Publicamos este mês o segundo artigo de uma trilogia sobre cães de utilidade e trabalho. No número anterior debruçámo-nos sobre os aspectos da selecção de linhas de sangue de cães de trabalho e a sua importância na consecução dos objectivos, este mês iremos abordar mais em pormenor as raças que estão mais vocacionadas para executarem aquilo a que normalmente chamamos “trabalho”.
Ainda que o ponto principal a considerar seja prioritariamente o indivíduo, uma vez estudado o conceito de linha de sangue, pudemos fazer uma incursão nas características que supostamente terão as diversas raças. A sua morfologia condiciona a componente trabalho e o adestrador deve observá-la desde a perspectiva da funcionalidade. Por exemplo: um Pastor Alemão será tanto mais bonito quando a sua morfologia se ajuste à função para que foi criado e não porque alguém considerou que uma garupa anti-natural, por exemplo, é a ideal em termos estéticos (iremos falar neste ponto no próximo artigo).
Em todas as raças podem-se encontrar indivíduos aptos para um determinado trabalho. Assim, para tarefas de rastreio, detecção de narcóticos ou explosivos serão mais úteis os cães de caça do que outros. Neste artigo vamos analisar aquelas raças que se supõem globalmente mais capazes para a realização de múltiplas tarefas, quer dizer as raças “todo o terreno” que são utilizadas regularmente na Europa e na América tanto em utilidade como em desporto. Os aspectos morfológicos do standard não serão abordados uma vez que existe numerosa bibliografia a esse respeito e só serão tomadas em conta as qualidades encontradas em indivíduos seleccionados em linhas de sangue e trabalho.
O Cão de Pastor Alemão
O rei, sem dúvida, é o Pastor Alemão considerado em todo o mundo como o cão de trabalho por excelência. O seu marcado espírito gregário, instinto de guarda, capacidade de resolução, agilidade, resistência física e versatilidade converteram-no o cão de Von Stephanitz no modelo de cão de utilidade. Actualmente é seleccionado adequadamente nos Estados Unidos e em numerosas linhas de sangue europeias de trabalho. O Pastor Alemão Checo faz referência aos criados na Checoslováquia em tempos ligada politicamente à ex URSS. Ao serem seleccionados para trabalhos militares e policiais, o nível e qualidade dos ditos indivíduos, era semelhante aos criados nas melhores linhas de sangue alemãs com a vantagem de ser mais económica a sua aquisição para os restantes países europeus. Hoje em dia é normal fazer-se referência ao Pastor Alemão Checo quando se fala de Pastores Alemães de trabalho.
O Boxer
O Boxer é a segunda raça de trabalho na Alemanha e um vivo exemplo do que ocorre quando, geográfica ou culturalmente uma raça é orientada para o trabalho ou para companhia. Em Inglaterra ou nos Estados Unidos o Boxer é um cão de companhia em que só é tido em conta o seu aspecto dissuasório carecendo de capacidade de resolução e sendo relegado para uma condição meramente estética. Pelo contrário, na Europa Central e América do Sul está muito bem valorizado pela sua atitude e aptidões para o trabalho. Orientado pelo Deutscher Boxer Klub demonstra no desporto e, especialmente em tarefas de segurança civil, as suas numerosas capacidades. Especialmente indicado para conviver no seio de uma família, é um cão rápido, inflexível na defesa e protecção do grupo, com um forte instinto de presa, facilmente moldável e que necessita de escassos cuidados de manutenção.
O Cão de Pastor Belga Malinois
Uma variedade de Pastor Belga, o Malinois, representa actualmente uma sólida raça com uma excelente presente e um futuro imparável no âmbito desportivo. Na sua aparência não incide especialmente o efeito dissuasório e, portanto, o seu uso em tarefas civis se reduz todavia ao núcleo geográfico dos países francófonos onde sim é apreciado em toda a sua magnitude. Como a maioria dos pastores, é um cão territorial e gregário, com marcado instinto de caça e protecção. Geralmente são sensíveis ainda que de rápida recuperação e bastante rápidos. Estas qualidades beneficiam-no enormemente para o trabalho desportivo mas, nas tarefas civis, é limitado o seu uso aos exemplares mais corpulentos.
O Dobermann
O Dobermann, protagonista de lendas negras e objecto de numerosas incompreensões no passado, é actualmente uma raça em expansão. O facto de nas últimas duas décadas se terem feito assinaláveis progressos nas áreas do controlo do carácter e de algumas patologias que afectam a raça, principalmente a displasia coxo-femural, sempre sob vigilância apertada do clube Alemão da raça, o Dobermann Verein, proporcionou a que os princípios básicos de uma criação voltada para a funcionalidade tenham sido adquiridos pelos criadores de referência. Este trabalho já vem sendo feito há bastante mais tempo nos Estados Unidos que se empenharam verdadeiramente na selecção do carácter e é fácil encontrar linhas de sangue de trabalho bastante evoluídas e consolidadas. As suas características mais comuns são o seu enorme apego à família e especialmente ao seu dono, o seu aspecto dissuasório, rapidez, actividade interior e exterior, desconfiança para com estranhos e excelente capacidade de aprendizagem. Por tudo isso está muito bem qualificado para o desenvolvimento de múltiplas tarefas.
O Rottweiler
Não obstante o que há muito por fazer, desde o ponto de vista oficial, para o controlo do carácter, displasia e demais pontos em que se devem basear os parâmetros básicos da criação correcta e concentrada na funcionalidade da raça, ressalta nesta a capacidade de dissuasão na defesa e a força do seu instinto básico de protecção. Em desporto têm escasso êxito devido à corpulência que o criador selecciona nesta raça e a baixa capacidade de resolução derivada de uma reduzida actividade psíquica que demonstra este cão. Podem ser dominantes na hierarquia do grupo familiar e ainda com o seu dono. Esta agressividade por competência é mais relevante nos machos que ainda não tenham alcançado os quatro anos de vida já que, a partir dessa idade, o nível e testosterona começa um lento ciclo descendente tendo como consequência a diminuição do seu grau de dominância.
Ainda que outras raças como o Airedale Terrier, Schnauzer, Bouvier de Flandres, Podengos, Cães de Água, Boieiros e um comprido etc., se destaquem numa determinada área como especialmente versáteis, a cultura do cão de trabalho integral centralizou-se especialmente nas raças mencionadas nos parágrafos anteriores.
É necessário insistir na ordem crescente de importância dos factores a analisar
quando seleccionamos ou trabalhamos com cães:
1º - O indivíduo.
2º - Linha de sangue.
3º - A raça.
No próximo número iremos falar da influência da beleza nas raças de trabalho e de utilidade.
13/06/11
18/05/11
SELECÇÃO DE CÃES DE TRABALHO
Iniciamos este mês uma trilogia sobre cães de trabalho e utilidade.
Devido ao facto de esta espécie ter potencialidades em grande medida ainda por explorar – pensa-se que cerca de 80% das capacidades dos cães ainda estão por aproveitar – esta é uma área que tem ocupado bastante os investigadores que, aliados aos criadores e adestradores, uma vez que é de uma área multi-factorial que estamos a falar, têm obtido assinaláveis progressos nos últimos vinte anos.
O objectivo
No processo selectivo do cão, em que se deve orientar o Adestrador profissional ou o desportista, a questão principal é o conhecimento pleno do objectivo e a sua consecução com a máxima eficácia.
Nem sempre se poderá seleccionar o indivíduo objecto do adestramento já que, no caso do profissional, a maioria das vezes tenderá a adaptar o objectivo ao cão do cliente e o habitual nestes casos é a presença de limitações em exemplares que não foram escolhidos em função de uma utilidade determinada.
No exemplo seguinte queremos realçar a qualidade principal que caracteriza cada raça tendo sempre presente que a selecção estará sempre marcada pelo factor indivíduo e não pelo etnológico. À relação, que expomos de seguida, de objectivos segue-se outra de cães para que o leitor possa estabelecer uma inter-relação lógica que clarifique o que é exposto.
OBJECTIVOS
1.- Patrulha policial em parques públicos.
2.- Patrulha policial em zonas de grupos em conflito.
3.- Detecção de drogas e explosivos.
4.- Segurança privada na recolha e entrega de valores.
5.- Segurança privada em unidades industriais.
6.- Protecção de pessoa idosa.
7.- Efeito dissuasor em bancos e lojas de valores (joalharias relojoarias,
etc.).
8.- R.C.I.
9.- Condutor de invisuais.
10.- Assistência a pessoas com deficiência.
CÃES
A.- Pastor Alemão de trabalho. Indivíduo resoluto e gregário.
B.- Boxer. Psiquicamente estável e muito sociável com as crianças.
C.- Pastor Belga Malinois. Rápido e sensitivo.
D.- Dobermann. Baixa dominância em relação ao seu dono.
E.- Rottweiler. Muito territorial.
F.- Springer Spaniel. Activo e sociável.
G.- Retriever do Labrador. Boa índole, dócil e resoluto.
Ao ligar indivíduos com objectivos podemos cair na tentação de adaptar um mesmo exemplar a todos eles. Esta situação ocorre principalmente com o Pastor Alemão devido à sua fama de “4x4”, apesar de esta qualidade lhe ser reconhecida, não devemos esquecer que, por exemplo, o efeito dissuasório do Rottweiler é superior ao dos restantes e o contacto com crianças, no objectivo 1, faz com que o Boxer seja o animal indicado. No objectivo 6 o Dobermann pode ser o indicado já que necessita de pouca manutenção, assim como os objectivos 9 e 10 podem ser alcançados com um indivíduo de escassa agressividade, dócil e resoluto como é o caso do Retriever do Labrador.
Os exemplos anteriores levam-nos ao estabelecimento de três premissas:
1ª.- É imprescindível conhecer perfeitamente o objectivo.
2º.- Devemos analisar cuidadosamente o indivíduo quer física quer psiquicamente.
3º.- Vários indivíduos podem ser adaptados a um objectivo mas, o êxito na sua consecução, dependerá da selecção do cão ideal.
Outra forma de traçar a relação cão/objectivo pode ser expressada através da pergunta: O que é mais importante, o indivíduo ou o próprio objectivo? Dito de outra forma: Pretende-se que determinado cão alcance um objectivo específico? Ou: A consecução deste não é prioritária? Se se escolhe a primeira opção, as limitações do objectivo estarão ligadas às do cão. Na segunda, uma vez encontrado o animal ideal o propósito será alcançado plenamente se o método e os instrumentos forem os correctos.
Criação e selecção de cachorros
Um dos recursos do adestrador para conseguir obter exemplares de trabalho consiste em recorrer à sua própria criação. Tentará conseguir certas linhas genéticas dentro de uma determinada raça, que apresentem uma importante homogeneidade nos caracteres herdados que definem a atitude dos indivíduos que daí resultem.
O factor principal na criação, selecção do cachorro e do adulto, é a saúde. É o suporte que mediatiza o desenvolvimento dos seus instintos, capacidades psíquicas, aprendizagem e utilização.
Os reprodutores devem ser cães sãos e livres de problemas congénitos no seu genótipo. Os derivados do sistemas locomotor e ósseo podem ser os mais frequentes em raças de médio e grande porte. A epilepsia e outras patologias endógenas são, em grande parte hereditárias e devem ser afastados da criação aqueles exemplares que procedam de algumas linhas com este tipo de incidência. As fêmeas devem ser boas parturientes e zelosas na disponibilização dos cuidados parentais. Uma cadela equilibrada e segura transmitirá importantes qualidades aos cachorros que cuida mesmo que seja somente ama-de-leite. Os criadores de cães de trabalho sabem o importante que é o papel da fêmea no desenvolvimento dos padrões ontogénicos condutais do cachorro, para que ninhadas medíocres podem ser substancialmente melhoradas mudando-lhes a mãe, precisamente depois do parto, por uma adoptiva de qualidade superior.
Além disso, o criador tem a responsabilidade de manipular adequadamente os cachorros por duas razões principais. A primeira é que, com o devido conhecimento, melhorará neles certos factores de personalidade e a segunda é que irá progressivamente conhecendo, com detalhe, os traços mais importantes dos seus caracteres facilitando enormemente a sua posterior selecção.
No caso de se optar pela aquisição de um cachorro, deve-se assegurar que o criador observa as prevenções mencionadas confiando-se na sua profissionalidade, conhecimentos e rigor. Se não conhecer adequadamente as suas linhas de criação, deve estudar a genealogia dos cachorros recompilando toda a informação possível. Observar e estar permanentemente em contacto com a ninhada facilitará a eleição adequada mas não devemos esquecer que é o criador que deve orientar o comprador sobre o desenvolvimento das qualidades que conformam o carácter das suas linhas de criação.
É recomendável optar por pequenos criadores que por sua vez, sejam profissionais de adestramento ou praticantes de desporto canino já que, por um lado, estes têm mais possibilidades de prestar os cuidados e manipulações aos cachorros, que um criador que conta com várias ninhadas em simultâneo e, por outro o facto de trabalhar com este tipo de cães possibilita-o conhecer e valorizar as virtudes que deve ter um cachorro segundo o objectivo a que se destina.
Para a selecção do cachorro podem-se utilizar testes mais ou menos fiáveis, como é o caso do de Campbell ainda que, o criador profissional, conhecedor dos seus cães, deve dar a sua valiosa informação sobre cada animal.
Tendo em conta as análises ao cão realizadas em artigos anteriores, sugerimos alguns testes que nos podem auxiliar a conhecer melhor o cachorro que vamos escolher.
Sensibilidade à voz.
Chamada com o cão distraído.
Dureza física.
Apertando com os dedos polegar e médio o espaço interdigital da mão do cão com o objectivo de analisarmos o seu nível de resistência à dor.
Recuperação do stress.
Introdução de um cachorro numa caixa, voltamo-la e observamos a sua reacção ao tirá-lo
Territorialidade.
Observamos a reacção do animal perante a intrusão de um estranho.
Instinto de caça.
Seguimento de objectos em movimento.
Defesa.
Observamos o cachorro em luta com os irmãos.
Além disso e como já abordámos em artigos anteriores, devemos estudar detalhadamente o seu temperamento, sensibilidade física, capacidade de recuperação, capacidade resolução de problemas e conflitos, intrepidez, tenacidade, liderança e capacidade sensorial.
É imprescindível que no cachorro se preveja um animal são, bem estruturado para o trabalho, cheio de instintos, resoluto, relativamente duro e com boa capacidade de recuperação e aprendizagem.
Selecção de cães adultos
Entre as possibilidades com que conta o adestrador para atingir um objectivo, está a de obter um cão jovem ou adulto, com trabalho ou sem ele. Uma vez comprovado o seu estado de saúde, através de check-up veterinário, e sendo interessante a sua genealogia, analisar-se-á o exemplar da mesma forma que expusemos anteriormente, tendo sempre em conta que a evolução imediata do trabalho estará sempre condicionada pelas suas experiências anteriores.
Certos comportamentos serão estudados com mais realismo e determinação do que em cachorro já que a maturação actua sobre os padrões ontogénicos do comportamento. Mesmo assim, as anomalias que se detectam devem ser analisadas no contexto das experiências passadas.
Devemos igualmente interrogar-nos do “por quê?” da venda e ter em conta que pequenas limitações podem tornar inútil um exemplar para a consecução de determinados objectivos mas, apesar disso, ser útil para outros.
Outro factor aliado à idade é o preço. Um cão adulto já não é uma promessa mas uma realidade e esse facto tem que o seu custo. Se além disso já está adestrado ou iniciado numa determinada tarefa, encarece ainda mais o preço. A opção por este tipo de aquisição deve ser ponderada, tendo em conta todos os factores possíveis mas, principalmente e considerando o objectivo: Adaptação do cão a esse mesmo objectivo.
Análise do cão estranho
Sempre que o adestrador tem como missão formar um cão desconhecido, deve analisar as suas aptidões para decidir as possibilidades que oferece.
Para enquadrar o animal num correcto contexto de factores ambientais, depois se serem descartados possíveis problemas ou anomalias psicofísicas, deve-se estabelecer um protocolo pessoal em que sejam especificadas perguntadas que devem ser feitas ao proprietário, tais como: onde vive o cão (casa ou canil), relação com a família, tempo que lhe é dedicado, enfermidades, comportamentos anómalos, relação com outros cães, com desconhecidos, amigos e qualquer outra questão que o adestrador considere oportuna para a realização do seu trabalho.
No artigo do próximo mês iremos falar em pormenor das raças de utilidade e trabalho.
Devido ao facto de esta espécie ter potencialidades em grande medida ainda por explorar – pensa-se que cerca de 80% das capacidades dos cães ainda estão por aproveitar – esta é uma área que tem ocupado bastante os investigadores que, aliados aos criadores e adestradores, uma vez que é de uma área multi-factorial que estamos a falar, têm obtido assinaláveis progressos nos últimos vinte anos.
O objectivo
No processo selectivo do cão, em que se deve orientar o Adestrador profissional ou o desportista, a questão principal é o conhecimento pleno do objectivo e a sua consecução com a máxima eficácia.
Nem sempre se poderá seleccionar o indivíduo objecto do adestramento já que, no caso do profissional, a maioria das vezes tenderá a adaptar o objectivo ao cão do cliente e o habitual nestes casos é a presença de limitações em exemplares que não foram escolhidos em função de uma utilidade determinada.
No exemplo seguinte queremos realçar a qualidade principal que caracteriza cada raça tendo sempre presente que a selecção estará sempre marcada pelo factor indivíduo e não pelo etnológico. À relação, que expomos de seguida, de objectivos segue-se outra de cães para que o leitor possa estabelecer uma inter-relação lógica que clarifique o que é exposto.
OBJECTIVOS
1.- Patrulha policial em parques públicos.
2.- Patrulha policial em zonas de grupos em conflito.
3.- Detecção de drogas e explosivos.
4.- Segurança privada na recolha e entrega de valores.
5.- Segurança privada em unidades industriais.
6.- Protecção de pessoa idosa.
7.- Efeito dissuasor em bancos e lojas de valores (joalharias relojoarias,
etc.).
8.- R.C.I.
9.- Condutor de invisuais.
10.- Assistência a pessoas com deficiência.
CÃES
A.- Pastor Alemão de trabalho. Indivíduo resoluto e gregário.
B.- Boxer. Psiquicamente estável e muito sociável com as crianças.
C.- Pastor Belga Malinois. Rápido e sensitivo.
D.- Dobermann. Baixa dominância em relação ao seu dono.
E.- Rottweiler. Muito territorial.
F.- Springer Spaniel. Activo e sociável.
G.- Retriever do Labrador. Boa índole, dócil e resoluto.
Ao ligar indivíduos com objectivos podemos cair na tentação de adaptar um mesmo exemplar a todos eles. Esta situação ocorre principalmente com o Pastor Alemão devido à sua fama de “4x4”, apesar de esta qualidade lhe ser reconhecida, não devemos esquecer que, por exemplo, o efeito dissuasório do Rottweiler é superior ao dos restantes e o contacto com crianças, no objectivo 1, faz com que o Boxer seja o animal indicado. No objectivo 6 o Dobermann pode ser o indicado já que necessita de pouca manutenção, assim como os objectivos 9 e 10 podem ser alcançados com um indivíduo de escassa agressividade, dócil e resoluto como é o caso do Retriever do Labrador.
Os exemplos anteriores levam-nos ao estabelecimento de três premissas:
1ª.- É imprescindível conhecer perfeitamente o objectivo.
2º.- Devemos analisar cuidadosamente o indivíduo quer física quer psiquicamente.
3º.- Vários indivíduos podem ser adaptados a um objectivo mas, o êxito na sua consecução, dependerá da selecção do cão ideal.
Outra forma de traçar a relação cão/objectivo pode ser expressada através da pergunta: O que é mais importante, o indivíduo ou o próprio objectivo? Dito de outra forma: Pretende-se que determinado cão alcance um objectivo específico? Ou: A consecução deste não é prioritária? Se se escolhe a primeira opção, as limitações do objectivo estarão ligadas às do cão. Na segunda, uma vez encontrado o animal ideal o propósito será alcançado plenamente se o método e os instrumentos forem os correctos.
Criação e selecção de cachorros
Um dos recursos do adestrador para conseguir obter exemplares de trabalho consiste em recorrer à sua própria criação. Tentará conseguir certas linhas genéticas dentro de uma determinada raça, que apresentem uma importante homogeneidade nos caracteres herdados que definem a atitude dos indivíduos que daí resultem.
O factor principal na criação, selecção do cachorro e do adulto, é a saúde. É o suporte que mediatiza o desenvolvimento dos seus instintos, capacidades psíquicas, aprendizagem e utilização.
Os reprodutores devem ser cães sãos e livres de problemas congénitos no seu genótipo. Os derivados do sistemas locomotor e ósseo podem ser os mais frequentes em raças de médio e grande porte. A epilepsia e outras patologias endógenas são, em grande parte hereditárias e devem ser afastados da criação aqueles exemplares que procedam de algumas linhas com este tipo de incidência. As fêmeas devem ser boas parturientes e zelosas na disponibilização dos cuidados parentais. Uma cadela equilibrada e segura transmitirá importantes qualidades aos cachorros que cuida mesmo que seja somente ama-de-leite. Os criadores de cães de trabalho sabem o importante que é o papel da fêmea no desenvolvimento dos padrões ontogénicos condutais do cachorro, para que ninhadas medíocres podem ser substancialmente melhoradas mudando-lhes a mãe, precisamente depois do parto, por uma adoptiva de qualidade superior.
Além disso, o criador tem a responsabilidade de manipular adequadamente os cachorros por duas razões principais. A primeira é que, com o devido conhecimento, melhorará neles certos factores de personalidade e a segunda é que irá progressivamente conhecendo, com detalhe, os traços mais importantes dos seus caracteres facilitando enormemente a sua posterior selecção.
No caso de se optar pela aquisição de um cachorro, deve-se assegurar que o criador observa as prevenções mencionadas confiando-se na sua profissionalidade, conhecimentos e rigor. Se não conhecer adequadamente as suas linhas de criação, deve estudar a genealogia dos cachorros recompilando toda a informação possível. Observar e estar permanentemente em contacto com a ninhada facilitará a eleição adequada mas não devemos esquecer que é o criador que deve orientar o comprador sobre o desenvolvimento das qualidades que conformam o carácter das suas linhas de criação.
É recomendável optar por pequenos criadores que por sua vez, sejam profissionais de adestramento ou praticantes de desporto canino já que, por um lado, estes têm mais possibilidades de prestar os cuidados e manipulações aos cachorros, que um criador que conta com várias ninhadas em simultâneo e, por outro o facto de trabalhar com este tipo de cães possibilita-o conhecer e valorizar as virtudes que deve ter um cachorro segundo o objectivo a que se destina.
Para a selecção do cachorro podem-se utilizar testes mais ou menos fiáveis, como é o caso do de Campbell ainda que, o criador profissional, conhecedor dos seus cães, deve dar a sua valiosa informação sobre cada animal.
Tendo em conta as análises ao cão realizadas em artigos anteriores, sugerimos alguns testes que nos podem auxiliar a conhecer melhor o cachorro que vamos escolher.
Sensibilidade à voz.
Chamada com o cão distraído.
Dureza física.
Apertando com os dedos polegar e médio o espaço interdigital da mão do cão com o objectivo de analisarmos o seu nível de resistência à dor.
Recuperação do stress.
Introdução de um cachorro numa caixa, voltamo-la e observamos a sua reacção ao tirá-lo
Territorialidade.
Observamos a reacção do animal perante a intrusão de um estranho.
Instinto de caça.
Seguimento de objectos em movimento.
Defesa.
Observamos o cachorro em luta com os irmãos.
Além disso e como já abordámos em artigos anteriores, devemos estudar detalhadamente o seu temperamento, sensibilidade física, capacidade de recuperação, capacidade resolução de problemas e conflitos, intrepidez, tenacidade, liderança e capacidade sensorial.
É imprescindível que no cachorro se preveja um animal são, bem estruturado para o trabalho, cheio de instintos, resoluto, relativamente duro e com boa capacidade de recuperação e aprendizagem.
Selecção de cães adultos
Entre as possibilidades com que conta o adestrador para atingir um objectivo, está a de obter um cão jovem ou adulto, com trabalho ou sem ele. Uma vez comprovado o seu estado de saúde, através de check-up veterinário, e sendo interessante a sua genealogia, analisar-se-á o exemplar da mesma forma que expusemos anteriormente, tendo sempre em conta que a evolução imediata do trabalho estará sempre condicionada pelas suas experiências anteriores.
Certos comportamentos serão estudados com mais realismo e determinação do que em cachorro já que a maturação actua sobre os padrões ontogénicos do comportamento. Mesmo assim, as anomalias que se detectam devem ser analisadas no contexto das experiências passadas.
Devemos igualmente interrogar-nos do “por quê?” da venda e ter em conta que pequenas limitações podem tornar inútil um exemplar para a consecução de determinados objectivos mas, apesar disso, ser útil para outros.
Outro factor aliado à idade é o preço. Um cão adulto já não é uma promessa mas uma realidade e esse facto tem que o seu custo. Se além disso já está adestrado ou iniciado numa determinada tarefa, encarece ainda mais o preço. A opção por este tipo de aquisição deve ser ponderada, tendo em conta todos os factores possíveis mas, principalmente e considerando o objectivo: Adaptação do cão a esse mesmo objectivo.
Análise do cão estranho
Sempre que o adestrador tem como missão formar um cão desconhecido, deve analisar as suas aptidões para decidir as possibilidades que oferece.
Para enquadrar o animal num correcto contexto de factores ambientais, depois se serem descartados possíveis problemas ou anomalias psicofísicas, deve-se estabelecer um protocolo pessoal em que sejam especificadas perguntadas que devem ser feitas ao proprietário, tais como: onde vive o cão (casa ou canil), relação com a família, tempo que lhe é dedicado, enfermidades, comportamentos anómalos, relação com outros cães, com desconhecidos, amigos e qualquer outra questão que o adestrador considere oportuna para a realização do seu trabalho.
No artigo do próximo mês iremos falar em pormenor das raças de utilidade e trabalho.
22/04/11
A PROFISSÃO "ADESTRADOR"
Um adestrador intitula-se “profissional” quando, no exercício das suas funções (alteração do comportamento dos cães através de processos ritualizados), aufere rendimentos e/ou honorários por essa actividade.
Tendo em conta que agrada ao adestrador o contacto com o cão e sendo este o objecto essencial do adestramento, deve ter a capacidade de lhe transmitir as suas sensações, suportá-lo no dia-a-dia, cuidar da sua higiene, nalguns casos também o transporte e, inclusivamente, controlar-lhe os comportamentos não desejados.
O ambiente das sessões de treino poderá ser, em muitos casos, adverso por ter de se trabalhar amiúdas vezes sob rigorosos dias de intempérie. O frio, a chuva, o calor e a sede são os “companheiros” sempre presentes nas sessões de trabalho. Pode dar-se o caso de, por vezes, se estar a adestrar um cão em protecção às três da manhã num armazém ou numa fábrica e às sete a efectuar um treino de rastreio. Nenhum adestrador profissional executa o tradicional “nine to five” da maior parte das profissões, como tal é essencial gostar-se muito do que se faz para poder aguentar o ritmo de trabalho que, nalguns casos, é altamente esgotante, mas também bastante aliciante.
Um factor fundamental a analisar é o de que o adestrador deve ser conotado como “o amigo do cão”. De um trato adequado, com respeito e lisura pelos proprietários, clientes e colegas depende em grande parte o futuro de um adestrador, sendo esta outra área importante da sua própria imagem pessoal. A seriedade, educação, honestidade e pontualidade, não sendo qualidades inatas é importante serem adquiridas e elaboradas pelo profissional, se quer que a sua actividade tenha êxito. Para o competidor desportivo a qualidade fundamental será a capacidade de trabalho em equipa.
As exigências físicas
A condição física pessoal derivada das condições externas e inerentes ao trabalho com o cão serão as ideais quando não interfiram com o desenvolvimento das variadas tarefas que se apresentam ou, pelo menos, permitam enfrentar, apesar das limitações físicas, os objectivos traçados. A resistência física é geralmente importante se considerarmos por exemplo, o caso se exercer a actividade de figurante no adestramento de protecção vestido com um fato integral e tiver que trabalhar vários cães. Se ao peso do fato juntarmos a luta com os animais debaixo de uma temperatura escaldante, chegamos à conclusão de que necessitamos de possuir uma condição física adequada quando trabalhamos em várias disciplinas. Apesar disso a coordenação mental, capacidade motora e o sentido espacial reduzirão a possibilidade de estragar um trabalho devido a falhas físicas.
Outro factor a ter em conta é o risco de sofrer arranhões, mordidas ou acidentes. O adestrador, especialmente quando executa o trabalho de figurante, tem o dever de assumir todas as contingências, exactamente como todos os demais profissionais assumem as inerentes ao seu ofício. Isto não quer dizer que sejam evitadas as protecções e se tomem as devidas precauções que recomenda o senso comum. É inevitável a primeira sensação de nos “sentirmos presas” quando enfrentamos pela primeira vez a boca e respectivos dentes de um cão. A preparação física e o conhecimento do animal ajudam-nos a reagir com a resposta adequada a cada situação.
As exigências mentais
Os adestradores com alguma experiência conhecem o importante que é a paciência nesta actividade. Ela pode levar a uma evolução totalmente desejável do trabalho com o animal, enquanto que a pressa irracional só acabará em maus desempenhos, perca de relação com o cão ou à não consecução de objectivos traçados.
A paciência e a tenacidade são as duas virtudes mais valorizadas nesta actividade. Não será um bom adestrador quem não for paciente nem quem desista ao primeiro revés. Também não o será se não for inteligente, bom observador, acutilante e que não saiba raciocinar fria e logicamente. Não deverá igualmente desistir à primeira mordida de algum aluno mais impulsivo. A capacidade de observação permitirá ao adestrador apreciar adequadamente os factores que rodeiam a evolução do trabalho quotidiano.
Uma boa dose de resistência psíquica porá a salvo as frustrações quotidianas com que se depara o adestramento. Deve-se enfrentar os problemas da maneira mais racional possível dando, a cada um deles, a resposta mais adequada.
Por último deve-se insistir uma vez mais, em manter a liderança absoluta na estrutura hierárquica do binómio adestrador-cão.
Ética Profissional
A partir do momento em que uma pessoa é qualificada como Adestrador e começa a cobrar os seus serviços, está a actuar como um Profissional. Como em todas as profissões, nesta também deve existir um código deontológico e uma ética profissional. Por não estar regulamentada, esta profissão presta-se a todo o tipo de oportunistas, moralmente mal formados e charlatães.
Em todas as profissões encontramos pessoas mais ou menos qualificadas e que se intitulam de “profissionais”. A diferença entre o bom profissional e o charlatão radica na qualidade dos seus trabalhos, finalizados com êxito, dentro do respeito à ética da sua profissão.
Por ser uma profissão relativamente nova, faz com que a fiscalização do trabalho, por parte do cliente, seja quase nula. A transparência no processo de adestramento, de modo a evitar abusos e enganos, está sujeita à moralidade do profissional.
Se o adestrador possui um conceito claro do que é a moral, só aceitará um trabalho que seja capaz de realizar e que esteja dentro do que aprendeu na sua formação, rejeitará as tarefas para as quais não se sinta capacitado e não terá problemas em mostrar as limitações reais do animal e as do trabalho que vai desenvolver assim como as possibilidades de êxito.
Outro pecado capital é a crítica maldosa a outro colega de profissão. Quando se procede desta forma ninguém fica a ganhar, perdem, isso sim, todos os adestradores que consideram esta tarefa suficientemente digna para investir nela toda a sua vida.
Finalmente, o que o cliente espera de um profissional é que o seu cão se converta num amigo obediente, amável e educado, num guardião e defensor da sua família, companheiro de vigilância e patrulha, participante em salvamentos, olhos dos invisuais, consolo e ajuda na invalidez e velhice, etc.
Tendo em conta que agrada ao adestrador o contacto com o cão e sendo este o objecto essencial do adestramento, deve ter a capacidade de lhe transmitir as suas sensações, suportá-lo no dia-a-dia, cuidar da sua higiene, nalguns casos também o transporte e, inclusivamente, controlar-lhe os comportamentos não desejados.
O ambiente das sessões de treino poderá ser, em muitos casos, adverso por ter de se trabalhar amiúdas vezes sob rigorosos dias de intempérie. O frio, a chuva, o calor e a sede são os “companheiros” sempre presentes nas sessões de trabalho. Pode dar-se o caso de, por vezes, se estar a adestrar um cão em protecção às três da manhã num armazém ou numa fábrica e às sete a efectuar um treino de rastreio. Nenhum adestrador profissional executa o tradicional “nine to five” da maior parte das profissões, como tal é essencial gostar-se muito do que se faz para poder aguentar o ritmo de trabalho que, nalguns casos, é altamente esgotante, mas também bastante aliciante.
Um factor fundamental a analisar é o de que o adestrador deve ser conotado como “o amigo do cão”. De um trato adequado, com respeito e lisura pelos proprietários, clientes e colegas depende em grande parte o futuro de um adestrador, sendo esta outra área importante da sua própria imagem pessoal. A seriedade, educação, honestidade e pontualidade, não sendo qualidades inatas é importante serem adquiridas e elaboradas pelo profissional, se quer que a sua actividade tenha êxito. Para o competidor desportivo a qualidade fundamental será a capacidade de trabalho em equipa.
As exigências físicas
A condição física pessoal derivada das condições externas e inerentes ao trabalho com o cão serão as ideais quando não interfiram com o desenvolvimento das variadas tarefas que se apresentam ou, pelo menos, permitam enfrentar, apesar das limitações físicas, os objectivos traçados. A resistência física é geralmente importante se considerarmos por exemplo, o caso se exercer a actividade de figurante no adestramento de protecção vestido com um fato integral e tiver que trabalhar vários cães. Se ao peso do fato juntarmos a luta com os animais debaixo de uma temperatura escaldante, chegamos à conclusão de que necessitamos de possuir uma condição física adequada quando trabalhamos em várias disciplinas. Apesar disso a coordenação mental, capacidade motora e o sentido espacial reduzirão a possibilidade de estragar um trabalho devido a falhas físicas.
Outro factor a ter em conta é o risco de sofrer arranhões, mordidas ou acidentes. O adestrador, especialmente quando executa o trabalho de figurante, tem o dever de assumir todas as contingências, exactamente como todos os demais profissionais assumem as inerentes ao seu ofício. Isto não quer dizer que sejam evitadas as protecções e se tomem as devidas precauções que recomenda o senso comum. É inevitável a primeira sensação de nos “sentirmos presas” quando enfrentamos pela primeira vez a boca e respectivos dentes de um cão. A preparação física e o conhecimento do animal ajudam-nos a reagir com a resposta adequada a cada situação.
As exigências mentais
Os adestradores com alguma experiência conhecem o importante que é a paciência nesta actividade. Ela pode levar a uma evolução totalmente desejável do trabalho com o animal, enquanto que a pressa irracional só acabará em maus desempenhos, perca de relação com o cão ou à não consecução de objectivos traçados.
A paciência e a tenacidade são as duas virtudes mais valorizadas nesta actividade. Não será um bom adestrador quem não for paciente nem quem desista ao primeiro revés. Também não o será se não for inteligente, bom observador, acutilante e que não saiba raciocinar fria e logicamente. Não deverá igualmente desistir à primeira mordida de algum aluno mais impulsivo. A capacidade de observação permitirá ao adestrador apreciar adequadamente os factores que rodeiam a evolução do trabalho quotidiano.
Uma boa dose de resistência psíquica porá a salvo as frustrações quotidianas com que se depara o adestramento. Deve-se enfrentar os problemas da maneira mais racional possível dando, a cada um deles, a resposta mais adequada.
Por último deve-se insistir uma vez mais, em manter a liderança absoluta na estrutura hierárquica do binómio adestrador-cão.
Ética Profissional
A partir do momento em que uma pessoa é qualificada como Adestrador e começa a cobrar os seus serviços, está a actuar como um Profissional. Como em todas as profissões, nesta também deve existir um código deontológico e uma ética profissional. Por não estar regulamentada, esta profissão presta-se a todo o tipo de oportunistas, moralmente mal formados e charlatães.
Em todas as profissões encontramos pessoas mais ou menos qualificadas e que se intitulam de “profissionais”. A diferença entre o bom profissional e o charlatão radica na qualidade dos seus trabalhos, finalizados com êxito, dentro do respeito à ética da sua profissão.
Por ser uma profissão relativamente nova, faz com que a fiscalização do trabalho, por parte do cliente, seja quase nula. A transparência no processo de adestramento, de modo a evitar abusos e enganos, está sujeita à moralidade do profissional.
Se o adestrador possui um conceito claro do que é a moral, só aceitará um trabalho que seja capaz de realizar e que esteja dentro do que aprendeu na sua formação, rejeitará as tarefas para as quais não se sinta capacitado e não terá problemas em mostrar as limitações reais do animal e as do trabalho que vai desenvolver assim como as possibilidades de êxito.
Outro pecado capital é a crítica maldosa a outro colega de profissão. Quando se procede desta forma ninguém fica a ganhar, perdem, isso sim, todos os adestradores que consideram esta tarefa suficientemente digna para investir nela toda a sua vida.
Finalmente, o que o cliente espera de um profissional é que o seu cão se converta num amigo obediente, amável e educado, num guardião e defensor da sua família, companheiro de vigilância e patrulha, participante em salvamentos, olhos dos invisuais, consolo e ajuda na invalidez e velhice, etc.
13/03/11
O ADESTRADOR E A SUA FORMAÇÃO
Se entendermos o conceito de adestramento como “o processo utilizado para a canalização das qualidades do cão em direcção a um objectivo”, podemos definir o adestrador como sendo o “director do processo”.
É evidente que a qualidade do adestrador depende de uma série de factores, inter-relacionados entre si, como a formação, inteligência, capacidade física, sensibilidade com o animal e dedicação. Sobretudo, dos objectivos para o qual se proponha e se tem capacidade para os atingir.
Aquele que se limita a formar cães numa única disciplina poderá chegar a ser especialista nessa área mas, as suas qualidades pessoais não estarão à altura das exigências que derivam de objectivos mais complexos, onde entram em jogo factores de superior precisão, funcionalidade ou execução.
O Profissional de Adestramento deve cultivar uma virtude sem a qual, jamais chegará a ser considerado como tal. Referimo-nos à “humildade”. Ela leva-nos a sentirmo-nos continuamente aprendizes pois, devido a ela, temos a consciência que todos os dias são-nos colocadas questões novas para o qual necessitamos de respostas também inovadoras. Não deveremos ter problemas em pedir ajuda a quem sabe mais numa dada área, procurar as referidas respostas onde elas possam estar, livros, artigos, seminários, workshops, etc. Não podemos esquecer que no trabalho com cães há poucas regras fixas e, quase tudo depende da formação que possamos adquirir numa escola, em cursos, trabalhando com os formadores e em grupos de trabalho. Esta humildade deve-nos inibir da pressa que temos em sermos “experts”, fechando assim as portas à aprendizagem.
Como em todas as profissões, existe nesta uma deontologia que nos aconselha a ser humildes e encarrega-se de nos afastar dos seus “pecados capitais”. A vaidade, o desrespeito pelos outros e a deficiente capacidade para reconhecer as lacunas no conhecimento que se tem do mundo canino, diferenciam o autêntico especialista, respeitado, com provas dadas e sempre disposto a adaptar-se e a evoluir, do mau profissional que pensa que já sabe tudo e não necessita de se reciclar.
O profissional com falta de ética e de humildade jamais está aberto às inovações científicas que têm aparecido com regularidade na área da aprendizagem canina. Este tipo de profissional não toma por verdadeira a frase: “quanto mais estudo, mais consciente estou do que me falta aprender”.
Vejamos agora os canais de aprendizagem que os adestradores dispõem até que possam ser considerados como tal.
Há alguns anos os conhecimentos que possuía um profissional baseavam-se, quase exclusivamente, na sua própria experiência. O seu método era o da tentativa e erro e, se tivesse sorte, partilhava o trabalho e experiências com outro colega. Se juntarmos a isso a baixa estima social que, no nosso país, despertava o canicultor, não é difícil imaginar que, para ter um certo domínio sobre a profissão, o adestrador tivesse que sacrificar a família e a sua vida social.
Apesar de a pré-história do adestramento ainda não estar muito distante, em Portugal começa a ter-se acesso a um ensino sério e regrado, se bem que, dependendo do Centro de Formação, podem-se alcançar vários níveis.
Como é lógico, neste artigo pretendemos “informar” portanto, explicaremos os prós e contras dos canais de aprendizagem mais usuais:
1. O autodidacta
Infelizmente, este meio de aprendizagem, que é ainda o que mais predomina nos nossos adestradores profissionais, tem frutificado nesses pseudo-adestradores à custa de estropiar cães e arruinar as suas vidas e tenham igualmente feito escola como base do adestramento. Na grande maioria dos casos não passam de medíocres profissionais acompanhados de numerosas limitações.
2. O “treinador”
O canal de aprendizagem utilizado por estes profissionais que se intitulam como “treinadores de cães” tem, na sua grande maioria, origem nas companhias cinotécnicas das forças de segurança. Estes elementos possuem formação específica nas áreas da defesa civil, ou em busca e salvamento, ou na detecção de drogas e armas e operam com cães “formatados”, praticamente desde a nascença, para executarem essas actividades. Não completando esses conhecimentos com outros de índole mais geral canalizados para a actividade de companhia, que é para aquilo que os “nossos” cães estão vocacionados, dificilmente conseguirão atingir um nível elevado de capacidades no adestramento básico e social de um cão normal.
3. Os grupos de trabalho
Importado da Alemanha, a sua estrutura social é a de um grupo de adeptos que se reúnem não só para trabalharem o cão, mas para fazer vida social com aqueles que tem a mesma paixão. São normalmente organizados por Clubes de Raça e, habitualmente, não existe monitor com formação, sendo alguém experiente no grupo que, por amizade, ensina os outros. Devido à paixão e entrega, os resultados são frequentemente bons limitando-se os objectivos a provas de obediência e sociabilidade.
Transposto para o nosso País, este modelo quase nunca deu frutos como na origem. A nossa idiossincrasia de povo Latino se encarregou de arranjar desculpas para a nossa falta de interesse e motivação em frequentar esses grupos. Por vários motivos, mas o principal é o facto de no inverno ter que se trabalhar debaixo de todo o tipo de intempéries.
De qualquer forma, os grupos de trabalho e, na maioria dos casos, são bons locais para obter um o certo nível de formação, principalmente a aprendizagem de trabalho em equipa.
4. Escolas de Formação
É uma realidade nova em Portugal mas, do que conhecemos noutros países, possuem uma inquestionável qualidade e sem comparação com todos os outros canais de aprendizagem.
A amplitude de conhecimentos multidisciplinares, ministrados em módulos teóricos e práticos, conferem aos frequentadores uma bagagem de conhecimentos que lhes permite atingir qualquer objectivo que se proponham no âmbito do adestramento canino. Pode servir como exemplo, uma vez que é aquele que conhecemos melhor, o Centro Canino de Vale de Lobos que, através do seu Departamento de Formação, ministra Cursos de Formação de Monitores em Adestramento Científico Canino, tanto nos seus formatos normal como intensivo que, como o nome indica, utiliza os mais modernos avanços científicos na aprendizagem animal na persecução dos seus objectivos que é o de formar profissionais em três componentes: técnica, teórica e prática.
Também está muito em voga no nosso país a disponibilização de Cursos de uma semana onde se aproveita para abordar toda a área do adestramento, comportamento, primeiros socorros e as várias disciplinas do desporto canino.
Tem-se igualmente vindo a massificar os seminários de fim-de-semana e os workshops de um dia mas, nestes casos, são dedicados a um tema específico.
Com este artigo quis elucidar todos os proprietários de cães do que é e do estado desta nobre e dignificante actividade profissional. Cabe aos interessados informarem-se, visitarem várias escolas, compararem os métodos de adestramento, analisarem os monitores, inquirirem, se for caso disso, junto destes se possuem algum certificado passado por alguma escola de formação, etc., e depois, na posse de todos estes elementos, decidirem o que é melhor para o seu amigo de quatro patas.
É evidente que a qualidade do adestrador depende de uma série de factores, inter-relacionados entre si, como a formação, inteligência, capacidade física, sensibilidade com o animal e dedicação. Sobretudo, dos objectivos para o qual se proponha e se tem capacidade para os atingir.
Aquele que se limita a formar cães numa única disciplina poderá chegar a ser especialista nessa área mas, as suas qualidades pessoais não estarão à altura das exigências que derivam de objectivos mais complexos, onde entram em jogo factores de superior precisão, funcionalidade ou execução.
O Profissional de Adestramento deve cultivar uma virtude sem a qual, jamais chegará a ser considerado como tal. Referimo-nos à “humildade”. Ela leva-nos a sentirmo-nos continuamente aprendizes pois, devido a ela, temos a consciência que todos os dias são-nos colocadas questões novas para o qual necessitamos de respostas também inovadoras. Não deveremos ter problemas em pedir ajuda a quem sabe mais numa dada área, procurar as referidas respostas onde elas possam estar, livros, artigos, seminários, workshops, etc. Não podemos esquecer que no trabalho com cães há poucas regras fixas e, quase tudo depende da formação que possamos adquirir numa escola, em cursos, trabalhando com os formadores e em grupos de trabalho. Esta humildade deve-nos inibir da pressa que temos em sermos “experts”, fechando assim as portas à aprendizagem.
Como em todas as profissões, existe nesta uma deontologia que nos aconselha a ser humildes e encarrega-se de nos afastar dos seus “pecados capitais”. A vaidade, o desrespeito pelos outros e a deficiente capacidade para reconhecer as lacunas no conhecimento que se tem do mundo canino, diferenciam o autêntico especialista, respeitado, com provas dadas e sempre disposto a adaptar-se e a evoluir, do mau profissional que pensa que já sabe tudo e não necessita de se reciclar.
O profissional com falta de ética e de humildade jamais está aberto às inovações científicas que têm aparecido com regularidade na área da aprendizagem canina. Este tipo de profissional não toma por verdadeira a frase: “quanto mais estudo, mais consciente estou do que me falta aprender”.
Vejamos agora os canais de aprendizagem que os adestradores dispõem até que possam ser considerados como tal.
Há alguns anos os conhecimentos que possuía um profissional baseavam-se, quase exclusivamente, na sua própria experiência. O seu método era o da tentativa e erro e, se tivesse sorte, partilhava o trabalho e experiências com outro colega. Se juntarmos a isso a baixa estima social que, no nosso país, despertava o canicultor, não é difícil imaginar que, para ter um certo domínio sobre a profissão, o adestrador tivesse que sacrificar a família e a sua vida social.
Apesar de a pré-história do adestramento ainda não estar muito distante, em Portugal começa a ter-se acesso a um ensino sério e regrado, se bem que, dependendo do Centro de Formação, podem-se alcançar vários níveis.
Como é lógico, neste artigo pretendemos “informar” portanto, explicaremos os prós e contras dos canais de aprendizagem mais usuais:
1. O autodidacta
Infelizmente, este meio de aprendizagem, que é ainda o que mais predomina nos nossos adestradores profissionais, tem frutificado nesses pseudo-adestradores à custa de estropiar cães e arruinar as suas vidas e tenham igualmente feito escola como base do adestramento. Na grande maioria dos casos não passam de medíocres profissionais acompanhados de numerosas limitações.
2. O “treinador”
O canal de aprendizagem utilizado por estes profissionais que se intitulam como “treinadores de cães” tem, na sua grande maioria, origem nas companhias cinotécnicas das forças de segurança. Estes elementos possuem formação específica nas áreas da defesa civil, ou em busca e salvamento, ou na detecção de drogas e armas e operam com cães “formatados”, praticamente desde a nascença, para executarem essas actividades. Não completando esses conhecimentos com outros de índole mais geral canalizados para a actividade de companhia, que é para aquilo que os “nossos” cães estão vocacionados, dificilmente conseguirão atingir um nível elevado de capacidades no adestramento básico e social de um cão normal.
3. Os grupos de trabalho
Importado da Alemanha, a sua estrutura social é a de um grupo de adeptos que se reúnem não só para trabalharem o cão, mas para fazer vida social com aqueles que tem a mesma paixão. São normalmente organizados por Clubes de Raça e, habitualmente, não existe monitor com formação, sendo alguém experiente no grupo que, por amizade, ensina os outros. Devido à paixão e entrega, os resultados são frequentemente bons limitando-se os objectivos a provas de obediência e sociabilidade.
Transposto para o nosso País, este modelo quase nunca deu frutos como na origem. A nossa idiossincrasia de povo Latino se encarregou de arranjar desculpas para a nossa falta de interesse e motivação em frequentar esses grupos. Por vários motivos, mas o principal é o facto de no inverno ter que se trabalhar debaixo de todo o tipo de intempéries.
De qualquer forma, os grupos de trabalho e, na maioria dos casos, são bons locais para obter um o certo nível de formação, principalmente a aprendizagem de trabalho em equipa.
4. Escolas de Formação
É uma realidade nova em Portugal mas, do que conhecemos noutros países, possuem uma inquestionável qualidade e sem comparação com todos os outros canais de aprendizagem.
A amplitude de conhecimentos multidisciplinares, ministrados em módulos teóricos e práticos, conferem aos frequentadores uma bagagem de conhecimentos que lhes permite atingir qualquer objectivo que se proponham no âmbito do adestramento canino. Pode servir como exemplo, uma vez que é aquele que conhecemos melhor, o Centro Canino de Vale de Lobos que, através do seu Departamento de Formação, ministra Cursos de Formação de Monitores em Adestramento Científico Canino, tanto nos seus formatos normal como intensivo que, como o nome indica, utiliza os mais modernos avanços científicos na aprendizagem animal na persecução dos seus objectivos que é o de formar profissionais em três componentes: técnica, teórica e prática.
Também está muito em voga no nosso país a disponibilização de Cursos de uma semana onde se aproveita para abordar toda a área do adestramento, comportamento, primeiros socorros e as várias disciplinas do desporto canino.
Tem-se igualmente vindo a massificar os seminários de fim-de-semana e os workshops de um dia mas, nestes casos, são dedicados a um tema específico.
Com este artigo quis elucidar todos os proprietários de cães do que é e do estado desta nobre e dignificante actividade profissional. Cabe aos interessados informarem-se, visitarem várias escolas, compararem os métodos de adestramento, analisarem os monitores, inquirirem, se for caso disso, junto destes se possuem algum certificado passado por alguma escola de formação, etc., e depois, na posse de todos estes elementos, decidirem o que é melhor para o seu amigo de quatro patas.
08/02/11
O CARÁCTER, O TEMPERAMENTO E AS QUALIDADES INTRÍNSECAS DE UM CÃO
2ª Parte
O TEMPERAMENTO
Os seguintes traços de carácter têm uma particularidade comum a todos: que é aquilo a que vulgarmente os adestradores chamam “Força de Vontade”, “Tenacidade”, “Alerta”, “Disponibilidade para o Trabalho”, “Irreverência”, etc. Por isso decidimos separá-los das outras características que compõem o carácter, e tratá-los nesta segunda parte do artigo dedicada ao Temperamento canino.
• Tempera. Esta definição contempla a intensidade e velocidade de resposta ante estímulos externos de qualquer natureza. Não se deve aplicar este termo como sinónimo de carácter e muito menos de agressividade. Tal como sucede com a sociabilidade e a docilidade, a educação canina permite acrescentar temperamento aos espécimes adestrados.
• Vigilância. Representa a particularidade sensitiva do cão para pressentir algo anormal e potencialmente perigoso, ameaça para ele como individuo e/ou como integrante na matilha (equivalente à família humana). Por vezes associada a grande sensibilidade olfactiva e auditiva dos canídeos, a aptidão de vigilância, tipo sexto sentido que permite pré-advertir grandes calamidades naturais – terramotos, inundações, incêndios, tempestades – e resolver antecipadamente a guarda e protecção do grupo (congéneres, pessoas e animais a seu cuidado.
• Valentia. No campo do comportamento canino, a valentia descreve a capacidade de resistência a uma acção ou factor externo desagradável ou agressivo. É condição indispensável para guarda.
• Coragem. A palavra “coragem” sintetiza uma convergência de impulsos para enfrentar positivamente situações de risco, conhecidas ou não, que possam afectar a integridade física do indivíduo ou do seu grupo comunitário. Esta disposição de luta surge como resposta directamente proporcional à sociabilidade e ao temperamento de cada um, sem se contrapor à docilidade. A coragem opõe-se ao sentimento de fuga – instinto personalista – à custa do sacrifício pessoal e, por arrasto, a defesa do conjunto (da matilha ou da família) o exime do medo e considerações individualistas.
• Agressividade. Nos cães interessa-nos uma reacção física e activa – mas de modo proporcionado e sem exageros – ante um suposto perigo (ameaça territorial, dos seus congéneres e mesmo de todos os seres ao seu cuidado). A agressão obedecerá sempre a um motivo. Nos cães selvagens este comportamento é primordial para obter alimento e, consequentemente, está relacionado com o instinto predatório e a sobrevivência do mais apto.
• Possessibilidade. Diz-se que um cão é possessivo quando, naturalmente, está predisposto a converter-se dono de qualquer coisa ou de alguém. Deriva – por sublimação – do comportamento predatório dos cães selvagens. O apropriar-se de seres ou objectos manifesta-se como expressão de competitividade e afirmação do espaço apreendido.
• Combatividade. Este conceito alude à capacidade de lutar com vigor contra um estímulo exterior negativo mal este se manifesta. Verdadeiro “resorte” emocional, a combatividade há-de expressar-se com uma firme atitude de luta que, nalguns casos são encarados como esquemas ritualizados de combate e, desencadeando-se a agressão aberta. Este conceito distingue-se de outras formas de briga porque utiliza os sinais atávicos da espécie (posição da cauda, orelhas, pelo eriçado na cruz, etc.). Autores como Enzo Vezzoli sustentam que frequentemente a combatividade se associa e inclusivamente tem origem na possessibilidade.
QUALIDADES INTRÍNSECAS DE UM CÃO
Sensibilidade e Recuperação
A sensibilidade e a capacidade de recuperação são factores psicofísicos do animal que o adestrador deve perceber de forma imediata testando ou simplesmente, trabalhando com o cão. A sensibilidade física ou psíquica e o tempo que o cão leva a recuperar de uma situação de conflito com o seu adestrador, são os factores determinantes da intensidade com que este poderá aplicar a pressão ou o castigo.
A pressão é entendida como: “força exercida sobre o cão, antes ou durante a ordem, para conseguir execução e rapidez”. O castigo ou estímulo aversivo é “a consequência negativa que recebe o animal como resultado de uma resposta inadequada”. Em termos coloquiais o castigo será: a correcção física ou psíquica que o cão recebe perante uma falta. Como dizíamos antes, é muito importante conhecer o grau de sensibilidade e a recuperação de cada indivíduo. Há cães que só com um olhar do guia se sentem, para eles o castigo consiste numa voz num tom mais áspero. Ao contrário, um cão duro necessitará uma pressão ou um castigo mais expedito.
Há quem compare a sensibilidade do animal à sua qualidade. Realmente estes conceitos não estão unidos já que há cães duríssimos não aptos para o trabalho assim como há animais sensíveis de uma qualidade extrema. Portanto, é o adestrador que deve adaptar-se à sensibilidade do cão e não o cão ao adestrador.
Intrepidez
Qualidade que representa o nível de arrojo ou valentia ante determinados problemas ou obstáculos. Não devemos confundir este conceito com o da conduta defensiva. Um cachorro de cinco meses pode ser muito intrépido sem apresentar atitudes defensivas.
Para observar a intrepidez de um cachorro colocamo-lo em cima de uma mesa alta. Quando o chamamos podemos obter uma referência de conduta. No caso de um cão adulto, colocamo-lo num dos lados de uma vala e nós no outro, então observamos como ele resolve o problema.
É importante que testemos frequentemente o cão em situações novas para ele. A espontaneidade permitirá, dessa forma, uma análise do comportamento do cão uma vez que a aprendizagem não permitirá introduzir um factor de variabilidade.
Tenacidade
Capacidade de resistir ao abandono de uma actividade que apresenta expectativas de satisfazer um instinto. Portanto, a tenacidade está muito ligada ao nível do instinto invocado.
Como exemplo podemos colocar uma bola à vista de um indivíduo com o instinto de caça bastante desenvolvido. O animal tomará uma atitude expectante e, se lhe impedimos o acesso, teremos o indicador da sua tenacidade controlando o tempo que leva a tentar obtê-la.
Temperamento
É a capacidade de adaptação e resposta orgânica do animal perante sucessos inesperados. As respostas de inquietação, surpresa excessiva ou, inclusivamente medo, quando algo se modifica de forma repentina, no âmbito da sua percepção sensorial, denotam, em maior ou menor grau, uma possível carência de Temperamento no cão. Neste caso, descartamos os modelos de conduta associados ao G.A.S. (Síndrome Geral de Adaptação) ou as reacções gerais de emergência, que leva-nos a supor uma deficiência no seu temperamento.
Para observarmos o nível de temperamento de um indivíduo podemos efectuar um disparo, introduzir um objecto novo e chamativo no seu meio envolvente quando está ausente ou simplesmente, deixar cair um objecto metálico que produza um som alto quando o cão estiver distraído.
Estes não são mais que alguns exemplos mas, mão há dúvida que o temperamento pode testar-se de diversas formas.
Um cão que lhe falte temperamento pode fazer-se insensível a um estímulo concreto, por um processo de habituação mas, noutro contexto aparecerá esta deficiência revelando assim as suas limitações.
Resolução
É a capacidade de dar solução a um problema que se lhe apresenta num contexto desconhecido. Está estreitamente ligado à “inteligência” do animal. Esta qualidade é fácil de reconhecer em cachorros e jovens que não tenham sido condicionados em excesso. Para testar esta qualidade nos cães deve-se procurar um local afastado para evitar a inibição dos mecanismos do animal ante problemas em contextos novos. Para testar um cachorro pode-se utilizar um recinto vedado e, depois de um passeio, deixa-se solto e à vontade e chamamo-lo do outro lado da vedação enquanto observamos a sua reacção.
Até aqui temos analisado o cão de forma genérica tendo em conta as virtudes e qualidades que o adestrador deve considerar quando selecciona um cão para uma determinada função ou quando testa um animal que lhe é entregue para ser formado.
Do que foi dito neste artigo deve deduzir-se que não existem dois indivíduos iguais e portanto, a manipulação e o método a seguir no processo de adestramento, deverá ajustar-se a uma análise individual.
Devemos ter em conta aqueles factores de variabilidade que alteram os resultados do estudo. Enfermidades, doenças, fases críticas do desenvolvimento psicofísico, hostilidades ambientais, traumas muito recentes e inclusivamente, instintos primários satisfeitos, distorceram em menor ou maior grau, a percepção do analista.
Com o estudo e a experiência aprofunda-se o conhecimento do cão e do seu meio envolvente evitando, desta forma, surpresas e sobretudo, reduzindo ao mínimo, o factor sorte.
O TEMPERAMENTO
Os seguintes traços de carácter têm uma particularidade comum a todos: que é aquilo a que vulgarmente os adestradores chamam “Força de Vontade”, “Tenacidade”, “Alerta”, “Disponibilidade para o Trabalho”, “Irreverência”, etc. Por isso decidimos separá-los das outras características que compõem o carácter, e tratá-los nesta segunda parte do artigo dedicada ao Temperamento canino.
• Tempera. Esta definição contempla a intensidade e velocidade de resposta ante estímulos externos de qualquer natureza. Não se deve aplicar este termo como sinónimo de carácter e muito menos de agressividade. Tal como sucede com a sociabilidade e a docilidade, a educação canina permite acrescentar temperamento aos espécimes adestrados.
• Vigilância. Representa a particularidade sensitiva do cão para pressentir algo anormal e potencialmente perigoso, ameaça para ele como individuo e/ou como integrante na matilha (equivalente à família humana). Por vezes associada a grande sensibilidade olfactiva e auditiva dos canídeos, a aptidão de vigilância, tipo sexto sentido que permite pré-advertir grandes calamidades naturais – terramotos, inundações, incêndios, tempestades – e resolver antecipadamente a guarda e protecção do grupo (congéneres, pessoas e animais a seu cuidado.
• Valentia. No campo do comportamento canino, a valentia descreve a capacidade de resistência a uma acção ou factor externo desagradável ou agressivo. É condição indispensável para guarda.
• Coragem. A palavra “coragem” sintetiza uma convergência de impulsos para enfrentar positivamente situações de risco, conhecidas ou não, que possam afectar a integridade física do indivíduo ou do seu grupo comunitário. Esta disposição de luta surge como resposta directamente proporcional à sociabilidade e ao temperamento de cada um, sem se contrapor à docilidade. A coragem opõe-se ao sentimento de fuga – instinto personalista – à custa do sacrifício pessoal e, por arrasto, a defesa do conjunto (da matilha ou da família) o exime do medo e considerações individualistas.
• Agressividade. Nos cães interessa-nos uma reacção física e activa – mas de modo proporcionado e sem exageros – ante um suposto perigo (ameaça territorial, dos seus congéneres e mesmo de todos os seres ao seu cuidado). A agressão obedecerá sempre a um motivo. Nos cães selvagens este comportamento é primordial para obter alimento e, consequentemente, está relacionado com o instinto predatório e a sobrevivência do mais apto.
• Possessibilidade. Diz-se que um cão é possessivo quando, naturalmente, está predisposto a converter-se dono de qualquer coisa ou de alguém. Deriva – por sublimação – do comportamento predatório dos cães selvagens. O apropriar-se de seres ou objectos manifesta-se como expressão de competitividade e afirmação do espaço apreendido.
• Combatividade. Este conceito alude à capacidade de lutar com vigor contra um estímulo exterior negativo mal este se manifesta. Verdadeiro “resorte” emocional, a combatividade há-de expressar-se com uma firme atitude de luta que, nalguns casos são encarados como esquemas ritualizados de combate e, desencadeando-se a agressão aberta. Este conceito distingue-se de outras formas de briga porque utiliza os sinais atávicos da espécie (posição da cauda, orelhas, pelo eriçado na cruz, etc.). Autores como Enzo Vezzoli sustentam que frequentemente a combatividade se associa e inclusivamente tem origem na possessibilidade.
QUALIDADES INTRÍNSECAS DE UM CÃO
Sensibilidade e Recuperação
A sensibilidade e a capacidade de recuperação são factores psicofísicos do animal que o adestrador deve perceber de forma imediata testando ou simplesmente, trabalhando com o cão. A sensibilidade física ou psíquica e o tempo que o cão leva a recuperar de uma situação de conflito com o seu adestrador, são os factores determinantes da intensidade com que este poderá aplicar a pressão ou o castigo.
A pressão é entendida como: “força exercida sobre o cão, antes ou durante a ordem, para conseguir execução e rapidez”. O castigo ou estímulo aversivo é “a consequência negativa que recebe o animal como resultado de uma resposta inadequada”. Em termos coloquiais o castigo será: a correcção física ou psíquica que o cão recebe perante uma falta. Como dizíamos antes, é muito importante conhecer o grau de sensibilidade e a recuperação de cada indivíduo. Há cães que só com um olhar do guia se sentem, para eles o castigo consiste numa voz num tom mais áspero. Ao contrário, um cão duro necessitará uma pressão ou um castigo mais expedito.
Há quem compare a sensibilidade do animal à sua qualidade. Realmente estes conceitos não estão unidos já que há cães duríssimos não aptos para o trabalho assim como há animais sensíveis de uma qualidade extrema. Portanto, é o adestrador que deve adaptar-se à sensibilidade do cão e não o cão ao adestrador.
Intrepidez
Qualidade que representa o nível de arrojo ou valentia ante determinados problemas ou obstáculos. Não devemos confundir este conceito com o da conduta defensiva. Um cachorro de cinco meses pode ser muito intrépido sem apresentar atitudes defensivas.
Para observar a intrepidez de um cachorro colocamo-lo em cima de uma mesa alta. Quando o chamamos podemos obter uma referência de conduta. No caso de um cão adulto, colocamo-lo num dos lados de uma vala e nós no outro, então observamos como ele resolve o problema.
É importante que testemos frequentemente o cão em situações novas para ele. A espontaneidade permitirá, dessa forma, uma análise do comportamento do cão uma vez que a aprendizagem não permitirá introduzir um factor de variabilidade.
Tenacidade
Capacidade de resistir ao abandono de uma actividade que apresenta expectativas de satisfazer um instinto. Portanto, a tenacidade está muito ligada ao nível do instinto invocado.
Como exemplo podemos colocar uma bola à vista de um indivíduo com o instinto de caça bastante desenvolvido. O animal tomará uma atitude expectante e, se lhe impedimos o acesso, teremos o indicador da sua tenacidade controlando o tempo que leva a tentar obtê-la.
Temperamento
É a capacidade de adaptação e resposta orgânica do animal perante sucessos inesperados. As respostas de inquietação, surpresa excessiva ou, inclusivamente medo, quando algo se modifica de forma repentina, no âmbito da sua percepção sensorial, denotam, em maior ou menor grau, uma possível carência de Temperamento no cão. Neste caso, descartamos os modelos de conduta associados ao G.A.S. (Síndrome Geral de Adaptação) ou as reacções gerais de emergência, que leva-nos a supor uma deficiência no seu temperamento.
Para observarmos o nível de temperamento de um indivíduo podemos efectuar um disparo, introduzir um objecto novo e chamativo no seu meio envolvente quando está ausente ou simplesmente, deixar cair um objecto metálico que produza um som alto quando o cão estiver distraído.
Estes não são mais que alguns exemplos mas, mão há dúvida que o temperamento pode testar-se de diversas formas.
Um cão que lhe falte temperamento pode fazer-se insensível a um estímulo concreto, por um processo de habituação mas, noutro contexto aparecerá esta deficiência revelando assim as suas limitações.
Resolução
É a capacidade de dar solução a um problema que se lhe apresenta num contexto desconhecido. Está estreitamente ligado à “inteligência” do animal. Esta qualidade é fácil de reconhecer em cachorros e jovens que não tenham sido condicionados em excesso. Para testar esta qualidade nos cães deve-se procurar um local afastado para evitar a inibição dos mecanismos do animal ante problemas em contextos novos. Para testar um cachorro pode-se utilizar um recinto vedado e, depois de um passeio, deixa-se solto e à vontade e chamamo-lo do outro lado da vedação enquanto observamos a sua reacção.
Até aqui temos analisado o cão de forma genérica tendo em conta as virtudes e qualidades que o adestrador deve considerar quando selecciona um cão para uma determinada função ou quando testa um animal que lhe é entregue para ser formado.
Do que foi dito neste artigo deve deduzir-se que não existem dois indivíduos iguais e portanto, a manipulação e o método a seguir no processo de adestramento, deverá ajustar-se a uma análise individual.
Devemos ter em conta aqueles factores de variabilidade que alteram os resultados do estudo. Enfermidades, doenças, fases críticas do desenvolvimento psicofísico, hostilidades ambientais, traumas muito recentes e inclusivamente, instintos primários satisfeitos, distorceram em menor ou maior grau, a percepção do analista.
Com o estudo e a experiência aprofunda-se o conhecimento do cão e do seu meio envolvente evitando, desta forma, surpresas e sobretudo, reduzindo ao mínimo, o factor sorte.
12/01/11
O CARÁCTER, O TEMPERAMENTO E AS QUALIDADES INTRÍNSECAS DE UM CÃO
1ª Parte
Vamos iniciar uma série de dois artigos sobre o carácter, o temperamento e as qualidades dos cães. Apesar de serem três termos que poderão ser considerados como sinónimos, iremos ver, ao longo dos artigos, que devem ser compartimentados em conceitos diferentes, uma vez que, quaisquer uns deles apresentam traços de personalidade que os caracterizam, bastantes distintos.
O CARÁCTER
Da mesma maneira que cada cão possui uma estrutura anatómica diferente, a estrutura psíquica e mental é igualmente distinta.
O carácter é produto da carga genética, das experiências vitais e da aprendizagem. Pode-se dizer que o carácter é herdado na sua componente genética, é adquirido na sua componente ambiental e é moldado através da aprendizagem.
Cada uma das vivências do cão trabalha sobre a matriz rudimentar da personalidade do cão de maneira a que, quanto maior for o estímulo, com maior força se fixarão certo tipo de respostas.
As experiências adquiridas durante os primeiros meses de vida influenciam de forma determinante o carácter do cão. A maneira como o cachorro aprende a resolver conflitos, marcará indelevelmente a sua futura personalidade.
Também, apesar de em menor grau, influenciam o carácter as experiências adquiridas na juventude. A prova disso é que, quando se obriga o cão a esquecer associações simples ou sequências complexas de comportamentos, anulam-se com maior facilidade as que se estabeleceram durante a fase intermédia de vida do que aquelas que se fixaram no decurso dos períodos de “imprinting” ou de socialização.
Assim, para realizar um correcto adestramento é importante conhecer o carácter particular do cão que vamos trabalhar, e para isso há que considerar os dois planos em que se desenvolve o crescimento mental: conhecimentos adquiridos e herança genética.
Que carácter terá este cão? É a pergunta que colocam todos os adestradores quando iniciam a formação de qualquer exemplar. É certo que a manipulação e o desenvolvimento do trabalho irão diluindo muitas incógnitas mas, uma análise precoce é fundamental para uma correcta planificação do referido trabalho. Saber analisar cada cão e a resposta do seu organismo, perante uma determinada situação, não é um dom de alguns adestradores mas sim fruto do conhecimento, da observação e do estudo intrínseco do exemplar em causa.
A pior consequência, quando se desconhece o carácter do cão, é a sublimação do método fazendo depender só e exclusivamente dele os resultados. Esta situação provoca numerosos fracassos considerando “não aptos” os indivíduos que não alcançam os objectivos. Em contrapartida, se a eleição do método se basear no conhecimento do cão e se for ajustada, tanto a ele como ao objectivo, o número de “inaptos” será drasticamente reduzido. Do exposto se depreende que, a selecção de exemplares para adestramento de alto nível, naqueles que investiremos inúmeras horas de trabalho, deve estar condicionada a um exaustivo conhecimento do animal.
Iremos de seguida analisar os comportamentos instintivos e os traços de personalidade ligados ao carácter do cão, que o adestrador deve valorizar quando decide iniciar um trabalho de adestramento sério e produtivo.
Análise dos comportamentos instintivos
Pode-se definir o instinto como: “impulsos da estrutura interna do animal que se manifestam em forma de comportamento”. Tanto o instinto como a aprendizagem são os garantes da Adaptação e da Evolução.
Nos animais que têm uma vida relativamente longa e especialmente os que pertencem a espécies altriciais (que recebem prolongados cuidados parentais) como é o caso do cão, os comportamentos instintivos vão aparecendo de forma gradual e o indivíduo tem que aprender a controlá-las. A aprendizagem e o instinto constituem, deste modo, a essência do comportamento e, a combinação entre ambos faz com que discriminar os factores genéticos instintivos da aprendizagem, seja mais difícil do que possa parecer. Se tomarmos como exemplo do que foi exposto o comportamento da vespa cavadora veremos a diferença entre espécies precociais e altriciais assim como a diferença entre instinto e aprendizagem.
Este insecto leva a cabo somente numas semanas de vida, toda uma sequência de condutas como a alimentação, a competição e eleição de parceiro, a “decisão de lutar como o dono de um ninho ou construir o seu próprio, a eleição da presa e sua captura, a postura dos ovos e a sua morte. Se juntarmos a tudo isso que os seus pais morreram no verão anterior, deduziremos que o comportamento instintivo prevalece sobre qualquer factor de aprendizagem.
O cão como espécie altricial está muito ligado nos seus comportamentos, aos instintos e à aprendizagem que falámos anteriormente. Por meio da aprendizagem associativa e do condicionamento operante a que o submetemos veremos desenvolvidos e ampliados os seus padrões de conduta individuais que, de não serem manipulados, se limitariam à resolução de problemas derivados da sobre-vivência e da reprodução. Ainda assim o conhecimento dos instintos mais importantes que desenvolve e a adequada valorização dos comportamentos associados a eles conformam o pilar base para compreender o animal.
Traços de personalidade ligados ao carácter
Um dos erros mais frequentemente cometidos ao falar do comportamento dos cães, do qual nem os cinólogos escapam, é o emprego de termos que correspondem a outros âmbitos e cujo significado não pode empregar-se na etografia canina. Assim, é comum utilizar-se a antiga classificação de Hipócrates definindo “ (cães de) carácter excitável, tranquilo, agressivo ou temeroso”, o uso do vocábulo “temperamento” para definir agressividade, ou confundir guarda com defesa, etc. Na cinofilia moderna, os estudos têm precisado muito bem a terminologia correcta e, independentemente do autor ou técnico, sem ambiguidades, é facilitada assim, a compreensão do comportamento canino.
Nas relações que o cão tem com o meio ambiente – ocupado por ele, e consequentemente, por outros animais e pelo homem, tanto fazendo parte do grupo sócio-expressivo ou estranho a este – evidenciam-se, de modo notório, dez comportamentos naturais, três deles ligados ao carácter: a docilidade, a sociabilidade, a curiosidade e sete eminentemente ligados ao temperamento: a vigilância, o temperamento, a valentia, a possessibilidade, a combatividade, a agressividade e a coragem.
Qualquer destes comportamentos exteriorizados podem ser mais ou menos acentuados segundo a raça a que pertence, potenciando-se entre si ou contra-pondo-se (e até anulando-se), constituindo assim, uma espécie de Bilhete de Identidade das suas aptidões naturais.
…Aptidões e faculdades a ter em conta em qualquer Plano de Adestramento, pois - como disse o Etólogo Enrique Lerena de la Serna – “a educação não pode modificar os fundamentos inatos do carácter” portanto, o adestramento para certas funções é desaconselhável em raças cuja memória genética é inexistente, mas ainda que existindo concordância condutal, carecem as devidas capacidades morfológicas (tamanho insuficiente; particularidades corporais que os impedem desempenhar as tarefas solicitadas sem riscos maiores; pouca adaptação climática; etc.), em suma, não recomendáveis profissionalmente.
Ainda que com um treino específico, quiçá, potencie algumas destas faculdades e, inversamente, exija um mínimo noutras das aqui mencionadas, os comportamentos básicos relativos ao carácter do cão adestrável são os que se seguem:
• Docilidade. Tem a ver com a facilidade do espécimen canino em aceitar o homem como seu superior hierárquico. É colocado, num nível inferior na escala da matilha, mas não na condição de escravo temeroso e submisso. Por cão dócil entende-se aquele que aceita o humano como guia equivalente ao líder dos grupos caninos selvagens. A docilidade, pois, não será confundida com timidez nem medo do castigo; parte da confiança, da entrega natural e benéfica a um mesmo projecto, não anula a índole mas sim amplia-a.
• Sociabilidade. O cão, animal gregário, só se expressa completamente quando integrado em comunidades; daí, um exemplar sociável ganha pessoalmente e ganha a sua espécie. Deste modo, insere-se com naturalidade dentro do âmbito propício, comunicar-se sem excitação ou impaciência extremas é inerente ao impulso genético de domesticidade que se distingue da do seu primo Lobo. A falta de sociabilidade manifesta-se com temor, ansiedade e inquietação. Sociabilidade e docilidade são dois comportamentos de base que se desenvolvem no cachorro no segundo mês de vida, e autores como Daniel Torora dividem a dita capacidade social em: para com a família, para com as crianças e respeito para com os estranhos da casa; Humel agrega a disposição para outros congéneres e a sociabilidade com distintas espécies (gatos, aves, cavalos, vacas, etc.).
• Curiosidade. Há um axioma comprovado que diz: “não vê nem entende o mundo aquele que não seja curioso, quem não tenha sede de indagar, procura do conhecimento (condição prévia de toda a aprendizagem). Também para o cão curiosidade é o desejo, o prazer e a faculdade de interessar-se – naturalmente – por tudo o que o circunda, fundamentado na vontade em explorar territórios e descobrir ambientes, problemáticas e resoluções novas, imprevistos, acrescentando a conduta instintiva com o imprinting – no dizer dos etólogos – e que definem o comportamento adquirido, donde a curiosidade joga um papel muito importante. A presença desta qualidade – em minha opinião – é primordial para o êxito de todo o adestramento.
Vamos iniciar uma série de dois artigos sobre o carácter, o temperamento e as qualidades dos cães. Apesar de serem três termos que poderão ser considerados como sinónimos, iremos ver, ao longo dos artigos, que devem ser compartimentados em conceitos diferentes, uma vez que, quaisquer uns deles apresentam traços de personalidade que os caracterizam, bastantes distintos.
O CARÁCTER
Da mesma maneira que cada cão possui uma estrutura anatómica diferente, a estrutura psíquica e mental é igualmente distinta.
O carácter é produto da carga genética, das experiências vitais e da aprendizagem. Pode-se dizer que o carácter é herdado na sua componente genética, é adquirido na sua componente ambiental e é moldado através da aprendizagem.
Cada uma das vivências do cão trabalha sobre a matriz rudimentar da personalidade do cão de maneira a que, quanto maior for o estímulo, com maior força se fixarão certo tipo de respostas.
As experiências adquiridas durante os primeiros meses de vida influenciam de forma determinante o carácter do cão. A maneira como o cachorro aprende a resolver conflitos, marcará indelevelmente a sua futura personalidade.
Também, apesar de em menor grau, influenciam o carácter as experiências adquiridas na juventude. A prova disso é que, quando se obriga o cão a esquecer associações simples ou sequências complexas de comportamentos, anulam-se com maior facilidade as que se estabeleceram durante a fase intermédia de vida do que aquelas que se fixaram no decurso dos períodos de “imprinting” ou de socialização.
Assim, para realizar um correcto adestramento é importante conhecer o carácter particular do cão que vamos trabalhar, e para isso há que considerar os dois planos em que se desenvolve o crescimento mental: conhecimentos adquiridos e herança genética.
Que carácter terá este cão? É a pergunta que colocam todos os adestradores quando iniciam a formação de qualquer exemplar. É certo que a manipulação e o desenvolvimento do trabalho irão diluindo muitas incógnitas mas, uma análise precoce é fundamental para uma correcta planificação do referido trabalho. Saber analisar cada cão e a resposta do seu organismo, perante uma determinada situação, não é um dom de alguns adestradores mas sim fruto do conhecimento, da observação e do estudo intrínseco do exemplar em causa.
A pior consequência, quando se desconhece o carácter do cão, é a sublimação do método fazendo depender só e exclusivamente dele os resultados. Esta situação provoca numerosos fracassos considerando “não aptos” os indivíduos que não alcançam os objectivos. Em contrapartida, se a eleição do método se basear no conhecimento do cão e se for ajustada, tanto a ele como ao objectivo, o número de “inaptos” será drasticamente reduzido. Do exposto se depreende que, a selecção de exemplares para adestramento de alto nível, naqueles que investiremos inúmeras horas de trabalho, deve estar condicionada a um exaustivo conhecimento do animal.
Iremos de seguida analisar os comportamentos instintivos e os traços de personalidade ligados ao carácter do cão, que o adestrador deve valorizar quando decide iniciar um trabalho de adestramento sério e produtivo.
Análise dos comportamentos instintivos
Pode-se definir o instinto como: “impulsos da estrutura interna do animal que se manifestam em forma de comportamento”. Tanto o instinto como a aprendizagem são os garantes da Adaptação e da Evolução.
Nos animais que têm uma vida relativamente longa e especialmente os que pertencem a espécies altriciais (que recebem prolongados cuidados parentais) como é o caso do cão, os comportamentos instintivos vão aparecendo de forma gradual e o indivíduo tem que aprender a controlá-las. A aprendizagem e o instinto constituem, deste modo, a essência do comportamento e, a combinação entre ambos faz com que discriminar os factores genéticos instintivos da aprendizagem, seja mais difícil do que possa parecer. Se tomarmos como exemplo do que foi exposto o comportamento da vespa cavadora veremos a diferença entre espécies precociais e altriciais assim como a diferença entre instinto e aprendizagem.
Este insecto leva a cabo somente numas semanas de vida, toda uma sequência de condutas como a alimentação, a competição e eleição de parceiro, a “decisão de lutar como o dono de um ninho ou construir o seu próprio, a eleição da presa e sua captura, a postura dos ovos e a sua morte. Se juntarmos a tudo isso que os seus pais morreram no verão anterior, deduziremos que o comportamento instintivo prevalece sobre qualquer factor de aprendizagem.
O cão como espécie altricial está muito ligado nos seus comportamentos, aos instintos e à aprendizagem que falámos anteriormente. Por meio da aprendizagem associativa e do condicionamento operante a que o submetemos veremos desenvolvidos e ampliados os seus padrões de conduta individuais que, de não serem manipulados, se limitariam à resolução de problemas derivados da sobre-vivência e da reprodução. Ainda assim o conhecimento dos instintos mais importantes que desenvolve e a adequada valorização dos comportamentos associados a eles conformam o pilar base para compreender o animal.
Traços de personalidade ligados ao carácter
Um dos erros mais frequentemente cometidos ao falar do comportamento dos cães, do qual nem os cinólogos escapam, é o emprego de termos que correspondem a outros âmbitos e cujo significado não pode empregar-se na etografia canina. Assim, é comum utilizar-se a antiga classificação de Hipócrates definindo “ (cães de) carácter excitável, tranquilo, agressivo ou temeroso”, o uso do vocábulo “temperamento” para definir agressividade, ou confundir guarda com defesa, etc. Na cinofilia moderna, os estudos têm precisado muito bem a terminologia correcta e, independentemente do autor ou técnico, sem ambiguidades, é facilitada assim, a compreensão do comportamento canino.
Nas relações que o cão tem com o meio ambiente – ocupado por ele, e consequentemente, por outros animais e pelo homem, tanto fazendo parte do grupo sócio-expressivo ou estranho a este – evidenciam-se, de modo notório, dez comportamentos naturais, três deles ligados ao carácter: a docilidade, a sociabilidade, a curiosidade e sete eminentemente ligados ao temperamento: a vigilância, o temperamento, a valentia, a possessibilidade, a combatividade, a agressividade e a coragem.
Qualquer destes comportamentos exteriorizados podem ser mais ou menos acentuados segundo a raça a que pertence, potenciando-se entre si ou contra-pondo-se (e até anulando-se), constituindo assim, uma espécie de Bilhete de Identidade das suas aptidões naturais.
…Aptidões e faculdades a ter em conta em qualquer Plano de Adestramento, pois - como disse o Etólogo Enrique Lerena de la Serna – “a educação não pode modificar os fundamentos inatos do carácter” portanto, o adestramento para certas funções é desaconselhável em raças cuja memória genética é inexistente, mas ainda que existindo concordância condutal, carecem as devidas capacidades morfológicas (tamanho insuficiente; particularidades corporais que os impedem desempenhar as tarefas solicitadas sem riscos maiores; pouca adaptação climática; etc.), em suma, não recomendáveis profissionalmente.
Ainda que com um treino específico, quiçá, potencie algumas destas faculdades e, inversamente, exija um mínimo noutras das aqui mencionadas, os comportamentos básicos relativos ao carácter do cão adestrável são os que se seguem:
• Docilidade. Tem a ver com a facilidade do espécimen canino em aceitar o homem como seu superior hierárquico. É colocado, num nível inferior na escala da matilha, mas não na condição de escravo temeroso e submisso. Por cão dócil entende-se aquele que aceita o humano como guia equivalente ao líder dos grupos caninos selvagens. A docilidade, pois, não será confundida com timidez nem medo do castigo; parte da confiança, da entrega natural e benéfica a um mesmo projecto, não anula a índole mas sim amplia-a.
• Sociabilidade. O cão, animal gregário, só se expressa completamente quando integrado em comunidades; daí, um exemplar sociável ganha pessoalmente e ganha a sua espécie. Deste modo, insere-se com naturalidade dentro do âmbito propício, comunicar-se sem excitação ou impaciência extremas é inerente ao impulso genético de domesticidade que se distingue da do seu primo Lobo. A falta de sociabilidade manifesta-se com temor, ansiedade e inquietação. Sociabilidade e docilidade são dois comportamentos de base que se desenvolvem no cachorro no segundo mês de vida, e autores como Daniel Torora dividem a dita capacidade social em: para com a família, para com as crianças e respeito para com os estranhos da casa; Humel agrega a disposição para outros congéneres e a sociabilidade com distintas espécies (gatos, aves, cavalos, vacas, etc.).
• Curiosidade. Há um axioma comprovado que diz: “não vê nem entende o mundo aquele que não seja curioso, quem não tenha sede de indagar, procura do conhecimento (condição prévia de toda a aprendizagem). Também para o cão curiosidade é o desejo, o prazer e a faculdade de interessar-se – naturalmente – por tudo o que o circunda, fundamentado na vontade em explorar territórios e descobrir ambientes, problemáticas e resoluções novas, imprevistos, acrescentando a conduta instintiva com o imprinting – no dizer dos etólogos – e que definem o comportamento adquirido, donde a curiosidade joga um papel muito importante. A presença desta qualidade – em minha opinião – é primordial para o êxito de todo o adestramento.
17/12/10
ENSINO DA TÉCNICA DE INIBIÇÃO DE MORDIDA
EM CACHORROS DESESTRUTURADOS E EM CÃES AGRESSIVOS ADULTOS
É um quadro sempre muito desagradável de ver, e bastante doloroso para quem o sente, os braços de uma senhora, por exemplo, cravejados de vergões e arranhões provocados pelos dentes de um cachorro que, ao excitar-se, “mima” incontroladamente a dona com os dolorosos efeitos provocados pela sua protuberante e contundente dentadura.
No período conturbado que vivemos actualmente, cada vez se está a estigmatizar mais a mordida dos cães. Até um dos critérios que levaram à criação da famigerada lista de cães potencialmente perigosos foi o da potência de mordida. Normalmente, na natureza, os cachorros de Lobo conseguem conter-se em relação à intensidade da mordida nas brincadeiras entre si, uma vez que, assim que um morde mais fortemente o seu parceiro este emite um grito de dor anunciando ao outro que foi longe de mais nas suas pretensas inofensivas brincadeiras.
Nos cachorros do nosso cão doméstico, o desenvolvimento desta aprendizagem é basicamente o mesmo e, normalmente, quando se dá possibilidades e tempo à ninhada para que este processo funcione, o cão aprende que morder pode provocar dor ao próximo e que isso poderá, muitas das vezes, não constituir um reforço, não só porque assim acaba a brincadeira mas também porque o atacado pode-se transformar num forte e destemido atacante, portanto, não é compensador.
Basicamente, é este o princípio que vamos utilizar no nosso trabalho de inibição de mordida, não só em cachorros que não tiveram oportunidade de aprender a técnica, porque foram separados prematuramente do resto dos irmãos, porque nasceram isolados ou por outro motivo qualquer, e em cães agressivos adultos que, pelos mesmos motivos dos cachorros, não sabem que a sua mordida pode ser doseada em função dos objectivos que pretende atingir.
O Conceito
A inibição de mordida é simplesmente a diminuição da quantidade de pressão que o cão realiza com os dentes quando entra em contacto com a nossa pele. Num mundo perfeito os cães aprendem esta técnica durante a sua socialização intra-específica enquanto cachorros, mas muitos não têm essa oportunidade, pelas razões que acima mencionámos. Os nossos objectivos, ao ensinar a técnica de inibição de mordida são vários: este adestramento não só ajuda o cão a compreender a pressão que exerce nas suas mandíbulas, mas também lhe é ensinado a auto-controlar-se em circunstâncias em que se sentirá excitado e estimulado. Além disso podemos utilizar estes jogos para reorientar parte da frustração e da energia física que podem ser os causadores do exacerbar do problema num dado momento.
O Desenvolvimento do processo
Mordidas brandas a médias de níveis 1 a 3
O desenvolvimento da técnica da inibição de mordida em cães adultos com uma potência de nível 1 a 3 (branda a média) pode-se estabelecer criando situações em que iremos proporcionar feedback ao cão. Podemos utilizar objectos em que a nossa mão entra em estreito contacto com os dentes do cão, como é o caso de uma pequena bola ou pequenos pedaços de biscoitos para cão. Para garantir o êxito do processo devemos fazer os exercícios só depois dele comer, já que a sua mordedura será mais suave se não estiver com fome. Pelo contrário, com um cão que não se motiva pela comida, assim como aquele que arranca as coisas das nossas mãos, o exercício obterá melhores resultados se for executado antes da refeição. Devemos permanecer sempre tranquilos enquanto executa-mos os exercícios, excitar o cão pode fazer com que ele perca o controlo da mordida e caminhamos inevitavelmente em direcção ao fracasso.
Utilizamos um truque muito utilizado pelos adestradores de cavalos, mantemos os prémios (bola ou pequenos pedaços de comida) entre as pregas da palma de uma das nossas mãos. Isto obriga o cão a usar os lábios e a língua mais do que os dentes. Só quando o cão aprender totalmente esta fase é que passaremos à seguinte que consiste em lhe oferecer o prémio entre os dedos. Sempre que o cão tocar com os dentes nos nossos dedos, emitimos um grito de dor: “Ai!”, por exemplo, e terminamos o exercício abandonando imediatamente o cão e levando connosco o motivador, se for possível. Continuamos com o exercício até que o cão se mostre obviamente mais sensível nas mandíbulas continuando, ao longo da sua vida, a introduzir intencionalmente os dedos na sua boca quando lhe oferecemos comida ou brinquedos.
Quando o cão já consiga deixar de aplicar pressão, introduzimos ordens de obediência no exercício:
Começamos com níveis muito baixos de excitação, fazemos com que o cão se sente antes de iniciar o exercício. Quando melhorar a sua capacidade de inibição de mordida, podemos fazê-lo com diferentes níveis de excitação. Isto melhora o auto-controlo do cão.
Reciclagem
Se acharmos que uma mordida foi acidental, pensemos que estes são os mesmos animais que conseguem apanhar uma mosca no ar só com um abrir e fechar de boca, portanto, se foi um acidente temos que os ensinar a serem um pouco mais precavidos e cautelosos. Temos que realizar de vez em quando os exercícios aprendidos para que se recordam deles e que não passem ao esquecimento. Têm também a vantagem de os ajudarem a desenvolver a atenção mas tem igualmente efeitos na mordida na vida real que se torna mais controlada e com um nível de intensidade proporcional às necessidades. Se, entretanto, se activa a resposta luta/fuga ou os mecanismos de predação, a inibição de mordida que lhes temos ensinado terá diferentes graus de efeito no resultado da mordida. É uma das consequências do programa de tratamento porque o adestramento também ajuda a melhorar o auto-controlo. Lembramos que, devido à gravidade deste problema, temos que lutar com todas as armas que temos para controlar e minimizar este comportamento.
Mordidas médias a fortes níveis 4 a 6
Desenvolver a técnica de inibição de mordidas de nível 4 a 6 (média a forte) é um assunto totalmente diferente que deve ser efectuado por um profissional competente e com muita experiência nesta área, como tal, e por motivos de segurança, não a incluo neste artigo.
É um quadro sempre muito desagradável de ver, e bastante doloroso para quem o sente, os braços de uma senhora, por exemplo, cravejados de vergões e arranhões provocados pelos dentes de um cachorro que, ao excitar-se, “mima” incontroladamente a dona com os dolorosos efeitos provocados pela sua protuberante e contundente dentadura.
No período conturbado que vivemos actualmente, cada vez se está a estigmatizar mais a mordida dos cães. Até um dos critérios que levaram à criação da famigerada lista de cães potencialmente perigosos foi o da potência de mordida. Normalmente, na natureza, os cachorros de Lobo conseguem conter-se em relação à intensidade da mordida nas brincadeiras entre si, uma vez que, assim que um morde mais fortemente o seu parceiro este emite um grito de dor anunciando ao outro que foi longe de mais nas suas pretensas inofensivas brincadeiras.
Nos cachorros do nosso cão doméstico, o desenvolvimento desta aprendizagem é basicamente o mesmo e, normalmente, quando se dá possibilidades e tempo à ninhada para que este processo funcione, o cão aprende que morder pode provocar dor ao próximo e que isso poderá, muitas das vezes, não constituir um reforço, não só porque assim acaba a brincadeira mas também porque o atacado pode-se transformar num forte e destemido atacante, portanto, não é compensador.
Basicamente, é este o princípio que vamos utilizar no nosso trabalho de inibição de mordida, não só em cachorros que não tiveram oportunidade de aprender a técnica, porque foram separados prematuramente do resto dos irmãos, porque nasceram isolados ou por outro motivo qualquer, e em cães agressivos adultos que, pelos mesmos motivos dos cachorros, não sabem que a sua mordida pode ser doseada em função dos objectivos que pretende atingir.
O Conceito
A inibição de mordida é simplesmente a diminuição da quantidade de pressão que o cão realiza com os dentes quando entra em contacto com a nossa pele. Num mundo perfeito os cães aprendem esta técnica durante a sua socialização intra-específica enquanto cachorros, mas muitos não têm essa oportunidade, pelas razões que acima mencionámos. Os nossos objectivos, ao ensinar a técnica de inibição de mordida são vários: este adestramento não só ajuda o cão a compreender a pressão que exerce nas suas mandíbulas, mas também lhe é ensinado a auto-controlar-se em circunstâncias em que se sentirá excitado e estimulado. Além disso podemos utilizar estes jogos para reorientar parte da frustração e da energia física que podem ser os causadores do exacerbar do problema num dado momento.
O Desenvolvimento do processo
Mordidas brandas a médias de níveis 1 a 3
O desenvolvimento da técnica da inibição de mordida em cães adultos com uma potência de nível 1 a 3 (branda a média) pode-se estabelecer criando situações em que iremos proporcionar feedback ao cão. Podemos utilizar objectos em que a nossa mão entra em estreito contacto com os dentes do cão, como é o caso de uma pequena bola ou pequenos pedaços de biscoitos para cão. Para garantir o êxito do processo devemos fazer os exercícios só depois dele comer, já que a sua mordedura será mais suave se não estiver com fome. Pelo contrário, com um cão que não se motiva pela comida, assim como aquele que arranca as coisas das nossas mãos, o exercício obterá melhores resultados se for executado antes da refeição. Devemos permanecer sempre tranquilos enquanto executa-mos os exercícios, excitar o cão pode fazer com que ele perca o controlo da mordida e caminhamos inevitavelmente em direcção ao fracasso.
Utilizamos um truque muito utilizado pelos adestradores de cavalos, mantemos os prémios (bola ou pequenos pedaços de comida) entre as pregas da palma de uma das nossas mãos. Isto obriga o cão a usar os lábios e a língua mais do que os dentes. Só quando o cão aprender totalmente esta fase é que passaremos à seguinte que consiste em lhe oferecer o prémio entre os dedos. Sempre que o cão tocar com os dentes nos nossos dedos, emitimos um grito de dor: “Ai!”, por exemplo, e terminamos o exercício abandonando imediatamente o cão e levando connosco o motivador, se for possível. Continuamos com o exercício até que o cão se mostre obviamente mais sensível nas mandíbulas continuando, ao longo da sua vida, a introduzir intencionalmente os dedos na sua boca quando lhe oferecemos comida ou brinquedos.
Quando o cão já consiga deixar de aplicar pressão, introduzimos ordens de obediência no exercício:
Começamos com níveis muito baixos de excitação, fazemos com que o cão se sente antes de iniciar o exercício. Quando melhorar a sua capacidade de inibição de mordida, podemos fazê-lo com diferentes níveis de excitação. Isto melhora o auto-controlo do cão.
Reciclagem
Se acharmos que uma mordida foi acidental, pensemos que estes são os mesmos animais que conseguem apanhar uma mosca no ar só com um abrir e fechar de boca, portanto, se foi um acidente temos que os ensinar a serem um pouco mais precavidos e cautelosos. Temos que realizar de vez em quando os exercícios aprendidos para que se recordam deles e que não passem ao esquecimento. Têm também a vantagem de os ajudarem a desenvolver a atenção mas tem igualmente efeitos na mordida na vida real que se torna mais controlada e com um nível de intensidade proporcional às necessidades. Se, entretanto, se activa a resposta luta/fuga ou os mecanismos de predação, a inibição de mordida que lhes temos ensinado terá diferentes graus de efeito no resultado da mordida. É uma das consequências do programa de tratamento porque o adestramento também ajuda a melhorar o auto-controlo. Lembramos que, devido à gravidade deste problema, temos que lutar com todas as armas que temos para controlar e minimizar este comportamento.
Mordidas médias a fortes níveis 4 a 6
Desenvolver a técnica de inibição de mordidas de nível 4 a 6 (média a forte) é um assunto totalmente diferente que deve ser efectuado por um profissional competente e com muita experiência nesta área, como tal, e por motivos de segurança, não a incluo neste artigo.
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