2ª Parte
Depois de termos demonstrado, no artigo anterior, que o cão não é um lobo mas sim uma espécie, igualmente pertencente à família dos canídeos, autónoma e com particularidades próprias, vamos neste artigo definir o conceito de “dominância” interpretado segundo as perspectivas tanto do homem, como do lobo, como do cão.
“Dominar”, o que é?
O Dicionário de Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa define o termo “dominar” como sendo “subjugar uma pessoa ou ser animado que oferece resistência usando a força” define igualmente o termo como “obrigar uma pessoa ou um animal a obedecer à sua vontade; ter autoridade ou poder sobre ela; ter ou exercer domínio”.
Perante a definição deste conceito, quem exerce o poder de dominar os outros pode ser considerado um déspota ou um ditador uma vez que, para impor a sua vontade, subjuga os outros através da força e da prepotência. Neste contexto, deixo no ar algumas questões para reflexão dos leitores: Será que os grandes líderes, aqueles que efectivamente fizeram história pelo acerto das suas decisões, precisaram de subjugar o seu povo para fazerem valer os seus pontos de vista? Precisamos de obrigar os nossos filhos, através da força, a obedecer às nossas vontades, vontades essas muitas vezes desprovidas de nexo e de objectividade? Como seres racionais não seria mais lógico utilizarmos a nossa inteligência superior para resolvermos as questões de convivência que nos são colocadas todos os dias pelos nossos amigos caninos? Será que eles não sentem, como nós, quando são maltratados e ostracizados por uma sociedade que não lhes deu a oportunidade de se integrarem através de uma socialização correta e consequente?
Sim, são perguntas inquietantes mas que fazem todo o sentido serem colocadas com o objectivo de desmistificar uma prática que por norma tem sido seguida pelos adestradores de animais, principalmente até ao final do século passado e muitos ainda a praticam apesar do grande desenvolvimento que desde aí se tem vindo a verificar do conhecimento dos mecanismos da aprendizagem animal, pratica essa baseada na subjugação e no medo daqueles que pretendemos ensinar.
Porque é que não aproveitámos já há mais tempo as experiências feitas com os adestradores de golfinhos e baleias no início dos anos 60 do Século XX e que, devido aos excelentes resultados, vieram subsequentemente a serem prática comum nessa actividade? É consensual que nessas situações não se podia adestrar esses animais com base na subjugação e no medo uma vez que isso seria inconsequente devido a razões óbvias.
Já se sabia desde meados dos anos 40 do século passado, através dos estudos do Sr. B.F. Skinner, e os adestradores de golfinhos tiveram o bom senso de aproveitar esses conhecimentos, que a melhor maneira de ensinar animais era através do Condicionamento Operante (comportamento = reforço) demonstrando inclusive que é a vontade do animal que conta na sua própria aprendizagem uma vez que se executar o que lhe for pedido é recompensado e se não o fizer pura e simplesmente não recebe recompensa. Como os animais sobrevalorizam o que os reforça não têm dúvidas em discriminar positivamente e optar por fazer aquilo que lhe oferecerá perspectivas de serem recompensados.
Por outro lado, existe um erro de preconceito ao se achar que tudo o que os cães fazem é com o objectivo de dominar os humanos que com eles convivem. Se isso acontecer é porque não foram socializados e não lhes foi devidamente comunicado que para se viver plenamente inserido numa sociedade só têm que se cumprir algumas regras e que não é necessário agir de forma agressiva para atingir os objectivos que nos cães são, fundamentalmente, a protecção dos recursos.
A “dominância” na perspectiva dos humanos
Ainda reportando às definições da palavra “dominar” dada pelo Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, se as transpusermos para aos nossos cães estaremos a aplicar valores humanos. Na sequência do que foi dito no parágrafo anterior, poder-se-ia argumentar que um cão agressivo tem uma forte presença e mostra-se influente. Mas, não foi ele que decidiu em consciência ter essa forte presença ou influência da mesma maneira que uma pessoa pode decidir tê-las ou não. Portanto, não se deve confundir a agressividade dos cães com “dominância”, são coisas totalmente distintas.
Por exemplo, um adestrador dando uma aula a um grupo de pessoas, provavelmente pôr-se-á em pé no meio da sala, falará com os participantes e fará uma demonstração de como ensinar os cães a fazerem algum exercício em particular. Conscientemente decidiu, pelo facto de que quis livremente dar aquela aula, ter uma forte presença, mostrar-se influente e adoptar uma posição de comando sobre os participantes. Algumas pessoas lutam por postos de responsabilidade na empresa para terem mais gente a trabalhar sob as suas ordens e assumir mais importância. Esta é uma decisão voluntária. Por outro lado, outras pessoas são tímidas ou reservadas e não desejam estar na situação de dar uma palestra a um grupo de gente que está à sua frente a ouvi-lo. Essas pessoas tomaram essa decisão conscientemente. Com todos estes exemplos quero dizer que nós temos a opção de decidir, enquanto que um cão não pode tomar essa decisão de forma consciente. Portanto, a definição de “dominância”, conforme a conhecemos e vem descrita nos dicionários, não pode ser aplicada aos nossos cães.
A “dominância” na perspectiva dos lobos
O Etólogo Luso-Dinamarquês Roger Abrantes define a dominância nos lobos como “um instinto condutor básico de sobrevivência canalizado para eliminar a competição de outro macho”. Por outras palavras, se um lobo quer aceder a um fêmea para acasalar tem que eliminar a ameaça de outros lobos com a finalidade de se converter em “Alfa”. Isto não significa que saia por aí mordendo os outros machos, tal como explica Roger Abrantes: “a hierarquia define-se como uma relação de dominância-submissão que se estabelece e se mantém através de comportamentos ritualizados”.
Para um lobo ser o “Alfa” significa ser ele que tem o direito de procriar e obter descendência. Tendo isto em consideração e de que nós controlamos a maioria, se não todos os recursos dos nossos cães, incluindo se pode ou não procriar, a definição para o lobo é entendida como “um instinto condutor básico de sobrevivência canalizado para eliminar a competição de outro macho” como tal não se pode aplicar aos nossos cães.
Se efectivamente consideramos necessário sermos o “Alfa” sobre os nossos cães, como poderíamos estabelece-lo e mante-lo aplicando comportamentos ritualizados de linguagem canina para que o cão nos entenda? A resposta é: não podemos. Não temos as mesmas orelhas que os lobos, nem cauda; não podemos eriçar os pelos nem mostrar a mesma dentadura ou elevar os lábios do mesmo modo que faz um lobo, nem dilatar as pupilas. Resumindo, nós não estamos equipados com a mesma anatomia de um lobo ou de um cão para sermos capazes de comunicar para que um cão (ou um lobo) nos compreenda. Quero dizer, nós não podemos imitar os comportamentos ritualizados dos canídeos.
A “dominância” na perspectiva dos cães
Nenhuma das definições dadas anteriormente é aplicável ao cão doméstico, portanto tem que haver uma terceira definição de “dominância” que possamos aplicar à relação com os nossos cães. Muita gente crê que se um cão mostra agressividade para com o seu dono está a ser dominante e, como tal, tentando subir na escala hierárquica. Apesar de existir a expressão “agressão por dominância” ela não implica que o cão tenha como objectivo elevar o seu estatuto. A Dra. Karen Overall definiu a agressão por dominância como sendo “a intensificação de qualquer resposta agressiva por parte do cão é uma correcção ou interrupção passiva ou activa do seu comportamento”. Isto significa simplesmente que se um cão sofre de ansiedade devido nossa atitude para com ele, pode tornar-se agressivo.
Não obstante isso, dado que a agressão por dominância baseia-se em algum tipo de problema de ansiedade, a Dra. Overall redefiniu o termo como “controlo do impulso de agressão”. Os cães não são agressivos de forma impulsiva se possuem um temperamento equilibrado, foram bem socializados e não sofreram maus tratos. Mas sabemos que alguns cães podem ser “avassaladores”: põem continuamente à prova os limites a ver até onde conseguem chegar. Acerca desta conduta a Dra. Overall disse: “Não existem evidências de que este tipo de cães seja algo mais que uma variante de um cão normal, e não está associado a nenhum tipo de posto hierárquico artificial… nem tampouco existem evidências de que este tipo de cães tenha desenvolvido algum tipo de agressividade patológica”.
Para corroborar os pontos de vista da Dra. Overall, Lindsay afirma: “muitas expressões de agressividade que se diagnosticam na actualidade como agressão por dominância têm como objectivo evitar algo que entende como aversivo, mais que tentar manter um status social”.
Quer dizer, um cão pode comportar-se de forma agressiva quando o dono não é capaz de ler a sua linguagem corporal. O cão está a tentar comunicar algo mas o dono não interpreta correctamente e não reaciona ou faz de um modo inapropriado. Um cão pode responder de forma agressiva se é maltratado ou se é corrigido de forma severa, pode mostrar-se inseguro em relação ao seu dono ou com as pessoas em geral e possivelmente reaciona de forma agressiva se sucede algo que ele perceba como sendo uma ameaça. Ou pode sofrer naquele momento de algum tipo de ansiedade que o dono não é capaz de reconhecer. Neste caso trata-se de um cão que reaciona (ainda que de forma inapropriada para connosco) perante uma situação no qual não se encontra de todo cómodo.
Muitos terapeutas do comportamento e outras autoridades no mundo dos cães definem a dominância nos nossos cães domésticos como a “protecção dos recursos”. Proteger os recursos acontece quando o cão tenha algo que gosta: é um troféu e tem a intenção ligar-se a ele a todo o custo. Um recurso pode ser qualquer coisa, comida, um brinquedo, o sofá ou inclusivamente o dono. A protecção dos recursos manifesta-se quando um cão pode potencialmente mostrar agressão e esta se intensificaria incorretamente como se estivesse a mostrar “agressão por dominância”.
A Dra. Karen Overall disse que “a dominância é um conceito que encontramos na etologia tradicional e que faz referência à habilidade de um indivíduo em manter ou controlar o acesso a alguns recursos. Não devemos confundi-la com o status”.
A agressão por dominância (ou o controlo do impulso agressivo) baseia-se em algumas formas de ansiedade, não obstante, a protecção dos recursos tem a ver com o cão guardar com vigor algo que deseja. Mas em nenhum caso a agressão por dominância, nem a protecção dos recursos tem alguma coisa a ver com status. Desde o nosso ponto de vista, se queremos classificar um cão como “dominante” a definição de “guardar os recursos” parece ser o conceito mais lógico quando consideramos que o que é verdadeiramente valioso para um cão: a comida, a água, um lugar para dormir, brincar com os brinquedos e muitas outras coisas em função do cão e do seu entorno, mas tudo entra dentro do saco dos recursos. A menos que alguém apresente uma definição que seja mais tangível, “a protecção dos recursos” parece ser a definição mais plausível de um cão “dominante” numa situação cão/dono, mas que fique bem claro ele não tenta elevar o seu status.
17/03/12
08/02/12
DOMINÂNCIA CANINA! O fim de um mito?
1ª Parte
Será um objectivo prioritário dos nossos cães tornarem-se líderes da sua “matilha” para dominarem os seus donos? Lá porque descendem dos Lobos, teremos que adoptar as mesmas estratégias que estes utilizam para os liderarmos? Será que o termo “Alfa” ainda faz sentido? Serão a estas e a outras perguntas que iremos tentar responder numa série de artigos, que iniciaremos este mês, acerca do mito: Dominância inter-específica.
Este é, de certeza, um tema polémico, principalmente para aqueles adestradores e comportamentalistas que não evoluíram e que ainda utilizam métodos de treino e de modificação comportamental baseados em premissas arcaicas segundo o princípio da necessidade de dominar para poder subjugar e, por vezes, torturar os animais com o objectivo de obterem destes os resultados pretendidos: uma submissão baseada no medo e no terror.
Felizmente, nos últimos 10, 15 anos, começaram a aparecer alguns conceituados investigadores (dos quais iremos citar alguns deles durante os artigos que iremos apresentar) interessados em aprofundar estas questões relacionadas com o tipo de simbiose existente entre os humanos e os cães, e as conclusões a que todos eles chegaram foram, no mínimo, surpreendentes, indo em contraponto ao consenso que até aí existia de que devíamos ter uma organização social com os nossos cães baseada no estatuto hierárquico, exactamente como os Lobos têm entre si sendo que, para conseguirmos conviver com eles, teríamos que adoptar também o conceito de “alfa” como existe nas grandes alcateias de Lobos. Esses investigadores vieram dizer-nos que, efectivamente, não é nada disso que acontece com os cães mas tão só que, para haver um equilíbrio na relação humano/cão são só necessárias três coisas: correcta socialização na fase crítica do crescimento do cachorro, conhecimento da linguagem canina para que possamos interpretar os sinais emanados por estes e um consequente adestramento em obediência social, seguindo os princípios do condicionamento operante e sem recurso ao castigo físico.
Vamos então tentar explicar o mais pormenorizadamente possível e com a clareza que se impõe para que o leitor possa compreender os conceitos, por vezes algo técnicos, e assim poder acompanhar-nos na mensagem que queremos transmitir.
E o Lobo torna-se Cão
O zoologista austríaco e fundador da Etologia moderna, Konrad Lorenz (Prémio Nobel da Medicina em 1973) teorizou, na sua obra “E o Homem encontrou o Cão”, que algumas raças de cães domésticos descendiam dos Lobos, outras dos Chacais e outras ainda dos Coiotes. Com a evolução da genética e a introdução do ADN mitocondrial como suporte para a identificação taxonómica das espécies, chegou-se à conclusão que esta teoria de Lorenz estava errada e que tanto o Chacal (Canis Aureus), como Coiote (Canis Latrans) como o cão (Canis Familiaris) são ramificações de uma mesma árvore cujo tronco é o Lobo (Canis Lupus). Queremos com isto afirmar que tanto o Cão, como o Chacal como o Coiote, numa dada altura do seu percurso afastaram-se do seu ancestral, o Lobo e evoluíram noutras espécies totalmente distintas.
No caso que nos interessa, o Cão, as principais razões pelas quais os investigares consideram que este descende do Lobo são as seguintes:
• O ADN mitocondrial de ambos virtualmente é o mesmo (99,8%);
• Têm o mesmo número de cromossomas (78);
• Têm o mesmo número de dentes (42) se bem que os dentes dos cães são mais pequenos que dos lobos.
Estes talvez sejam os únicos traços que são partilhados por cães e lobos uma vez que, ao longo da evolução dos cães como espécie autónoma, foram produzidas mudanças físicas que devemos considerar:
• Mudou a forma e o tamanho do crânio que, dependendo da raça, se encurtou ou se alargou, sendo o Bulldog Inglês um exemplo típico, se bem que nos lebreus (galgos) o crânio se tenha alongado e estreitado. À semelhança do que acontece com o tamanho do indivíduo, os tamanhos do crânio e do cérebro são proporcionalmente mais pequenos que os de um Lobo. Esta redução do cérebro tem como consequência que os sentidos da visão e da audição são menos desenvolvidos nos cães que nos lobos;
• Os cães possuem glândulas sudoríferas nas almofadas das patas, mas os lobos não;
• Os lobos não alteraram o seu porte e colocação da cauda, mas os cães apresentam uma panóplia de posições, tipos e tamanhos.
• As cadelas têm dois cios por ano e iniciam a sua maturidade sexual entre os 6 e os 12 meses podendo entrar em estro em qualquer altura do ano. As lobas têm só um cio e sempre na mesma época do ano, de maneira que os seus lobachos nasçam na primavera quando as temperaturas são mais agradáveis e a comida mais abundante. Além disso as lobas não têm o seu primeiro cio antes dos dois anos de idade.
Ao longo de milhares de anos a grande variedade de raças de cães que foram criadas até aos nossos dias evoluíram do lobo. Durante este tempo, é possível que o lobo tenha modificado muito pouco a sua estrutura física e mental, em contrapartida nós temos produzido, mediante uma combinação de factores naturais e de selecção, raças de todas as formas e tamanhos. O peso de um cão doméstico pode variar dos 680 gr. de um Chihuahua aos 95 Kg. de um São bernardo. O lobo manteve o seu peso, tamanho e coloração do pêlo e não houve alterações pelo menos nos últimos 1000 anos.
Há cães com diferentes posições de cauda e forma das orelhas. Criámos cães com o objectivo de nos ajudarem nas tarefas do dia-a-dia, tais como no pastoreio, na caça, na guarda, puxar trenós, ou como simples animais de companhia. A pelagem de um cão pode variar de cor, tamanho e tipo e, até há raças sem pelo algum. Inclusivamente modificámos o movimento dos cães. No galope dos galgos, a dado momento, têm as quatro patas no ar, algo que se assemelha à corrida dos gatos. Os lobos não correm desse modo. Os lobos adultos não ladram, uivam, os cães, devido à neotenia, ladram toda a sua vida.
O cérebro do cão mudou. Deixou de pensar como o de um lobo que não é. O cão tem prioridades distintas das do lobo: valoriza aquilo que o reforça dentro do seu meio ambiente, como a comida, os brinquedos, os passeios, a companhia e a brincadeira com o seu dono, praticar vários tipos de desportos, etc. O cão deixou de precisar de caçar para se alimentar, de procurar companheira/o para se reproduzir, de guardar para se proteger uma vez que o seu dono humano proporciona-lhe tudo isso.
O desenvolvimento social e comportamental do cão também se alterou na mesma proporção em que se modificou a sua componente física uma vez que, a frequência com que os lobos apresentam padrões motores de sobrevivência diferem substancialmente da dos cães. Por exemplo, têm que aprender mais rapidamente que os cães a resposta de medo: aos 19 dias para um lobo contra os 49 dias para os cães. Os lobos têm que aprender muito rapidamente as habilidades de caça para poderem sobreviver. Um cão doméstico não necessita de aprender as técnicas de caçar e matar. Os valores de sobrevivência do lobo são: Comida, água, um lugar onde possa estar seguro e protegido, companhia dos congéneres e reprodução.
O casal Ray e Lorna Coppinger definiram a sequência dos padrões motores de sobrevivência dos lobos da seguinte forma:
Posicionar-se > fixar o olhar e agachar-se > perseguir > agarrar-morder > matar > dissecar > consumir
Em relação aos nossos cães, faltam-lhes partes desta sequência predatória dos lobos. “Parte da domesticação e da evolução dos cães foi realizada remarcando certas partes da sequência e suprimindo ou deixando em estado latente outras” (James O’Heare)
Por exemplo, o padrão motor do comportamento predatório de um border collie de pastoreio é:
Posicionar-se > fixar o olhar e agachar-se > perseguir > agarrar-morder > matar > dissecar > consumir (Ray e Lorna Coppinger)
Neste caso os padrões de fixar o olhar e agachar-se são os mais reforçantes da sequência. Nota-se a falta de agarrar-morder e matar, apesar disso estes padrões motores estão presentes mas encontram-se num estado latente.
No caso de um Retriever que necessita de trazer as peças de caça com boca branda para não as destruir, a sequência do seu padrão motor é a seguinte:
Posicionar-se > agachar-se > agarrar-morder > consumir
(Ray e Lorna Coppinger)
Assim, por um lado temos um lobo cujos padrões motores de predação não mudaram porque precisa deles intactos para a sua sobrevivência. Por outro temos os nossos cães domésticos de diferentes raças, com padrões motores de predação totalmente distintos e que se adaptaram em cada raça para se ajustarem às distintas funções, ou como animal de companhia ou como cão de trabalho.
Sobre as diferenças de comportamento entre um lobo e um cão doméstico, Steven Lindsay disse: “Ao longo da história da domesticação se segregou os cães dos lobos pelo seu comportamento e um deles deve ter tido o cuidado de não realizar excessivas generalizações entre os dois canídeos no que se refere às suas respectivas motivações e padrões de comportamento”.
Depois de analisado em pormenor a evolução do cão e a sua separação do lobo, temos que este (Canis Lupus) permaneceu sem alterações durante centenas de anos e temos o cão doméstico (Canis Familiaris) que mudou na sua aparência e no seu comportamento e que agora pode fazer muitas coisas que são completamente estranhas ao lobo. Os cães estão neste momento tão afastados dos seus ancestrais como nós estamos afastados dos nossos cães.
No próximo mês iremos continuar com este tema da dominância canina.
Será um objectivo prioritário dos nossos cães tornarem-se líderes da sua “matilha” para dominarem os seus donos? Lá porque descendem dos Lobos, teremos que adoptar as mesmas estratégias que estes utilizam para os liderarmos? Será que o termo “Alfa” ainda faz sentido? Serão a estas e a outras perguntas que iremos tentar responder numa série de artigos, que iniciaremos este mês, acerca do mito: Dominância inter-específica.
Este é, de certeza, um tema polémico, principalmente para aqueles adestradores e comportamentalistas que não evoluíram e que ainda utilizam métodos de treino e de modificação comportamental baseados em premissas arcaicas segundo o princípio da necessidade de dominar para poder subjugar e, por vezes, torturar os animais com o objectivo de obterem destes os resultados pretendidos: uma submissão baseada no medo e no terror.
Felizmente, nos últimos 10, 15 anos, começaram a aparecer alguns conceituados investigadores (dos quais iremos citar alguns deles durante os artigos que iremos apresentar) interessados em aprofundar estas questões relacionadas com o tipo de simbiose existente entre os humanos e os cães, e as conclusões a que todos eles chegaram foram, no mínimo, surpreendentes, indo em contraponto ao consenso que até aí existia de que devíamos ter uma organização social com os nossos cães baseada no estatuto hierárquico, exactamente como os Lobos têm entre si sendo que, para conseguirmos conviver com eles, teríamos que adoptar também o conceito de “alfa” como existe nas grandes alcateias de Lobos. Esses investigadores vieram dizer-nos que, efectivamente, não é nada disso que acontece com os cães mas tão só que, para haver um equilíbrio na relação humano/cão são só necessárias três coisas: correcta socialização na fase crítica do crescimento do cachorro, conhecimento da linguagem canina para que possamos interpretar os sinais emanados por estes e um consequente adestramento em obediência social, seguindo os princípios do condicionamento operante e sem recurso ao castigo físico.
Vamos então tentar explicar o mais pormenorizadamente possível e com a clareza que se impõe para que o leitor possa compreender os conceitos, por vezes algo técnicos, e assim poder acompanhar-nos na mensagem que queremos transmitir.
E o Lobo torna-se Cão
O zoologista austríaco e fundador da Etologia moderna, Konrad Lorenz (Prémio Nobel da Medicina em 1973) teorizou, na sua obra “E o Homem encontrou o Cão”, que algumas raças de cães domésticos descendiam dos Lobos, outras dos Chacais e outras ainda dos Coiotes. Com a evolução da genética e a introdução do ADN mitocondrial como suporte para a identificação taxonómica das espécies, chegou-se à conclusão que esta teoria de Lorenz estava errada e que tanto o Chacal (Canis Aureus), como Coiote (Canis Latrans) como o cão (Canis Familiaris) são ramificações de uma mesma árvore cujo tronco é o Lobo (Canis Lupus). Queremos com isto afirmar que tanto o Cão, como o Chacal como o Coiote, numa dada altura do seu percurso afastaram-se do seu ancestral, o Lobo e evoluíram noutras espécies totalmente distintas.
No caso que nos interessa, o Cão, as principais razões pelas quais os investigares consideram que este descende do Lobo são as seguintes:
• O ADN mitocondrial de ambos virtualmente é o mesmo (99,8%);
• Têm o mesmo número de cromossomas (78);
• Têm o mesmo número de dentes (42) se bem que os dentes dos cães são mais pequenos que dos lobos.
Estes talvez sejam os únicos traços que são partilhados por cães e lobos uma vez que, ao longo da evolução dos cães como espécie autónoma, foram produzidas mudanças físicas que devemos considerar:
• Mudou a forma e o tamanho do crânio que, dependendo da raça, se encurtou ou se alargou, sendo o Bulldog Inglês um exemplo típico, se bem que nos lebreus (galgos) o crânio se tenha alongado e estreitado. À semelhança do que acontece com o tamanho do indivíduo, os tamanhos do crânio e do cérebro são proporcionalmente mais pequenos que os de um Lobo. Esta redução do cérebro tem como consequência que os sentidos da visão e da audição são menos desenvolvidos nos cães que nos lobos;
• Os cães possuem glândulas sudoríferas nas almofadas das patas, mas os lobos não;
• Os lobos não alteraram o seu porte e colocação da cauda, mas os cães apresentam uma panóplia de posições, tipos e tamanhos.
• As cadelas têm dois cios por ano e iniciam a sua maturidade sexual entre os 6 e os 12 meses podendo entrar em estro em qualquer altura do ano. As lobas têm só um cio e sempre na mesma época do ano, de maneira que os seus lobachos nasçam na primavera quando as temperaturas são mais agradáveis e a comida mais abundante. Além disso as lobas não têm o seu primeiro cio antes dos dois anos de idade.
Ao longo de milhares de anos a grande variedade de raças de cães que foram criadas até aos nossos dias evoluíram do lobo. Durante este tempo, é possível que o lobo tenha modificado muito pouco a sua estrutura física e mental, em contrapartida nós temos produzido, mediante uma combinação de factores naturais e de selecção, raças de todas as formas e tamanhos. O peso de um cão doméstico pode variar dos 680 gr. de um Chihuahua aos 95 Kg. de um São bernardo. O lobo manteve o seu peso, tamanho e coloração do pêlo e não houve alterações pelo menos nos últimos 1000 anos.
Há cães com diferentes posições de cauda e forma das orelhas. Criámos cães com o objectivo de nos ajudarem nas tarefas do dia-a-dia, tais como no pastoreio, na caça, na guarda, puxar trenós, ou como simples animais de companhia. A pelagem de um cão pode variar de cor, tamanho e tipo e, até há raças sem pelo algum. Inclusivamente modificámos o movimento dos cães. No galope dos galgos, a dado momento, têm as quatro patas no ar, algo que se assemelha à corrida dos gatos. Os lobos não correm desse modo. Os lobos adultos não ladram, uivam, os cães, devido à neotenia, ladram toda a sua vida.
O cérebro do cão mudou. Deixou de pensar como o de um lobo que não é. O cão tem prioridades distintas das do lobo: valoriza aquilo que o reforça dentro do seu meio ambiente, como a comida, os brinquedos, os passeios, a companhia e a brincadeira com o seu dono, praticar vários tipos de desportos, etc. O cão deixou de precisar de caçar para se alimentar, de procurar companheira/o para se reproduzir, de guardar para se proteger uma vez que o seu dono humano proporciona-lhe tudo isso.
O desenvolvimento social e comportamental do cão também se alterou na mesma proporção em que se modificou a sua componente física uma vez que, a frequência com que os lobos apresentam padrões motores de sobrevivência diferem substancialmente da dos cães. Por exemplo, têm que aprender mais rapidamente que os cães a resposta de medo: aos 19 dias para um lobo contra os 49 dias para os cães. Os lobos têm que aprender muito rapidamente as habilidades de caça para poderem sobreviver. Um cão doméstico não necessita de aprender as técnicas de caçar e matar. Os valores de sobrevivência do lobo são: Comida, água, um lugar onde possa estar seguro e protegido, companhia dos congéneres e reprodução.
O casal Ray e Lorna Coppinger definiram a sequência dos padrões motores de sobrevivência dos lobos da seguinte forma:
Posicionar-se > fixar o olhar e agachar-se > perseguir > agarrar-morder > matar > dissecar > consumir
Em relação aos nossos cães, faltam-lhes partes desta sequência predatória dos lobos. “Parte da domesticação e da evolução dos cães foi realizada remarcando certas partes da sequência e suprimindo ou deixando em estado latente outras” (James O’Heare)
Por exemplo, o padrão motor do comportamento predatório de um border collie de pastoreio é:
Posicionar-se > fixar o olhar e agachar-se > perseguir > agarrar-morder > matar > dissecar > consumir (Ray e Lorna Coppinger)
Neste caso os padrões de fixar o olhar e agachar-se são os mais reforçantes da sequência. Nota-se a falta de agarrar-morder e matar, apesar disso estes padrões motores estão presentes mas encontram-se num estado latente.
No caso de um Retriever que necessita de trazer as peças de caça com boca branda para não as destruir, a sequência do seu padrão motor é a seguinte:
Posicionar-se > agachar-se > agarrar-morder > consumir
(Ray e Lorna Coppinger)
Assim, por um lado temos um lobo cujos padrões motores de predação não mudaram porque precisa deles intactos para a sua sobrevivência. Por outro temos os nossos cães domésticos de diferentes raças, com padrões motores de predação totalmente distintos e que se adaptaram em cada raça para se ajustarem às distintas funções, ou como animal de companhia ou como cão de trabalho.
Sobre as diferenças de comportamento entre um lobo e um cão doméstico, Steven Lindsay disse: “Ao longo da história da domesticação se segregou os cães dos lobos pelo seu comportamento e um deles deve ter tido o cuidado de não realizar excessivas generalizações entre os dois canídeos no que se refere às suas respectivas motivações e padrões de comportamento”.
Depois de analisado em pormenor a evolução do cão e a sua separação do lobo, temos que este (Canis Lupus) permaneceu sem alterações durante centenas de anos e temos o cão doméstico (Canis Familiaris) que mudou na sua aparência e no seu comportamento e que agora pode fazer muitas coisas que são completamente estranhas ao lobo. Os cães estão neste momento tão afastados dos seus ancestrais como nós estamos afastados dos nossos cães.
No próximo mês iremos continuar com este tema da dominância canina.
19/12/11
COMPORTAMENTOS APRESENTADOS PELOS CÃES NO SEU RELACIONAMENTO COM OS HUMANOS
Poderíamos considerar que, para um cão, um figurante de treino pertence sempre a uma espécie que vai “lutar” com outra. Devido a essa situação, o figurante deve ser sempre uma pessoa desconhecida tanto do cão, como do adestrador como do dono. Quando estimulados os seus instintos, o figurante trata de o “obrigar a sobreviver”, toda a sua filogenia (o que está gravado nos genes) está presente no acto de defesa, morderá ou será obrigado a retirar-se do território do humano. Este comportamento é equiparado ao do cachorro que procura a protecção entre as pernas do seu dono. Para trás ficaram as sessões de brincadeira com a manga e a diversão da caça, agora há que enfrentar ou retirar-se.
Analisando esta questão sob o ponto de vista etológico e abandonando as nossas considerações antropomórficas sobre o cão, vejamos como actuariam em liberdade e assim compreenderemos muitas das condutas desconcertantes desta grande espécie.
A luta directa é frequente na natureza mas, é ainda mais frequente não chegarem a ela. O mais normal é a mescla de luta + exibição.
Porque se exibe o cão perante o figurante? Efectivamente só actua como faria com outro membro da sua espécie com quem está a disputar um recurso, fêmea, território ou para evitar a depredação. Até há bem pouco tempo considerava-se que este comportamento era motivado pelo bem da espécie. Hoje já ninguém duvida que os animais saiem beneficiados na evitação da luta, sempre e quando se saiba a priori qual irá ser o resultado. Se vale a pena, arrisca-se, se os benefícios são poucos, retira-se.
Estratégias “gavião, pomba e burguês”
A estratégia “gavião” consiste em lutar sempre. A “pomba” em exibir-se a ver se dá resultado e se não, retirar-se.
Maynards Smith em 1978 publicou um estudo muito completo sobre este modelo de comportamento. Nele associava a uma luta, um custo, a uma ferida, outro, e a um display (conjunto de sinais que predizem um comportamento complexo) um custo muito inferior. Aplicou uma matriz aos custos dos distintos enfrentamentos e, dos seus resultados, chegou à conclusão de que: ou numa população há indivíduos que actuam sempre como “gavião” ou como “pomba”, ou o mesmo individuo comporta-se sete vezes como “gavião” e cinco como “pomba”.
Este tipo de comportamento é realmente muito difícil de encontrar na natureza pelo que chegou-se à conclusão que existe uma outra classe de estratégia, a do “burguês”. Consiste em que: um animal porta-se como “gavião” quando é o dono do recurso e como “pomba” quando é o intruso.
Devido a isto, e aplicada a matriz correspondente ao estudo experimental, podemos afirmar que: numa população onde existam as três estratégias, vencerá sempre a do “burguês”.
O cão será sempre mais forte no seu território, ao lado do seu amo, na defesa da sua prole ou defendendo o recurso. Extrapolando a estratégia do “burguês” para a espécie humana vemos que um homem, por débil que possa aparentar defenderá com arrojo a sua casa e a sua família. Esse mesmo homem demonstrará debilidade se vir a casa do seu vizinho ser assaltada e à primeira dificuldade fugirá aceitando a derrota. Realmente, o que está em disputa neste último caso é algo que nunca teve, enquanto que no primeiro o que defende é a sua própria vida e tudo o que ele possui. Neste contexto, pode ser aplicado o ditado chinês: Teme a ira de um homem pacífico!
Estes comportamentos aplicados à nossa realidade
Se trabalhamos com muitos cães temos oportunidade de observar as três estratégias:
• O cão morde sempre que se “sente” agredido;
• O cão nunca morde mas exibe-se;
• O cão morde somente quando se defende ou está em perigo o seu dono ou o recurso.
Evidentemente esta última estratégia é a mais rentável para o animal e podemos assegurar que é adaptativa e evolutivamente estável e, devido a isso, devemos procurar os exemplares que saibam decidir a estratégia que devem utilizar em cada momento. Em termos coloquiais, o que nos interessa é o cão “burguês”.
Analisando esta questão sob o ponto de vista etológico e abandonando as nossas considerações antropomórficas sobre o cão, vejamos como actuariam em liberdade e assim compreenderemos muitas das condutas desconcertantes desta grande espécie.
A luta directa é frequente na natureza mas, é ainda mais frequente não chegarem a ela. O mais normal é a mescla de luta + exibição.
Porque se exibe o cão perante o figurante? Efectivamente só actua como faria com outro membro da sua espécie com quem está a disputar um recurso, fêmea, território ou para evitar a depredação. Até há bem pouco tempo considerava-se que este comportamento era motivado pelo bem da espécie. Hoje já ninguém duvida que os animais saiem beneficiados na evitação da luta, sempre e quando se saiba a priori qual irá ser o resultado. Se vale a pena, arrisca-se, se os benefícios são poucos, retira-se.
Estratégias “gavião, pomba e burguês”
A estratégia “gavião” consiste em lutar sempre. A “pomba” em exibir-se a ver se dá resultado e se não, retirar-se.
Maynards Smith em 1978 publicou um estudo muito completo sobre este modelo de comportamento. Nele associava a uma luta, um custo, a uma ferida, outro, e a um display (conjunto de sinais que predizem um comportamento complexo) um custo muito inferior. Aplicou uma matriz aos custos dos distintos enfrentamentos e, dos seus resultados, chegou à conclusão de que: ou numa população há indivíduos que actuam sempre como “gavião” ou como “pomba”, ou o mesmo individuo comporta-se sete vezes como “gavião” e cinco como “pomba”.
Este tipo de comportamento é realmente muito difícil de encontrar na natureza pelo que chegou-se à conclusão que existe uma outra classe de estratégia, a do “burguês”. Consiste em que: um animal porta-se como “gavião” quando é o dono do recurso e como “pomba” quando é o intruso.
Devido a isto, e aplicada a matriz correspondente ao estudo experimental, podemos afirmar que: numa população onde existam as três estratégias, vencerá sempre a do “burguês”.
O cão será sempre mais forte no seu território, ao lado do seu amo, na defesa da sua prole ou defendendo o recurso. Extrapolando a estratégia do “burguês” para a espécie humana vemos que um homem, por débil que possa aparentar defenderá com arrojo a sua casa e a sua família. Esse mesmo homem demonstrará debilidade se vir a casa do seu vizinho ser assaltada e à primeira dificuldade fugirá aceitando a derrota. Realmente, o que está em disputa neste último caso é algo que nunca teve, enquanto que no primeiro o que defende é a sua própria vida e tudo o que ele possui. Neste contexto, pode ser aplicado o ditado chinês: Teme a ira de um homem pacífico!
Estes comportamentos aplicados à nossa realidade
Se trabalhamos com muitos cães temos oportunidade de observar as três estratégias:
• O cão morde sempre que se “sente” agredido;
• O cão nunca morde mas exibe-se;
• O cão morde somente quando se defende ou está em perigo o seu dono ou o recurso.
Evidentemente esta última estratégia é a mais rentável para o animal e podemos assegurar que é adaptativa e evolutivamente estável e, devido a isso, devemos procurar os exemplares que saibam decidir a estratégia que devem utilizar em cada momento. Em termos coloquiais, o que nos interessa é o cão “burguês”.
22/11/11
INTELIGÊNCIA, APRENDIZAGEM E MEMÓRIA NOS CANÍDEOS
A Inteligência
A inteligência canina, à semelhança do que acontece em muitas outras espécies, pode-se configurar como qualitativamente igual à nossa mas quantitativamente muito inferior. Quando falamos de inteligência confrontamo-nos sempre com a mesma questão: O que é e como podemos defini-la? Se houvesse um só padrão para podermos medir o grau de inteligência inter ou intra-específica, não teríamos problemas para escalonar um animal, no seu nível intelectual, em relação à espécie humana.
Num seminário em que participei numa Universidade Espanhola e que foi ministrado por um Professor de Psicologia e por um Professor de Etologia, um dos temas em discussão foi o da inteligência animal. Durante o debate passou-se do antropomorfismo ao cepticismo e da paixão ao pragmatismo. No final e, perante a tese de que os animais superiores “pensam” qualitativamente igual a nós, alguns assistentes protestaram veementemente. Concretamente um deles definiu a inteligência como “a capacidade de criar ou produzir algo que tenha a ver com arte”. O Etólogo argumentou que determinados primatas pintaram quadros muito parecidos aos de Picasso e outros, inclusivamente criaram um estilo próprio, depois de um adestramento adequado. A anedota surgiu quando um dos participantes, com falta de justificações científicas para desmontar a tese, comentou: “Para mim, inteligência qualitativa é um chimpanzé escrever D. Quixote de La Mancha!” O Professor de Etologia, com ar astuto respondeu: “Nem você nem eu juntos e em muitos anos, seríamos capazes de competir com Cervantes em tal façanha e assim, segundo as suas razões, está-nos a equiparar em inteligência a um simples chimpanzé!”.
A nossa inteligência, comparada à de um cão, é igual mas com um período evolutivo impressionante a nosso favor. Assim, o animal prevê a consequência de uma resposta, associa estímulos, cria padrões próprios de conduta e realiza um monte de sequências baseadas no mesmo padrão inteligente de um ser humano. Fundamentalmente, o que distingue o tipo de inteligência do homem da do cão é que, enquanto este aprende a resolver os seus problemas e conflitos de sobrevivência através da inteligência associativa, o homem para atingir os seus objectivos utiliza outro tipo de inteligência mais complexa e mais elaborada, a cognitiva.
A Aprendizagem
Em termos gerais entende-se por aprendizagem, qualquer mudança de conduta de um animal, numa situação determinada, que é atribuída à sua experiência prévia com essa situação ou com outra que compartilhe certas características. Excluem-se por tanto, as mudanças que se devem à adaptação sensorial, à fadiga muscular, a possíveis danos físicos ou à maturação mental.
Podemos assim chegar à conclusão que um cão aprendeu algo, quando observamos uma mudança significativa no seu comportamento mas, temos que distinguir entre aquelas mudanças que se devem à aprendizagem das que se podem atribuir a outras causas. Se um cachorro procura comida num determinado local, e que algumas horas antes não o fazia, pode-se dever esta conduta a que agora esteja com mais fome que antes e que o que mudou foi o seu estado motivacional.
Foram propostas diversas classificações para os distintos tipos de aprendizagem:
1. Aprendizagem não associativa
Quando, depois de várias ocasiões nas quais se expõe o animal a um estímulo, este deixa de licitar uma resposta, diz-se que se produziu uma habituação. Podemos assegurar que, se a habituação está tão estendida no reino animal, deve ter uma grande importância biológica na hora de descriminar e tomar decisões apropriadas a cada situação evitando o gasto inútil de energia que implicaria o responder de forma repetida a estímulos que a experiência demonstra que são irrelevantes. Um cão jovem é normal que ladre a qualquer coisa (inclusive a uma mosca). Quando passa à fase juvenil o ladrar sem necessidade só implica um gasto de tempo e sobretudo de energia sem obter consequências positivas.
A aprendizagem também pode causar o aparecimento de novas respostas em vez da extinção das antigas. A este mecanismo dá-se o nome de sensibilização. Assim, um cão pode dirigir certas respostas em função de um estímulo, previamente neutro, depois de haver sido exposto a estímulos motivacionalmente importantes como o alimento (+) ou um castigo físico (-).
2. Aprendizagem associativa
Caracteriza-se porque o cão aprende a associar dois estímulos unidos no tempo. No condicionamento clássico ou Pavloviano, o primeiro estímulo é o condicional (uma luz, som, etc.) e o segundo o incondicional (alimento, água ou carícias). A vantagem da mudança para o condicionamento operante ou instrumental, primeiro é o sucesso de uma resposta comportamental do cão mais assertiva e o segundo, é a consequência que obtém desse comportamento. Tanto utilizando um método como o outro, a consequência será sempre reforçante.
A capacidade de aprender através destes dois tipos de condicionamento, resulta num grande valor adaptativo porque permite ao cão fazer com que seja mais previsível tudo o que ocorre no seu meio ambiente e responder com um comportamento mais adequado. Não obstante, o condicionamento operante é o melhor método dos dois porque permite ao cão desenvolver uma grande capacidade de “inventar”. Se para além disso, o animal, possuir uma certa capacidade cognitiva, o repertório pode aumentar exponencialmente. Noutras palavras, graças à aprendizagem associativa, o cão pode identificar relações de contingência e relações causais entre acontecimentos externos e o seu comportamento e os efeitos que estas podem ter.
3. Aprendizagem latente
Existem ocasiões em que um animal adquire informação do seu meio ambiente sem necessidade de obter uma resposta concreta e imediata. A este tipo de aprendizagem dá-se o nome de latente. Sabe-se que a informação está aí porque, dadas as condições apropriadas, o organismo faz uso dela. Normalmente adquire-se por exploração e pode ser de um grande valor adaptativo. Em liberdade poderia, por exemplo, ser a diferença entre ser depredado ou não. Quase todos os animais mostram precaução perante uma coloração apossemática (que não é venenosa) ou de advertência que exibem as suas possíveis presas.
4. Aprendizagem súbita
Tem lugar quando um indivíduo é capaz de resolver um problema sem recorrer ao processo tentativa / erro. Noutros termos, poderá dizer-se que o cão é capaz de usar informação, obtida num dado contexto, para resolver mentalmente, um problema surgido noutro contexto diferente.
Quando um animal resolve uma situação rapidamente, devido à experiência adquirida na resolução de outras similares, diz-se que desenvolveu estratégias de aprendizagem (learning sets). Realmente estas estratégias são de um grande valor adaptativo porque poupam ao cão uma grande quantidade de tempo na aprendizagem que, de outro modo, se perderia se tivesse que resolver cada problema em separado. Em termos de adestramento chamamos a este conceito capacidade de resolução.
5. Aprendizagem social
Os animais que vivem em grupos sociais – como é o caso do cão – são capazes de aprender com outros indivíduos da sua espécie. É normal os primatas aprenderem a usar “ferramentas” para se alimentarem e inclusivamente, o uso de plantas medicinais. Nos cães que vivem em “matilhas mais ou menos livres” podemos observar como os cachorros que não tenham sido condicionados a um estímulo, reagem frente a ele, como viram fazer os seus progenitores.
Resumindo
De todas as formas de aprendizagem a mais utilizada, devido aos seus bons resultados, é a associativa instrumental ou operante. Realmente é aquela que preconizamos e utilizamos no nosso trabalho ainda que, logicamente ajustada à capacidade de cada indivíduo, e à sua raça.
O problema do adestrador complica-se sempre que, em vez de utilizar um rato de laboratório, indefeso perante as nossas manipulações, se enfrenta com um animal que não tem “nenhuma vontade” de se submeter a nenhum condicionamento e que para além disso se sente apoiado pelos seus dentes e pelo seu dono. Nunca vimos nenhum cão contente no primeiro dia que lhe colocamos a coleira e o obrigamos a adoptar uma postura de submissão. Com o passar do tempo e se a aprendizagem a que foi submetido é a correcta, voltará louco de alegria ao ver “o instrumento de tortura” nas nossas mãos.
A Memória
Quando falamos de aprendizagem não podemos descartar ou separar o factor memória como uma função do intelecto. Tradicionalmente os fisiólogos da conduta distinguem dois tipos de memória: de curto prazo e o de longo prazo. Realmente esta distinção baseia-se no tempo que leva o animal a esquecer um facto.
Os processos necessários para que um animal possa recordar um facto passado são: a codificação, a consolidação e a recuperação.
No primeiro processo a informação que se dá ao cão, passa a memória de curto prazo. A consolidação consiste na transferência dessa informação, desde a memória de curto à de longo prazo. A recuperação produz-se quando o animal necessita dessa informação para resolver um problema ou uma situação.
O processo mais importante dos três, para utilizar no adestramento, é sem dúvida o da consolidação. Nele intervêm uma variedade de hormonas e neurotransmissores. A adrenalina tem um importante papel na consolidação dos processos de aprendizagem, de tal forma, que uma certa concentração plasmática de glucose, provocada por ela, é benéfica assim como um aumento importante pode provocar um efeito contrário.
A consequência prática do exposto é que uma activação normal ou média do sistema nervoso facilita a aprendizagem assim como uma dose de stress o medo dificulta seriamente os processos de consolidação.
A inteligência canina, à semelhança do que acontece em muitas outras espécies, pode-se configurar como qualitativamente igual à nossa mas quantitativamente muito inferior. Quando falamos de inteligência confrontamo-nos sempre com a mesma questão: O que é e como podemos defini-la? Se houvesse um só padrão para podermos medir o grau de inteligência inter ou intra-específica, não teríamos problemas para escalonar um animal, no seu nível intelectual, em relação à espécie humana.
Num seminário em que participei numa Universidade Espanhola e que foi ministrado por um Professor de Psicologia e por um Professor de Etologia, um dos temas em discussão foi o da inteligência animal. Durante o debate passou-se do antropomorfismo ao cepticismo e da paixão ao pragmatismo. No final e, perante a tese de que os animais superiores “pensam” qualitativamente igual a nós, alguns assistentes protestaram veementemente. Concretamente um deles definiu a inteligência como “a capacidade de criar ou produzir algo que tenha a ver com arte”. O Etólogo argumentou que determinados primatas pintaram quadros muito parecidos aos de Picasso e outros, inclusivamente criaram um estilo próprio, depois de um adestramento adequado. A anedota surgiu quando um dos participantes, com falta de justificações científicas para desmontar a tese, comentou: “Para mim, inteligência qualitativa é um chimpanzé escrever D. Quixote de La Mancha!” O Professor de Etologia, com ar astuto respondeu: “Nem você nem eu juntos e em muitos anos, seríamos capazes de competir com Cervantes em tal façanha e assim, segundo as suas razões, está-nos a equiparar em inteligência a um simples chimpanzé!”.
A nossa inteligência, comparada à de um cão, é igual mas com um período evolutivo impressionante a nosso favor. Assim, o animal prevê a consequência de uma resposta, associa estímulos, cria padrões próprios de conduta e realiza um monte de sequências baseadas no mesmo padrão inteligente de um ser humano. Fundamentalmente, o que distingue o tipo de inteligência do homem da do cão é que, enquanto este aprende a resolver os seus problemas e conflitos de sobrevivência através da inteligência associativa, o homem para atingir os seus objectivos utiliza outro tipo de inteligência mais complexa e mais elaborada, a cognitiva.
A Aprendizagem
Em termos gerais entende-se por aprendizagem, qualquer mudança de conduta de um animal, numa situação determinada, que é atribuída à sua experiência prévia com essa situação ou com outra que compartilhe certas características. Excluem-se por tanto, as mudanças que se devem à adaptação sensorial, à fadiga muscular, a possíveis danos físicos ou à maturação mental.
Podemos assim chegar à conclusão que um cão aprendeu algo, quando observamos uma mudança significativa no seu comportamento mas, temos que distinguir entre aquelas mudanças que se devem à aprendizagem das que se podem atribuir a outras causas. Se um cachorro procura comida num determinado local, e que algumas horas antes não o fazia, pode-se dever esta conduta a que agora esteja com mais fome que antes e que o que mudou foi o seu estado motivacional.
Foram propostas diversas classificações para os distintos tipos de aprendizagem:
1. Aprendizagem não associativa
Quando, depois de várias ocasiões nas quais se expõe o animal a um estímulo, este deixa de licitar uma resposta, diz-se que se produziu uma habituação. Podemos assegurar que, se a habituação está tão estendida no reino animal, deve ter uma grande importância biológica na hora de descriminar e tomar decisões apropriadas a cada situação evitando o gasto inútil de energia que implicaria o responder de forma repetida a estímulos que a experiência demonstra que são irrelevantes. Um cão jovem é normal que ladre a qualquer coisa (inclusive a uma mosca). Quando passa à fase juvenil o ladrar sem necessidade só implica um gasto de tempo e sobretudo de energia sem obter consequências positivas.
A aprendizagem também pode causar o aparecimento de novas respostas em vez da extinção das antigas. A este mecanismo dá-se o nome de sensibilização. Assim, um cão pode dirigir certas respostas em função de um estímulo, previamente neutro, depois de haver sido exposto a estímulos motivacionalmente importantes como o alimento (+) ou um castigo físico (-).
2. Aprendizagem associativa
Caracteriza-se porque o cão aprende a associar dois estímulos unidos no tempo. No condicionamento clássico ou Pavloviano, o primeiro estímulo é o condicional (uma luz, som, etc.) e o segundo o incondicional (alimento, água ou carícias). A vantagem da mudança para o condicionamento operante ou instrumental, primeiro é o sucesso de uma resposta comportamental do cão mais assertiva e o segundo, é a consequência que obtém desse comportamento. Tanto utilizando um método como o outro, a consequência será sempre reforçante.
A capacidade de aprender através destes dois tipos de condicionamento, resulta num grande valor adaptativo porque permite ao cão fazer com que seja mais previsível tudo o que ocorre no seu meio ambiente e responder com um comportamento mais adequado. Não obstante, o condicionamento operante é o melhor método dos dois porque permite ao cão desenvolver uma grande capacidade de “inventar”. Se para além disso, o animal, possuir uma certa capacidade cognitiva, o repertório pode aumentar exponencialmente. Noutras palavras, graças à aprendizagem associativa, o cão pode identificar relações de contingência e relações causais entre acontecimentos externos e o seu comportamento e os efeitos que estas podem ter.
3. Aprendizagem latente
Existem ocasiões em que um animal adquire informação do seu meio ambiente sem necessidade de obter uma resposta concreta e imediata. A este tipo de aprendizagem dá-se o nome de latente. Sabe-se que a informação está aí porque, dadas as condições apropriadas, o organismo faz uso dela. Normalmente adquire-se por exploração e pode ser de um grande valor adaptativo. Em liberdade poderia, por exemplo, ser a diferença entre ser depredado ou não. Quase todos os animais mostram precaução perante uma coloração apossemática (que não é venenosa) ou de advertência que exibem as suas possíveis presas.
4. Aprendizagem súbita
Tem lugar quando um indivíduo é capaz de resolver um problema sem recorrer ao processo tentativa / erro. Noutros termos, poderá dizer-se que o cão é capaz de usar informação, obtida num dado contexto, para resolver mentalmente, um problema surgido noutro contexto diferente.
Quando um animal resolve uma situação rapidamente, devido à experiência adquirida na resolução de outras similares, diz-se que desenvolveu estratégias de aprendizagem (learning sets). Realmente estas estratégias são de um grande valor adaptativo porque poupam ao cão uma grande quantidade de tempo na aprendizagem que, de outro modo, se perderia se tivesse que resolver cada problema em separado. Em termos de adestramento chamamos a este conceito capacidade de resolução.
5. Aprendizagem social
Os animais que vivem em grupos sociais – como é o caso do cão – são capazes de aprender com outros indivíduos da sua espécie. É normal os primatas aprenderem a usar “ferramentas” para se alimentarem e inclusivamente, o uso de plantas medicinais. Nos cães que vivem em “matilhas mais ou menos livres” podemos observar como os cachorros que não tenham sido condicionados a um estímulo, reagem frente a ele, como viram fazer os seus progenitores.
Resumindo
De todas as formas de aprendizagem a mais utilizada, devido aos seus bons resultados, é a associativa instrumental ou operante. Realmente é aquela que preconizamos e utilizamos no nosso trabalho ainda que, logicamente ajustada à capacidade de cada indivíduo, e à sua raça.
O problema do adestrador complica-se sempre que, em vez de utilizar um rato de laboratório, indefeso perante as nossas manipulações, se enfrenta com um animal que não tem “nenhuma vontade” de se submeter a nenhum condicionamento e que para além disso se sente apoiado pelos seus dentes e pelo seu dono. Nunca vimos nenhum cão contente no primeiro dia que lhe colocamos a coleira e o obrigamos a adoptar uma postura de submissão. Com o passar do tempo e se a aprendizagem a que foi submetido é a correcta, voltará louco de alegria ao ver “o instrumento de tortura” nas nossas mãos.
A Memória
Quando falamos de aprendizagem não podemos descartar ou separar o factor memória como uma função do intelecto. Tradicionalmente os fisiólogos da conduta distinguem dois tipos de memória: de curto prazo e o de longo prazo. Realmente esta distinção baseia-se no tempo que leva o animal a esquecer um facto.
Os processos necessários para que um animal possa recordar um facto passado são: a codificação, a consolidação e a recuperação.
No primeiro processo a informação que se dá ao cão, passa a memória de curto prazo. A consolidação consiste na transferência dessa informação, desde a memória de curto à de longo prazo. A recuperação produz-se quando o animal necessita dessa informação para resolver um problema ou uma situação.
O processo mais importante dos três, para utilizar no adestramento, é sem dúvida o da consolidação. Nele intervêm uma variedade de hormonas e neurotransmissores. A adrenalina tem um importante papel na consolidação dos processos de aprendizagem, de tal forma, que uma certa concentração plasmática de glucose, provocada por ela, é benéfica assim como um aumento importante pode provocar um efeito contrário.
A consequência prática do exposto é que uma activação normal ou média do sistema nervoso facilita a aprendizagem assim como uma dose de stress o medo dificulta seriamente os processos de consolidação.
24/10/11
O MUNDO ATRAVÉS DO OLFACTO - 3ª Parte
O Rastreio Desportivo
Neste artigo sobre Rastreio Desportivo, último de uma trilogia dedicada ao mundo dos cães visto através dos odores, vamo-nos debruçar essencialmente na disciplina de pistagem de RCI e no Steurthond-FH da FCI.
Perante o Regulamento de uma prova de Steurthond-FH (veja caixa) ou da disciplina de pistagem de uma prova de RCI, ou qualquer outra similar de origem alemã, temos que adaptar o trabalho a certas peculiaridades normativas que se separam do tipo de rastreio analisado em artigos anteriores desta trilogia e que nos obrigam a uma análise e a uma abordagem diferente.
O observador estranho a um desporto deste tipo, que presencie uma prova de rastreio, deve considerar muito simples o adestramento realizado ou a execução dos exercícios. Vê um cão que caminha à frente do seu guia, procurando vários objectos num terreno que poderá ser relativamente pequeno ou maior em função do grau em que se está a competir. Pode supor que é bastante simples e chegar a pensar que o “o meu cão” pode fazer a mesma coisa mas com mais alegria e rapidez. Nada mais longe da realidade!
Estes regulamentos oferecem numerosas dificuldades, entre elas podemos destacar a obrigatoriedade de o cão só se poder orientar através do olfacto, com o nariz continuamente encostado ao solo, que não se afaste das pegadas deixadas pelo traçador, que se mantenha a dez metros do guia (sem possibilidade de voltar para este) e muitas outras dificuldades que o cão terá que suplantar.
O sistema de aprendizagem utilizado para esta área do trabalho desportivo canino baseia-se nos mesmos princípios dos utilizados para o rastreio civil, quer dizer, no fomento dos instintos de caça e presa.
Se possuímos um animal predisposto à satisfação de ambos os instintos, procuraremos um terreno nas melhores condições possíveis para este tipo de trabalhos. Queremos dizer que, no caso de estar lavrado, a terra deverá apresentar-se solta e algo húmida, sendo o frio e as primeiras horas da manhã os melhores companheiros do rastro. Se nos confrontamos com terreno de erva, de igual forma, o frio, a humidade e a madrugada nos irão ajudar nessa tarefa.
Uma vez encontrado um bom terreno, o trabalho inicial prendesse com a habituação do cão em colocar o nariz no chão quando precisa de encontrar aquilo que pretende, assim, espetamos uma pequena bandeirola que nos irá indicar, a nós e ao cão, o início da pista. De seguida, pisamos durante algum tempo uma área de cerca de 1m2 onde colocamos concomitantemente vários pedaços do motivador escolhido (normalmente utilizam-se finas rodelas de salsicha). O guia fará com que, dando-lhe a cheirar um pequeno pedaço de salsicha e indicando-lhe onde estão os restantes, o cão coma todos os pedaços sem levantar a cabeça.
Com este primeiro passo, que repetiremos dez vezes em dias e lugares distintos, começamos, igualmente, a introduzir a ordem correspondente, que pode ser, por exemplo, “busca”, associando-a ao início do percurso da pista e, como tal, à bandeirola e ao odor libertado pelo solo ao ser pisado.
O passo seguinte consiste em colocar os motivadores nas pegadas conforme o traçador vai caminhando no traçado de pista. A evolução deste processo prende-se com o aumento do tamanho da pista e a consequente alternância da colocação dos pedaços de salsicha nas pegadas, que cada vez serão mais escassos. Portanto, a quantidade de motivadores é a mesma tanto no início da aprendizagem como quando o cão já for um expert, o que muda, é a frequência com que se coloca os pedaços de salsicha ao longo da pista.
Para dificultar o trabalho do cão, este tem que encontrar alguns objectos que o traçador colocará assim como seguir um percurso com linhas rectas, ângulos rectos, mais fechados e mais abertos, linhas curvas e em zig-zag, vários tipos de terreno: erva, terra, caminhos traçados por animais, lombas, terrenos alagados, vales, pistas falsas, etc.
Ao mesmo tempo, ensinamos que ao encontrar um objecto colocado pelo traçador, o cão deve assinalá-lo deitando-se, sentando-se ou trazendo-o, em função da maneira como o guia o treinou.
No caso de necessitar um reforço do instinto de caça, podemos alterar a frequência com que disponibilizamos os motivadores no traçado da pista e devemos ter constantemente em atenção que há sempre pedaços de salsicha na pista para que o cão tenha um objectivo quando realiza este trabalho.
Mas também no trabalho de rastreio há que respeitar as fases que recomendamos para a obediência, e que não é supérfluo voltar a recordar. A primeira: aprendizagem por motivação; a segunda: trabalho por obrigação e por último, trabalho por motivação conhecendo a obrigação. Quer dizer que, quando o cão sabe o que tem que fazer para levar um rastro até ao fim e com a finalidade de se auto-satisfazer, devemos passar à segunda fase aquela em que obrigaremos o animal a realizar o trabalho sem outra recompensa que não seja o nosso reconhecimento que é o facto de o libertarmos do exercício. Quando comprovamos que a execução é a correcta nesta fase e não observamos tentativas de evitação do trabalho, passamos a introduzir, de novo, os reforços sendo esta a última fase do adestramento.
É conveniente recordar que devemos ser pacientes e constantes no trabalho para ter um bom cão de rastreio. Devemos controlar adequadamente todos os factores que incidem na pistagem, especialmente na fase de aprendizagem, já que necessitamos de cães bem motivados e treinados para entrar nas etapas seguintes com a garantia de êxito final.
Neste artigo sobre Rastreio Desportivo, último de uma trilogia dedicada ao mundo dos cães visto através dos odores, vamo-nos debruçar essencialmente na disciplina de pistagem de RCI e no Steurthond-FH da FCI.
Perante o Regulamento de uma prova de Steurthond-FH (veja caixa) ou da disciplina de pistagem de uma prova de RCI, ou qualquer outra similar de origem alemã, temos que adaptar o trabalho a certas peculiaridades normativas que se separam do tipo de rastreio analisado em artigos anteriores desta trilogia e que nos obrigam a uma análise e a uma abordagem diferente.
O observador estranho a um desporto deste tipo, que presencie uma prova de rastreio, deve considerar muito simples o adestramento realizado ou a execução dos exercícios. Vê um cão que caminha à frente do seu guia, procurando vários objectos num terreno que poderá ser relativamente pequeno ou maior em função do grau em que se está a competir. Pode supor que é bastante simples e chegar a pensar que o “o meu cão” pode fazer a mesma coisa mas com mais alegria e rapidez. Nada mais longe da realidade!
Estes regulamentos oferecem numerosas dificuldades, entre elas podemos destacar a obrigatoriedade de o cão só se poder orientar através do olfacto, com o nariz continuamente encostado ao solo, que não se afaste das pegadas deixadas pelo traçador, que se mantenha a dez metros do guia (sem possibilidade de voltar para este) e muitas outras dificuldades que o cão terá que suplantar.
O sistema de aprendizagem utilizado para esta área do trabalho desportivo canino baseia-se nos mesmos princípios dos utilizados para o rastreio civil, quer dizer, no fomento dos instintos de caça e presa.
Se possuímos um animal predisposto à satisfação de ambos os instintos, procuraremos um terreno nas melhores condições possíveis para este tipo de trabalhos. Queremos dizer que, no caso de estar lavrado, a terra deverá apresentar-se solta e algo húmida, sendo o frio e as primeiras horas da manhã os melhores companheiros do rastro. Se nos confrontamos com terreno de erva, de igual forma, o frio, a humidade e a madrugada nos irão ajudar nessa tarefa.
Uma vez encontrado um bom terreno, o trabalho inicial prendesse com a habituação do cão em colocar o nariz no chão quando precisa de encontrar aquilo que pretende, assim, espetamos uma pequena bandeirola que nos irá indicar, a nós e ao cão, o início da pista. De seguida, pisamos durante algum tempo uma área de cerca de 1m2 onde colocamos concomitantemente vários pedaços do motivador escolhido (normalmente utilizam-se finas rodelas de salsicha). O guia fará com que, dando-lhe a cheirar um pequeno pedaço de salsicha e indicando-lhe onde estão os restantes, o cão coma todos os pedaços sem levantar a cabeça.
Com este primeiro passo, que repetiremos dez vezes em dias e lugares distintos, começamos, igualmente, a introduzir a ordem correspondente, que pode ser, por exemplo, “busca”, associando-a ao início do percurso da pista e, como tal, à bandeirola e ao odor libertado pelo solo ao ser pisado.
O passo seguinte consiste em colocar os motivadores nas pegadas conforme o traçador vai caminhando no traçado de pista. A evolução deste processo prende-se com o aumento do tamanho da pista e a consequente alternância da colocação dos pedaços de salsicha nas pegadas, que cada vez serão mais escassos. Portanto, a quantidade de motivadores é a mesma tanto no início da aprendizagem como quando o cão já for um expert, o que muda, é a frequência com que se coloca os pedaços de salsicha ao longo da pista.
Para dificultar o trabalho do cão, este tem que encontrar alguns objectos que o traçador colocará assim como seguir um percurso com linhas rectas, ângulos rectos, mais fechados e mais abertos, linhas curvas e em zig-zag, vários tipos de terreno: erva, terra, caminhos traçados por animais, lombas, terrenos alagados, vales, pistas falsas, etc.
Ao mesmo tempo, ensinamos que ao encontrar um objecto colocado pelo traçador, o cão deve assinalá-lo deitando-se, sentando-se ou trazendo-o, em função da maneira como o guia o treinou.
No caso de necessitar um reforço do instinto de caça, podemos alterar a frequência com que disponibilizamos os motivadores no traçado da pista e devemos ter constantemente em atenção que há sempre pedaços de salsicha na pista para que o cão tenha um objectivo quando realiza este trabalho.
Mas também no trabalho de rastreio há que respeitar as fases que recomendamos para a obediência, e que não é supérfluo voltar a recordar. A primeira: aprendizagem por motivação; a segunda: trabalho por obrigação e por último, trabalho por motivação conhecendo a obrigação. Quer dizer que, quando o cão sabe o que tem que fazer para levar um rastro até ao fim e com a finalidade de se auto-satisfazer, devemos passar à segunda fase aquela em que obrigaremos o animal a realizar o trabalho sem outra recompensa que não seja o nosso reconhecimento que é o facto de o libertarmos do exercício. Quando comprovamos que a execução é a correcta nesta fase e não observamos tentativas de evitação do trabalho, passamos a introduzir, de novo, os reforços sendo esta a última fase do adestramento.
É conveniente recordar que devemos ser pacientes e constantes no trabalho para ter um bom cão de rastreio. Devemos controlar adequadamente todos os factores que incidem na pistagem, especialmente na fase de aprendizagem, já que necessitamos de cães bem motivados e treinados para entrar nas etapas seguintes com a garantia de êxito final.
16/09/11
O MUNDO ATRAVÉS DO OLFACTO - 2ª Parte
TRABALHOS DE APLICAÇÃO CIVIL
Busca de pessoas desaparecidas
Entre os trabalhos que têm sido seleccionados para mostrar a formação de cães especializados em buscas, o rastreio de pessoas desaparecidas, em fuga ou de qualquer outro tipo de seguimento e das suas pistas olfactivas, advém de um conceito integral de rastreio com cães.
É imprescindível utilizar espécimes sãos e bem dotados de instintos de caça e lúdicos. Devem ser fisicamente activos e resistentes, bem socializados, com bom temperamento e com muita tendência a licitar condutas defensivas.
A sensibilidade do guia e o conhecimento que deve ter do seu cão são factores determinantes do êxito final. Sempre consideraremos a equipa de busca e não o cão de busca já que as indicações que nos oferece cada animal só as poderá interpretar correctamente o seu guia uma vez que este será o único com condições para animar e confirmar o trabalho do seu cão.
A aprendizagem começa quando o animal se encontra altamente motivado pelo jogo e pela perseguição de objectos mordentes que satisfazem os seus instintos. O trabalho consiste em localizar a pessoa com quem tenha estado a jogar com ele com a finalidade de conseguir a sua recompensa.
No início, o ajudante coloca-se no ângulo de visão do cão, para posteriormente se esconder em locais fáceis e conhecidos. Progressivamente aumenta-se a distância que deverá efectuar o animal na busca, assim como os períodos de tempo transcorridos desde a altura em que se mostra a recompensa até à partida do cão na sua busca.
É necessário dispor de vários ajudantes, de ambos os sexos e de idades distintas e mudá-los continuamente. Isto não pode apresentar dificuldade já que se trata de trabalhos simples, isentos de risco e muito gratificantes. A função destes ajudantes limita-se a incitar o cão a que jogue com o motivador, esconderem-se, manterem-se em silêncio e esperar que o animal os encontre, momento em que sairão a jogar alegremente entregando o objecto da busca. Por sua parte, o adestrador ou guia, deverá dar a ordem escolhida para a busca logo que lhe dá a cheirar um objecto impregnado pelo odor do figurante ou o conduz ao local donde saiu sinalizando o rasto deixado por este.
O adestramento avançará quando, à ordem, seguindo as indicações do guia e sem a presença do ajudante – que permanecerá escondido – o cão siga a pista apresentada, que poderá ser, como dissemos, um objecto ou o indicativo do rasto deixado por ele.
Por último, esconder-se-ão os vários ajudantes e o cão deverá localizar o indicado pelo seu guia, seja através de um objecto ou pelo rasto deixado à partida. A prática contínua será um factor de êxito decisivo.
Igualmente, é importante ir complicando as situações progressivamente já que geralmente o trabalho se desenvolverá em condições difíceis e com numerosas pistas deixadas por outras pessoas que irão contaminar a que pretendemos seguir.
Deve considerar-se que, em determinadas condições, os sabujos conseguem rastrear uma pista de seis dias de antiguidade e durante cento e sessenta quilómetros.
Em trabalho de pessoas sepultadas pela neve ou por escombros, o cão não só trabalha pelo olfacto como deve intuir ou perceber a priori a possível ubiquidade da vítima.
Ensinar-se-á a ordem de escavar sem que isso represente nenhuma dificuldade já que podemos fazê-lo enterrando um pouco de comida e, sempre que damos a ordem, nós mesmos começamos a escavar.
Com este tipo de trabalhos, o cão começa a compreender que o objectivo da busca é salvar vidas humanas e acabará trabalhando com esta ânsia. Antes temos que analisar o trabalho que irá ser executado e motivar excepcionalmente o animal com a finalidade de o iniciar no salvamento.
Aqui os ajudantes deverão estar protegidos contra o frio e os escombros. Ao princípio, facilita-se a tarefa escondendo-se de uma forma superficial, para aumentar progressivamente a dificuldade.
Os animais devem ser escolhidos entre os adequados para suportar humidade a baixas temperaturas e, no caso de cão de catástrofe, recomenda-se que sejam de raças pequenas ou médias e supostamente, muito ágeis.
O cão de narcóticos e explosivos
Nalguns países das tarefas policiais as que são seleccionadas mais unidades caninas, devido ao tráfico de estupefacientes e à actividade terrorista, são as utilizadas na localização de substâncias e drogas proibidas assim como na detecção de artefactos explosivos utilizados por terroristas e mafiosos para o assassinato e a extorsão.
Geralmente inicia-se o adestramento com as mesmas premissas para a busca de pessoas desaparecidas mas introduzindo no objecto ou brinquedo, que se utilizará como estímulo do instinto de caça, uma pequena porção da substância que nos interesse que o cão localize.
Obviamente, a crença de que se droga os cães de narcóticos é uma falácia que só pode proceder da mais absoluta ignorância e que cai por terra com o seu próprio peso.
Com a estimulação do instinto de caça e o desejo de apanhar o brinquedo para jogar com o seu guia, cria-se no cão o suficiente desequilíbrio homeostático com o objectivo de produzir neste a necessária ansiedade de encontrar o brinquedo, dando assim satisfação ao seu instinto.
Devido à qualidade discriminativa do cão, pode-se trabalhar com distintas substâncias estupefacientes ou utilizadas para o fabrico de explosivos no mesmo módulo. Quer dizer, podem-se colocar distintas drogas no mordedor ou brinque-do porque, apesar de se apresentarem independentemente ou misturadas com outras substâncias neutras, aversivas ou de interesse alternativo, o cão as identificará com toda a segurança.
É importante evitar o contacto do cão com as substâncias devido à toxicidade de algumas delas para o qual se examinará o mordedor comprovando a inexistência de exsudação ou dispersão das mesmas.
A obediência que se deve exercitar com estes cães consistirá numa educação básica dando especial ênfase a uma posição de bloqueio. No cão de explosivos, insistir-se-á no sinal de detecção que deverá ser confusa devido à possibilidade da presença de terroristas no teatro de operações que poderão activar o mecanismo explosivo com a intenção de causar danos na unidade canina encarregue de comprovar a descoberta do engenho.
Rastreio de Cancros
Nos Estados Unidos, principalmente, estão já em plena aplicação programas de rastreios de algumas neoplasias dos pulmões, da próstata e melanomas, utilizando a acuidade olfactiva dos cães. Este tipo de rastreio tem várias vantagens em relação aos exames tradicionais: não são invasivos nem dolorosos uma vez que não é necessária a colheita de tecidos para análise, não expõe os pacientes a contínuos choques anestésicos, são incomparavelmente mais económicos e igualmente muito fiáveis.
Neste tipo de trabalho de adestramento o que vamos valorizar é a capacidade discriminativa do olfacto do cão. Sendo assim, vamos trabalhar com vários tipos de líquidos impregnados com vários odores. Normalmente esses líquidos odoríferos são apresentados ao cão em tubos de ensaio, sendo colocado num deles o produto que queremos que o animal marque e que o identifique como tendo um cheiro igual àquele que a neoplasia que estamos a analisar produz. Nessa altura, o cão é efusivamente recompensado com o seu brinquedo preferido.
Apesar de ser um trabalho muito simples de ensinar ao cão, é de uma importância vital para a evolução do diagnóstico do Cancro e já está em fase experimental a utilização deste método noutro tipo de neoplasias.
No próximo mês vamos falar da aplicação do olfacto canino no rastreio desportivo.
Busca de pessoas desaparecidas
Entre os trabalhos que têm sido seleccionados para mostrar a formação de cães especializados em buscas, o rastreio de pessoas desaparecidas, em fuga ou de qualquer outro tipo de seguimento e das suas pistas olfactivas, advém de um conceito integral de rastreio com cães.
É imprescindível utilizar espécimes sãos e bem dotados de instintos de caça e lúdicos. Devem ser fisicamente activos e resistentes, bem socializados, com bom temperamento e com muita tendência a licitar condutas defensivas.
A sensibilidade do guia e o conhecimento que deve ter do seu cão são factores determinantes do êxito final. Sempre consideraremos a equipa de busca e não o cão de busca já que as indicações que nos oferece cada animal só as poderá interpretar correctamente o seu guia uma vez que este será o único com condições para animar e confirmar o trabalho do seu cão.
A aprendizagem começa quando o animal se encontra altamente motivado pelo jogo e pela perseguição de objectos mordentes que satisfazem os seus instintos. O trabalho consiste em localizar a pessoa com quem tenha estado a jogar com ele com a finalidade de conseguir a sua recompensa.
No início, o ajudante coloca-se no ângulo de visão do cão, para posteriormente se esconder em locais fáceis e conhecidos. Progressivamente aumenta-se a distância que deverá efectuar o animal na busca, assim como os períodos de tempo transcorridos desde a altura em que se mostra a recompensa até à partida do cão na sua busca.
É necessário dispor de vários ajudantes, de ambos os sexos e de idades distintas e mudá-los continuamente. Isto não pode apresentar dificuldade já que se trata de trabalhos simples, isentos de risco e muito gratificantes. A função destes ajudantes limita-se a incitar o cão a que jogue com o motivador, esconderem-se, manterem-se em silêncio e esperar que o animal os encontre, momento em que sairão a jogar alegremente entregando o objecto da busca. Por sua parte, o adestrador ou guia, deverá dar a ordem escolhida para a busca logo que lhe dá a cheirar um objecto impregnado pelo odor do figurante ou o conduz ao local donde saiu sinalizando o rasto deixado por este.
O adestramento avançará quando, à ordem, seguindo as indicações do guia e sem a presença do ajudante – que permanecerá escondido – o cão siga a pista apresentada, que poderá ser, como dissemos, um objecto ou o indicativo do rasto deixado por ele.
Por último, esconder-se-ão os vários ajudantes e o cão deverá localizar o indicado pelo seu guia, seja através de um objecto ou pelo rasto deixado à partida. A prática contínua será um factor de êxito decisivo.
Igualmente, é importante ir complicando as situações progressivamente já que geralmente o trabalho se desenvolverá em condições difíceis e com numerosas pistas deixadas por outras pessoas que irão contaminar a que pretendemos seguir.
Deve considerar-se que, em determinadas condições, os sabujos conseguem rastrear uma pista de seis dias de antiguidade e durante cento e sessenta quilómetros.
Em trabalho de pessoas sepultadas pela neve ou por escombros, o cão não só trabalha pelo olfacto como deve intuir ou perceber a priori a possível ubiquidade da vítima.
Ensinar-se-á a ordem de escavar sem que isso represente nenhuma dificuldade já que podemos fazê-lo enterrando um pouco de comida e, sempre que damos a ordem, nós mesmos começamos a escavar.
Com este tipo de trabalhos, o cão começa a compreender que o objectivo da busca é salvar vidas humanas e acabará trabalhando com esta ânsia. Antes temos que analisar o trabalho que irá ser executado e motivar excepcionalmente o animal com a finalidade de o iniciar no salvamento.
Aqui os ajudantes deverão estar protegidos contra o frio e os escombros. Ao princípio, facilita-se a tarefa escondendo-se de uma forma superficial, para aumentar progressivamente a dificuldade.
Os animais devem ser escolhidos entre os adequados para suportar humidade a baixas temperaturas e, no caso de cão de catástrofe, recomenda-se que sejam de raças pequenas ou médias e supostamente, muito ágeis.
O cão de narcóticos e explosivos
Nalguns países das tarefas policiais as que são seleccionadas mais unidades caninas, devido ao tráfico de estupefacientes e à actividade terrorista, são as utilizadas na localização de substâncias e drogas proibidas assim como na detecção de artefactos explosivos utilizados por terroristas e mafiosos para o assassinato e a extorsão.
Geralmente inicia-se o adestramento com as mesmas premissas para a busca de pessoas desaparecidas mas introduzindo no objecto ou brinquedo, que se utilizará como estímulo do instinto de caça, uma pequena porção da substância que nos interesse que o cão localize.
Obviamente, a crença de que se droga os cães de narcóticos é uma falácia que só pode proceder da mais absoluta ignorância e que cai por terra com o seu próprio peso.
Com a estimulação do instinto de caça e o desejo de apanhar o brinquedo para jogar com o seu guia, cria-se no cão o suficiente desequilíbrio homeostático com o objectivo de produzir neste a necessária ansiedade de encontrar o brinquedo, dando assim satisfação ao seu instinto.
Devido à qualidade discriminativa do cão, pode-se trabalhar com distintas substâncias estupefacientes ou utilizadas para o fabrico de explosivos no mesmo módulo. Quer dizer, podem-se colocar distintas drogas no mordedor ou brinque-do porque, apesar de se apresentarem independentemente ou misturadas com outras substâncias neutras, aversivas ou de interesse alternativo, o cão as identificará com toda a segurança.
É importante evitar o contacto do cão com as substâncias devido à toxicidade de algumas delas para o qual se examinará o mordedor comprovando a inexistência de exsudação ou dispersão das mesmas.
A obediência que se deve exercitar com estes cães consistirá numa educação básica dando especial ênfase a uma posição de bloqueio. No cão de explosivos, insistir-se-á no sinal de detecção que deverá ser confusa devido à possibilidade da presença de terroristas no teatro de operações que poderão activar o mecanismo explosivo com a intenção de causar danos na unidade canina encarregue de comprovar a descoberta do engenho.
Rastreio de Cancros
Nos Estados Unidos, principalmente, estão já em plena aplicação programas de rastreios de algumas neoplasias dos pulmões, da próstata e melanomas, utilizando a acuidade olfactiva dos cães. Este tipo de rastreio tem várias vantagens em relação aos exames tradicionais: não são invasivos nem dolorosos uma vez que não é necessária a colheita de tecidos para análise, não expõe os pacientes a contínuos choques anestésicos, são incomparavelmente mais económicos e igualmente muito fiáveis.
Neste tipo de trabalho de adestramento o que vamos valorizar é a capacidade discriminativa do olfacto do cão. Sendo assim, vamos trabalhar com vários tipos de líquidos impregnados com vários odores. Normalmente esses líquidos odoríferos são apresentados ao cão em tubos de ensaio, sendo colocado num deles o produto que queremos que o animal marque e que o identifique como tendo um cheiro igual àquele que a neoplasia que estamos a analisar produz. Nessa altura, o cão é efusivamente recompensado com o seu brinquedo preferido.
Apesar de ser um trabalho muito simples de ensinar ao cão, é de uma importância vital para a evolução do diagnóstico do Cancro e já está em fase experimental a utilização deste método noutro tipo de neoplasias.
No próximo mês vamos falar da aplicação do olfacto canino no rastreio desportivo.
17/08/11
O MUNDO ATRAVÉS DO OLFACTO
Iniciamos este mês mais uma trilogia de artigos, neste caso, como os canídeos vêm o seu mundo através dos odores.
Uma correcta introdução ao adestramento da capacidade olfactiva do cão, para o desenvolvimento de trabalhos concretos, deve basear-se num perfeito conhecimento da fisiologia do olfacto canino. Como poderemos observar este sentido é a principal fonte de informação do cão. Dito de outra forma, os canídeos têm uma “visão olfactiva” do meio que os rodeia.
Se estabelecermos a comparação entre a capacidade olfactiva do cão e a do ser humano, sabe-se que a do primeiro pode ser entre dez mil e cem milhões de vezes superior dependendo da substância analisada. Assim como nós humanos dedicamos uma terça parte do nosso cérebro às funções da vista, o dos cães especializou-se no olfacto e tem aproximadamente vinte vezes mais neurónios olfactivos que o nosso. Os nossos instrumentos mais sensíveis são capazes de detectar uma bilionésima de grama de uma substância química mas, um sabujo, pode perceber à distância o que os referidos instrumentos não detectariam junto à mesma fonte de odor. Alguns factores orgânicos, como uma superfície olfactiva seis vezes superior à humana e a maior proporção de ar conduzido através da mucosa olfactiva, parecem ser decisivos nesta comparação.
Mas, não só deve ser considerada a magnifica sensibilidade olfactiva do cão como também devemos ter em conta, e assim o fará o adestrador com mais frequência do que por vezes se crê, uma das particularidades deste sentido canino que é a grande capacidade de descriminação. De facto, se tentarmos dissimular uma substância reforçante com outras similares ou distintas, a primeira será sempre detectada pelo cão distinguindo-a isoladamente das restantes.
Compreender o cão e a sua percepção do meio onde está inserido, deve passar sem dúvida por se considerar o olfacto como a referência sensitiva mais importante nos canídeos. Para a sobrevivência dentro de uma hierarquia e num território, nas condutas venatórias da alimentação, nas de cortejo e selecção sexual, criação e reprodução assim como na evitação da depredação, o sentido do olfacto evoluiu distinguindo-se como o mais importante receptor de informação disponível.
No adestramento, canalizam-se as qualidades olfactivas do cão para diversos fins e supõe uma ajuda extraordinária no caso de trabalhos civis de qualquer natureza. Neste momento ainda não foi possível fabricar algo que substitua o cão na detecção olfactiva, assim, a localização de humanos desaparecidos sepultados por neve ou escombros, de malfeitores ocultos, de detecção de drogas ou explosivos, de rastreio de vários tipos de neoplasias, etc., constituem algumas das utilidades em que o cão, assistido pelo seu olfacto, se converte em protagonista certo e indiscutível.
Os cães utilizados na caça são seleccionados, entre outras qualidades, devido à capacidade de utilizar o seu olfacto em benefício da tarefa cinegética.
Nos regulamentos desportivos para cães de raças denominadas de utilidade, guarda e defesa, os trabalhos consistem em identificar um objecto do guia, ou com odores humanos, entre outros similares, seguir um rasto previamente traçado por uma pessoa no campo, ou localizar um figurante emboscado. Estas são as tarefas mais significativas que se desenvolvem neste âmbito do adestramento.
Iniciação ao rastreio
Recordando conceitos analisados em artigos anteriores vemos que, quando o canídeo necessita de se alimentar, quer dizer, quando o instinto o obriga a deixar fluir os actos necessários para conseguir alimento, entram em jogo uma série de condutas orientadas ao êxito final do seu empreendimento: comer para sobreviver.
Para satisfazer o instinto de se alimentar, o cão deve realizar uma série de condutas complexas:
Primeiro passo será fomentar esse instinto de caça com jogos de perseguição, disputa e transporte. Podemos utilizar diversos objectos que o cão possa morder atados com uma corda que permitam que o cão os dispute através da perseguição e aprisionamento. Se, além disso, reforçarmos o instinto de caça com um pouco de fome, observamos na generalidade, um aumento da motivação em toda a sequência.
Posteriormente, e quando tivermos o cão bastante motivado para conseguir obter os objectos estimulantes que satisfaçam o seu instinto de caça, podemos começar a dirigir o adestramento no sentido desejado. Analisamos seriamente o objectivo e nos ajustaremos à sua consecução com paciência, racionalidade e sempre sustentando a aprendizagem nos estímulos positivos.
Se nos depararmos com um cão desinteressado teremos que analisar qual a origem da falta de vontade e se esta tem a ver com um baixo nível instintivo do animal, devemos descartá-lo para tarefas civis e, no caso do trabalho desportivo, optar entre conseguir um objectivo com muitas limitações e evitar os desportos que incluam as buscas e os rastreios.
No próximo mês vamos falar da aplicação do olfacto canino nos trabalhos de índole civil.
Uma correcta introdução ao adestramento da capacidade olfactiva do cão, para o desenvolvimento de trabalhos concretos, deve basear-se num perfeito conhecimento da fisiologia do olfacto canino. Como poderemos observar este sentido é a principal fonte de informação do cão. Dito de outra forma, os canídeos têm uma “visão olfactiva” do meio que os rodeia.
Se estabelecermos a comparação entre a capacidade olfactiva do cão e a do ser humano, sabe-se que a do primeiro pode ser entre dez mil e cem milhões de vezes superior dependendo da substância analisada. Assim como nós humanos dedicamos uma terça parte do nosso cérebro às funções da vista, o dos cães especializou-se no olfacto e tem aproximadamente vinte vezes mais neurónios olfactivos que o nosso. Os nossos instrumentos mais sensíveis são capazes de detectar uma bilionésima de grama de uma substância química mas, um sabujo, pode perceber à distância o que os referidos instrumentos não detectariam junto à mesma fonte de odor. Alguns factores orgânicos, como uma superfície olfactiva seis vezes superior à humana e a maior proporção de ar conduzido através da mucosa olfactiva, parecem ser decisivos nesta comparação.
Mas, não só deve ser considerada a magnifica sensibilidade olfactiva do cão como também devemos ter em conta, e assim o fará o adestrador com mais frequência do que por vezes se crê, uma das particularidades deste sentido canino que é a grande capacidade de descriminação. De facto, se tentarmos dissimular uma substância reforçante com outras similares ou distintas, a primeira será sempre detectada pelo cão distinguindo-a isoladamente das restantes.
Compreender o cão e a sua percepção do meio onde está inserido, deve passar sem dúvida por se considerar o olfacto como a referência sensitiva mais importante nos canídeos. Para a sobrevivência dentro de uma hierarquia e num território, nas condutas venatórias da alimentação, nas de cortejo e selecção sexual, criação e reprodução assim como na evitação da depredação, o sentido do olfacto evoluiu distinguindo-se como o mais importante receptor de informação disponível.
No adestramento, canalizam-se as qualidades olfactivas do cão para diversos fins e supõe uma ajuda extraordinária no caso de trabalhos civis de qualquer natureza. Neste momento ainda não foi possível fabricar algo que substitua o cão na detecção olfactiva, assim, a localização de humanos desaparecidos sepultados por neve ou escombros, de malfeitores ocultos, de detecção de drogas ou explosivos, de rastreio de vários tipos de neoplasias, etc., constituem algumas das utilidades em que o cão, assistido pelo seu olfacto, se converte em protagonista certo e indiscutível.
Os cães utilizados na caça são seleccionados, entre outras qualidades, devido à capacidade de utilizar o seu olfacto em benefício da tarefa cinegética.
Nos regulamentos desportivos para cães de raças denominadas de utilidade, guarda e defesa, os trabalhos consistem em identificar um objecto do guia, ou com odores humanos, entre outros similares, seguir um rasto previamente traçado por uma pessoa no campo, ou localizar um figurante emboscado. Estas são as tarefas mais significativas que se desenvolvem neste âmbito do adestramento.
Iniciação ao rastreio
Recordando conceitos analisados em artigos anteriores vemos que, quando o canídeo necessita de se alimentar, quer dizer, quando o instinto o obriga a deixar fluir os actos necessários para conseguir alimento, entram em jogo uma série de condutas orientadas ao êxito final do seu empreendimento: comer para sobreviver.
Para satisfazer o instinto de se alimentar, o cão deve realizar uma série de condutas complexas:
Primeiro passo será fomentar esse instinto de caça com jogos de perseguição, disputa e transporte. Podemos utilizar diversos objectos que o cão possa morder atados com uma corda que permitam que o cão os dispute através da perseguição e aprisionamento. Se, além disso, reforçarmos o instinto de caça com um pouco de fome, observamos na generalidade, um aumento da motivação em toda a sequência.
Posteriormente, e quando tivermos o cão bastante motivado para conseguir obter os objectos estimulantes que satisfaçam o seu instinto de caça, podemos começar a dirigir o adestramento no sentido desejado. Analisamos seriamente o objectivo e nos ajustaremos à sua consecução com paciência, racionalidade e sempre sustentando a aprendizagem nos estímulos positivos.
Se nos depararmos com um cão desinteressado teremos que analisar qual a origem da falta de vontade e se esta tem a ver com um baixo nível instintivo do animal, devemos descartá-lo para tarefas civis e, no caso do trabalho desportivo, optar entre conseguir um objectivo com muitas limitações e evitar os desportos que incluam as buscas e os rastreios.
No próximo mês vamos falar da aplicação do olfacto canino nos trabalhos de índole civil.
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