registados, parece que os mais frequentes são os que ocorrem em casa da própria vítima e contra pessoas conhecidas da família ou amigos. Dentro desta estatística são mais frequentes as mordidas a crianças. Segundo Sacks (um dos investigadores que estudaram este fenómeno) é 1,5 vezes mais provável que uma criança seja mordida e 3 vezes mais provável que necessite de tratamento. Além disso correm maior risco os meninos entre os 5 e os 9 anos mais que as meninas e encontrando-se as lesões na cara, pescoço e cabeça com maior frequência.

Segundo outros estudos parece que as mordidas ocorrem frequentemente sem provocação por parte da vítima. Mas também é certo que a falta de conhecimento da linguagem canina pode levar-nos a estabelecer interacções com o cão sem nos aperceber dos sinais prévios de ataque. Sobre isto, podemos encontrar como causas dos vários ataques, as seguintes:

• Falta de Socialização do cão
• Comportamento da pessoa interpretada pelo cão como provocatória
• Falha na interpretação por parte do cão ou do humano acerca das intenções de cada um.

Segundo os investigadores Podberscek e Serpell (1997) os proprietários de cães muito agressivos tendem a permanecer num estado contínuo de excitabilidade e tensão podendo, como consequência, serem emocionalmente instáveis pelo qual têm tendência a aplicar castigos indiscriminadamente e sem coerência, podendo assim, aumentar as condutas agressivas já existentes. Chegam a castigar o cão com admoestações verbais fortes e violência física, sem pensarem que poderá ser mais adequado um treino em obediência.

Como tem sido sublinhado nos vários artigos que temos publicado, o comportamento é o resultado da interacção complexa entre genes e meio ambiente. Sendo assim, segundo a população estudada e os dados disponíveis, podemos encontrar estatísticas que dão como mais frequentes os ataques de fêmeas de tamanho pequeno dentro da própria família, de machos castrados com menos de 1 ano de idade, de cães entre 1 e 3 anos ou de cães com determinadas características fenótipas que se assemelham a raças muito massacradas pelos meios de comunicação.

Como realçámos no artigo dedicado ao imprinting e socialização, estes dois processos de aprendizagem têm um papel fulcral na prevenção deste problema social, assim como a capacidade de certas raças para interpretar os sinais dos seus congéneres e serem capazes assim, de resolverem os conflitos mediante comunicações intra-especificas de apaziguamento e não com lutas crónicas e intermináveis. E este é outro dos efeitos da domesticação a que se somam a antropomorfização levada a cabo pelos proprietários e a incapacidade de interpretar a linguagem dos seus cães.

Reconhecer um comportamento agressivo

Do ponto de vista psicológico, a agressividade é a activação de uma resposta ante um estímulo de stress adverso (negativo) para recuperar o controlo e/ou evitar a perca do mesmo. Quando falamos em stress referimo-nos a qualquer força imposta ao cão que requer ou obriga a mudanças ou adaptação.

Na maioria das vezes os donos não têm consciência que os seus cães estão sempre a aprender. Nem tão pouco têm a noção de que muitas vezes estão a reforçar condutas agressivas. O nosso cão aprende todos os dias nos encontros com outros cães e pessoas, dentro de casa, nos jogos e interacções connosco e muito mais aprende se permitimos que o cão saia só e possa deambular pelas ruas.

Reforçamos involuntariamente a agressividade se num desses encontros dizemos ao nosso cão: “calma boby, tranquilo” ou simplesmente o acariciamos em vez de ordenarmos que se sente ou deite. Recompensamo-lo igualmente quando o olhamos com ar de aprovação da acção.
Se o resultado da agressão é a tomada de controlo da situação por parte do cão e assim resolve o conflito, este comportamento converte-se num êxito para ele e voltará a usá-la quando se lhe apresente o momento adequado numa situação se não igual, pelo menos comparável.

Muitas vezes os donos de cães não reconhecem que o seu pode ser agressivo, até à altura em que este morda e provoque graves danos. Apesar disso existem outros sinais ou condutas que podem ser entendidas por agressivas, como comportamentos de evitação, rosnadelas, posturas desafiantes e intenção de morder.

Para que o especialista em comportamento canino possa compreender o grau e tipo de agressividade do cão que está a analisar, seria necessário que o dono descrevesse fielmente a ou as situações em que o cão tem esse comportamento, coisa que na maioria das vezes não sucede devido à tendência ao antropomorfismo do dono. Como é muito difícil filmar todas as situações, é de extrema importância que o dono relate fielmente tudo o que se passou e o que despoletou a agressão e sobre os momentos anteriores e posteriores à mesma, os cães a as pessoas participantes.

No próximo artigo vamos falar dos vários tipos de agressão canina.