(1ª Parte)
Este é um artigo destinado, primeiro aos criadores que desconhecem que, por exemplo, as manipulações neo-natais, executadas correctamente e na altura certa, podem prevenir futuros problemas comportamentais e, depois, aos futuros donos que deverão continuar e completar a socialização dos cachorros, dentro dos parâmetros correctos e adequados às especificidades de cada animal.
Antes do desmame, a mãe assume uma parte activa no desenvolvimento físico e comportamen-tal dos cachorros, parte essa que se mostrará determinante para o equilíbrio e integração poste-rior destes no seu novo meio social.
Ao ter conhecimento das várias etapas do desenvolvimento comportamental e social dos cachorros, evitam-se um elevado número de erros ou de inconvenientes, sendo devidamente aproveitados os períodos mais favoráveis à aprendizagem ou sensíveis à aversão.
Durante as duas primeiras semanas de idade, é útil verificar o instinto materno da reprodutora (especialmente limpeza dos filhos, indispensável para os seus reflexos de micção e defecação) e vigiar o aleitamento colocando os cachorros menos vigorosos ou os mais subordinados, nas mamas que produzem leite mais rico. Por vezes é necessário controlar as unhas dos cachorros, as quais podem traumatizar as mamas e levar a uma recusa da mãe em fornecer o alimento.
Os etologistas têm por hábito dividir o período de maturação do cachorro em quatro etapas sucessivas:
• O Período pré-natal
Os fetos no útero não estão completamente isolados do meio exterior. O desenvolvimento das técnicas de ecografia permitiu observar as diversas reacções dos fetos, quando se realiza na mãe, uma palpação abdominal a partir da quarta semana de gestação. O seu sentido do tacto desenvolve-se, portanto, muito cedo e nada impede de pensar que sejam sensíveis às carícias que o criador faça à mãe durante a gestação. Da mesma forma, o stress da mãe pode aparen-temente ser sentido pelos cachorros, podendo provocar abortos, atrasos de crescimento intra-uterino, deficiências imunitárias, ou mesmo dificuldades de aprendizagem depois do nascimento. Finalmente, embora o olfacto se desenvolva apenas após o nascimento, parece que a alimentação consumida pela mãe durante a gestação, pode de alguma forma, orientar as posteriores preferências alimentares dos seus cachorros.
• O Período neo-natal
1ª e 2ª Semanas
O período neonatal tem início no nascimento e termina com a abertura das pálpebras. Foi fre-quentemente chamado fase vegetativa uma vez que, exteriormente, a vida dos cachorros parece estar dominada pelo sono e por algumas actividades reflexas. Durante esta fase, o cachorro apenas reage aos estímulos tácteis e move-se em direcção às fontes de calor, rastejando. Este tipo de movimento é possível pelo desenvolvimento do sistema nervoso central que se mieliniza na direcção anterior-posterior, permitindo desta forma, a motricidade dos membros anteriores antes da dos membros posteriores. Para além disso, se excluirmos os fenómenos reflexos, a percepção dolorosa é a última a aparecer no desenvolvimento neurológico, o que explica que as caudectomias possam ser realizadas sem anestesia, durante este período. Ainda sobre este tema, os cachorros que nascem sem cauda, geralmente só adquirem o controlo da defecação muito mais tarde, o que vem reforçar o carácter mutilador deste acto de conveniência, cada vez mais reprovado.
Durante o período neonatal, o criador deverá limitar-se a confinar a mãe e a sua ninhada numa maternidade quente e acolhedora. Se constatar uma falta de instinto materno ou se a ninhada for pouco numerosa, poderá completar os estímulos tácteis dos cachorros explorando a normalidade dos seus reflexos (reflexos de micção, de defecação, de mamar, educação gustativa). Os outros estímulos, (música, brinquedos, cores etc.) realizados por vezes no canil, são ainda inúteis nesta idade e apenas perturbam o sono da ninhada.
Manipulações Neo-natais
Quando acontece o nascimento de uma ninhada, devemos actuar de imediato para assegurar o desenvolvimento intelectual dos cachorros desde o primeiro dia.
Para isso vamos aplicar as seguintes manipulações:
MANIPULAÇÃO E OBSERVAÇÃO NO PERÍODO NEONATAL (PRIMEIRA SEMANA)
1º - Observação da maturação do Sistema Nervoso Central
- Durante os primeiros 4 a 5 dias de vida, o cachorro deve apresentar dominância flexora. Para isso pegamo-lo pela base da cabeça e suspendemo-lo no ar. Ele deve responder flexionando as extremidades, a coluna e a cauda. Acariciar e acercá-lo imediatamente do nosso coração (apesar de ele ainda não ouvir). Passados 15 segundos devolvemo-lo à mãe.
2º - Para controlar as respostas motoras complexas medimos o Reflexo de Magnus. Flexione a cabeça do cachorro para um lado. O animal deve responder estendendo a as patas do lado para o qual se girou a cabeça. Acariciar, coração e mãe (igual ao ponto anterior).
3º - Controlo do reflexo de rooting (movimento exploratório com o focinho em direcção a uma fonte de calor). Colocar a mão (à temperatura normal) em forma de copo, precisamente diante da boca do cachorro. O cachorro deve tentar aproximar-se ou localizar a mão. Este reflexo começa a desaparecer aos quatro dias de vida.
Valorize e qualifique estas manipulações com os graus de: Bom, Regular e Mau
Manipulações diárias
Além das manipulações atrás mencionadas, outras devem servir para que o animal tome contac-to com o criador e a sua família. Nesta semana não é conveniente que as crianças toquem nos cachorros.
Depois de mamar devem-se pegar um a um nos cachorros, colocá-los sobre o nosso peito nu, encostados ao nosso coração. Fala-se-lhes com voz calma e de baixa intensidade. Em fundo coloca-se uma música suave (se possível sinfónica) de Mozart ou Chopin. Esta manipulação deve demorar uns 20 minutos por cachorro. É preferível que seja feita por um homem uma vez que o seu timbre e tom de voz são mais baixos. Neste momento os cachorros ainda não ouvem mas são sensíveis às vibrações ambientais.
Antes de irmos para a cama pegamos um a um nos cachorros, deitamo-nos e encostamo-los à nossa boca ao mesmo tempo que exalamos suavemente ar quente sobre a sua trufa. Acaricia-mo-los contra o pêlo e devolvemos à mãe.
Ao levantar de manhã acercamo-nos da caixa fazendo-o com o ruído normal acompanhado de um suave bater de palmas. Excepto durante as manipulações, os cachorros não devem ser importunados durante o dia. O bater de palmas também pode ser substituído por assobios.
OBJECTIVOS:
- Aumento da conduta exploratória;
- Maior desenvolvimento da capacidade de aprendizagem;
- Estimulação do sistema imunológico
MANIPULAÇÃO E OBSERVAÇÃO NO PERÍODO NEONATAL (SEGUNDA SEMANA)
1. Preparação para o período de transição
Há que procurar a simultaneidade entre a estimulação ano-genital por parte da mãe com umas carícias na cabeça a favor do pêlo. Uma vez ao dia por cachorro é o suficiente.
2. Desenvolvimento da conduta exploratória
Durante esta segunda semana mantemos todas as manipulações da primeira, excepto os testes psicomotores. Ainda que, o reflexo de rooting comece a desaparecer a partir do 4º dia, devemos continuar a estimulá-lo para aumentar o gregarismo inter-específico connosco. Uma vez por cachorro. Esta manipulação faz com que o animal, ainda que só se possa arrastar sobre os quartos traseiros, siga a fonte de calor.
3. Diminuição da tendência à emocionalidade.
Ainda que o cachorro abra os condutos auditivos entre o 11º e 14º dia e não comece a reconhe-cer estímulos auditivos até ao 19º - 20º dia, é necessário que introduzamos no seu meio ambien-te estímulos de alta frequência. Para isso utiliza-se um apito de ultra-sons que será usado quan-do o animal estiver a receber outros estímulos agradáveis (alimentação, estimulação ano-genital, etc.). Esta manipulação pode-se fazer em grupo procurando que todos os cachorros estejam despertos. Nesta altura o sono tipo REM deve ser respeitado na medida do possível.
Deve-se ir aumentando a intensidade e frequência do bater de palmas, assobios e qualquer outro som “normal”.
OBJECTIVOS COMPLEMENTARES
- Diminuição da conduta de medo no futuro período sensível;
- Resposta adrenocortical mais flexível e adaptada ao factor stress;
- Aumento da velocidade de crescimento.
11/10/10
10/09/10
ELIMINAÇÃO INADEQUADA
• Definição
Se um cão, durante uma semana, faz as necessidades no tapete, na carpete ou no chão da cozinha ou da sala, qual poderá ser a causa deste distúrbio comportamental? Marcação territorial? Micção por submissão? Ansiedade por separação? Pode ser uma destas condutas, nenhuma ou várias. Pode ser simplesmente que o cão está a chamar a atenção porque houve alterações à rotina e o dono não passa tempo suficiente com ele. Também poderá tratar-se de uma pequena infecção urinária de que o dono não se tenha dado conta e, neste caso, um antibiótico solucionará o problema. Portanto, a solução não passa pelo clássico esfregar do focinho do cão na urina ou nas fezes para lhe “dizer” que não devia ter feito naquele local.
O que queremos dizer é que este é um problema de conduta multifactorial e que nem todos os casos obedecem às mesmas causas. Portanto, devemos analisar caso a caso individualmente e não cair em estereótipos que pela parecença e similitudes com outros casos possamos cair no erro de fazer diagnósticos errados interferindo assim no êxito do tratamento.
A eliminação inadequada é um problema maior para o dono do que para o cão. O animal tem que fazer as suas necessidades e, logicamente, o facto de as fazer num local ou noutro é um problema nosso, sobretudo por questões higiénicas e deterioração do mobiliário e portas.
Por um lado, este problema é tão importante uma vez que é um dos primeiros que levam ao abandono do animal ou provocar a sua eutanásia. Por outro, é mais fácil proceder dessa forma do que solicitar uma consulta especializada em comportamento.
Portanto, é responsabilidade do profissional fazer um diagnóstico adequado que lhe permita levar a cabo um tratamento correcto e uma monitorização exaustiva de todo o processo, com a finalidade de se assegurar do seu correcto funcionamento. Assim, se o tratamento não está a ser eficaz, estaremos a tempo de o reorientar ou reajustar.
• Diagnóstico
Como dissemos anteriormente é muito importante chegar a um diagnóstico correcto, não só para um eficaz tratamento, mas também pela implicação afectiva subjacente à possibilidade de um triste final.
Para o profissional, o êxito no diagnóstico baseia-se num conhecimento o mais profundo possível da situação, incluindo visitas ao domicílio se achar necessário. Não se devem esquecer alguns factores como a existência de outros cães em casa, se o animal tem vindo a eliminar correctamente antes dos episódios, se o faz na presença ou ausência do dono ou se existem possíveis estímulos causadores de medo no animal.
Portanto, dentro do diagnóstico diferencial devemos incluir as razões médicas como primeiro motivo causal. Dentro delas devemos considerar todas as doenças que interfiram com a poliúria ou polaciúria, incluindo enfermidades do trato urinário, renal, problemas endócrinos e neurológicos. Também há que ter em conta a defecção inadequada, que ainda que menos frequente representa uma percentagem importante de eliminações inadequadas. Neste caso teríamos que considerar problemas gastrointestinais como parasitas, infecções bacterianas e víricas, alergia alimentar, corpos estranhos, obstrução intestinal, mudanças alimentares ou ambiente, mudanças na mobilidade intestinal derivadas da idade, assim como dor na coluna ou nas articulações.
Em relação às causas não orgânicas e que se supõe que sejam um problema comportamental em si, destacamos as seguintes:
Aprendizagem inadequada ou falta de aprendizagem
Considera-se que um cão não aprendeu correctamente a conduta de eliminação quando, com mais de 6 meses e ocasionalmente faz as necessidades em casa, não passou mais de um mês seguido fazendo unicamente fora e este comportamento acontece tanto na presença como na ausência do dono. Estes cães quando em cachorros não aprenderam correctamente ou podem ter desenvolvido uma preferência por um certo tipo de local inadequado. Outros cães que foram adoptados, ao levá-los ao local adequado, contrariamente ao que nós pensamos, preferem eliminar em casa.
Acesso insuficiente
Os cães que já têm um esquema adequado de eliminação podem voltar a fazê-lo em zonas indevidas por mudanças na rotina do dono ou por restrição de acesso a essas zonas. Isto é especialmente importante em cães velhos, já que não têm a mesma frequência de eliminações. Também se dá no caso de cães demasiado tímidos ou medrosos, que por ansiedade em determinados ambientes, não eliminam até que não estejam tranquilos.
Há que recordar que em casos de acesso insuficiente, o cão, por necessidade, eliminará em qualquer sítio.
Preferência por um local
A preferência por um local concreto para a eliminação começa a desenvolver-se por volta das 8-9 semanas de idade. É o momento para o ensinar a discriminar entre os locais permitidos e os proibidos. Um caso especial é ensiná-los a eliminar à ordem.
Ansiedade por separação.
É um dos sintomas que o cão pode apresentar nos transtornos relacionados com a separação de algum dos membros da família. Para que possa ser considerado como ansiedade por separação tem que se dar nas seguintes circunstâncias:
• Que a conduta de eliminação aconteça quando o dono ou algum dos membros da família não estão em casa;
• Nunca o fazem com o dono em casa;
• Sabe-se que o animal teve uma aprendizagem adequada em relação à eliminação;
• Não há nenhuma causa médica;
• As mudanças de rotina são menos importantes que a presença ou ausência do dono
• Existem outros comportamentos inadequados como destruição.
Marcação
É um comportamento facilitado social e hormonalmente. É especialmente frequente em machos inteiros.
Nas fêmeas é menos comum o comportamento de marcação através de urina, ainda que, se estão em cio efectuam padrões de urina mais frequentemente, em menores quantidades e geralmente diante de outras fêmeas e machos.
A marcação frequente com urina está relacionada com o estabelecimento da posição dentro da hierarquia do grupo. Quando um cão marca há que fazer uma análise muito detalhada de todas as interacções sociais do animal. Pode ser também um sinal de dominância, de agressividade ou de ansiedade.
A marcação com fezes é menos frequente que com urina, tanto em fêmeas como em machos.
Micção por submissão
Acontece com frequência em cachorros, fêmeas jovens e cães castigados inconsistentemente. Pode-se evitar ignorando esta conduta e premiando outras incompatíveis com a mesma. Sobretudo não se devem adoptar posturas demasiado dominantes com o animal. Sendo assim o uso do castigo é desaconselhado já que o cão, não entendendo o que queremos dele, fortalecerá a conduta e esta tende a perpetuar-se no tempo.
Há que procurar eliminar bem o odor, sobretudo em cães que não aprenderam a eliminar adequadamente, porque cheirar a sua própria urina estimula-os a fazer continuamente no mesmo local.
Micção por excitação
É frequente em cães jovens que todavia não têm controlo sobre os esfíncteres. Quanto mais excitação lhes provocamos, mais fortalecido aparecerá o problema. A urina não se evacua numa postura correcta, mas enquanto o cão anda ou salta. Há que reforçar as condutas compatíveis com a tranquilidade e a relaxação, assim como o exercício físico.
Micção por medo
Produz-se por uma contracção dos músculos da bexiga e do cólon devido ao medo extremo. Para a diferenciar da micção por submissão, esta micção e defecação deve ir acompanhada por outros sinais de medo, como taquicardia, taquipnéia (aumento da frequência respiratória), pelo eriçado, midríase (dilatação do diâmetro da pupila ocular) ou salivação.
Para eliminar este comportamento há que tratar da causa do medo, programas de alteração de conduta e medicação se for necessário.
Chamar à atenção
Acontece em cães que tentam chamar à atenção do seu dono eliminando no interior da casa, para que sejam levados para o exterior ou simplesmente para serem notados.
Incontinência de cães velhos dependente de estrogénios, ou Disfunção Cognitiva
Dá-se em fêmeas esterilizadas ou em cães de idade avançada, enquanto estão despertos ou relaxados. Não têm cabimento, aqui, as medidas de alteração de comportamento nem o castigo. Podem ser usados medicamentos que aumentem a funcionalidade do esfíncter.
• Tratamento
O tratamento deste problema de comportamento pode ser interminável e de difícil correcção se não estivermos na posse de um diagnóstico correcto e não tenhamos realizado uma análise suficientemente exaustiva do problema.
Os princípios gerais do tratamento a considerar são três:
• Eliminar a possibilidade do cão fazer as suas necessidades dentro de casa;
• Proporcionar-lhe frequentes oportunidades para a eliminação;
• Fazer da eliminação, num local adequado, algo muito agradável para o cão.
Quanto às causas médicas, supostamente o começo está em diagnosticá-las definitivamente, mediante exames complementares e tratá-las devidamente.
Se foi diagnosticada uma eliminação inadequada por falta de aprendizagem, o tratamento será canalizado para começar do zero e conseguir que o cão entenda que o local adequado para eliminar é fora de casa e a umas horas certas. Não se deve usar o castigo, sobretudo inconsequente.
Os cães velhos que sofrem de disfunção cognitiva, dores nas articulações ou incontinência dependente de estrogenios, devem-se tratar com medicação adequada. Neste caso pouco podem fazer as medidas de actuação, ainda que pode servir, em determinados cães, facilitar-lhes o acesso às zonas de eliminação tornando-as mais curtas e mais fáceis, como por exemplo não ter que subir ou descer escadas.
Nos casos de micção por submissão ou por excitação o que mais ajuda é precisamente evitar as situações nas quais o cão se sente ameaçado ou excitado, por exemplo quando nos aproximamos dele ou quando lhe colocamos a coleira. É muito difícil convencer um dono de que não se deve aproximar do seu cão ou, nalgumas ocasiões, nem olhá-lo, mas isto é parte fundamental da solução deste problema. Em casos muito específicos, ou naqueles em que o cão foi sistematicamente castigado, deve-se incluir a medicação no programa de tratamento.
O tratamento nos casos diagnosticados como ansiedade por separação, deve-se aplicar um programa específico para o tratamento desta patologia comportamental.
Por último, se se trata de marcação, devemos estabelecer programas de correcção comportamental relacionadas com a causa principal: estabelecimento de estatuto hierárquico condizente com a posição do cão no seio da matilha humana, diminuição da ansiedade por um estatuto indefinido ou castigos indiscriminados e castração ou fármacos nos casos em que se diagnostiquem como medidas úteis de tratamento.
Em resumo
Como mencionámos anteriormente, este é um problema que tem solução, mas esta passa irremediavelmente pela aplicação do dono num plano de tratamento que lhe seja sugerido.
Como o cão ainda não aprendeu a falar como efeito da domesticação – agradecemos tal ainda não ter acontecido – não podemos explicar-lhe com palavras onde queremos que faça as suas necessidades. Portanto, teremos que utilizar os princípios básicos da aprendizagem animal e sobretudo toda a paciência, muita e muita paciência. O dono não deve entrar em desespero mas ver positivamente todos os avanços, por muito pequenos que sejam, e comunicar ao terapeuta qualquer mudança não esperada no plano de tratamento, na sua rotina ou na atitude do seu cão.
O dono tem que ter em conta que tem um cão que em cachorro habituou-se a um certo local e modo de vida, e que, se decidiu adquiri-lo é porque pesou os prós e os contras. Mas também é verdade: Que aborrecido seria ter-mos um cão robot!
Se um cão, durante uma semana, faz as necessidades no tapete, na carpete ou no chão da cozinha ou da sala, qual poderá ser a causa deste distúrbio comportamental? Marcação territorial? Micção por submissão? Ansiedade por separação? Pode ser uma destas condutas, nenhuma ou várias. Pode ser simplesmente que o cão está a chamar a atenção porque houve alterações à rotina e o dono não passa tempo suficiente com ele. Também poderá tratar-se de uma pequena infecção urinária de que o dono não se tenha dado conta e, neste caso, um antibiótico solucionará o problema. Portanto, a solução não passa pelo clássico esfregar do focinho do cão na urina ou nas fezes para lhe “dizer” que não devia ter feito naquele local.
O que queremos dizer é que este é um problema de conduta multifactorial e que nem todos os casos obedecem às mesmas causas. Portanto, devemos analisar caso a caso individualmente e não cair em estereótipos que pela parecença e similitudes com outros casos possamos cair no erro de fazer diagnósticos errados interferindo assim no êxito do tratamento.
A eliminação inadequada é um problema maior para o dono do que para o cão. O animal tem que fazer as suas necessidades e, logicamente, o facto de as fazer num local ou noutro é um problema nosso, sobretudo por questões higiénicas e deterioração do mobiliário e portas.
Por um lado, este problema é tão importante uma vez que é um dos primeiros que levam ao abandono do animal ou provocar a sua eutanásia. Por outro, é mais fácil proceder dessa forma do que solicitar uma consulta especializada em comportamento.
Portanto, é responsabilidade do profissional fazer um diagnóstico adequado que lhe permita levar a cabo um tratamento correcto e uma monitorização exaustiva de todo o processo, com a finalidade de se assegurar do seu correcto funcionamento. Assim, se o tratamento não está a ser eficaz, estaremos a tempo de o reorientar ou reajustar.
• Diagnóstico
Como dissemos anteriormente é muito importante chegar a um diagnóstico correcto, não só para um eficaz tratamento, mas também pela implicação afectiva subjacente à possibilidade de um triste final.
Para o profissional, o êxito no diagnóstico baseia-se num conhecimento o mais profundo possível da situação, incluindo visitas ao domicílio se achar necessário. Não se devem esquecer alguns factores como a existência de outros cães em casa, se o animal tem vindo a eliminar correctamente antes dos episódios, se o faz na presença ou ausência do dono ou se existem possíveis estímulos causadores de medo no animal.
Portanto, dentro do diagnóstico diferencial devemos incluir as razões médicas como primeiro motivo causal. Dentro delas devemos considerar todas as doenças que interfiram com a poliúria ou polaciúria, incluindo enfermidades do trato urinário, renal, problemas endócrinos e neurológicos. Também há que ter em conta a defecção inadequada, que ainda que menos frequente representa uma percentagem importante de eliminações inadequadas. Neste caso teríamos que considerar problemas gastrointestinais como parasitas, infecções bacterianas e víricas, alergia alimentar, corpos estranhos, obstrução intestinal, mudanças alimentares ou ambiente, mudanças na mobilidade intestinal derivadas da idade, assim como dor na coluna ou nas articulações.
Em relação às causas não orgânicas e que se supõe que sejam um problema comportamental em si, destacamos as seguintes:
Aprendizagem inadequada ou falta de aprendizagem
Considera-se que um cão não aprendeu correctamente a conduta de eliminação quando, com mais de 6 meses e ocasionalmente faz as necessidades em casa, não passou mais de um mês seguido fazendo unicamente fora e este comportamento acontece tanto na presença como na ausência do dono. Estes cães quando em cachorros não aprenderam correctamente ou podem ter desenvolvido uma preferência por um certo tipo de local inadequado. Outros cães que foram adoptados, ao levá-los ao local adequado, contrariamente ao que nós pensamos, preferem eliminar em casa.
Acesso insuficiente
Os cães que já têm um esquema adequado de eliminação podem voltar a fazê-lo em zonas indevidas por mudanças na rotina do dono ou por restrição de acesso a essas zonas. Isto é especialmente importante em cães velhos, já que não têm a mesma frequência de eliminações. Também se dá no caso de cães demasiado tímidos ou medrosos, que por ansiedade em determinados ambientes, não eliminam até que não estejam tranquilos.
Há que recordar que em casos de acesso insuficiente, o cão, por necessidade, eliminará em qualquer sítio.
Preferência por um local
A preferência por um local concreto para a eliminação começa a desenvolver-se por volta das 8-9 semanas de idade. É o momento para o ensinar a discriminar entre os locais permitidos e os proibidos. Um caso especial é ensiná-los a eliminar à ordem.
Ansiedade por separação.
É um dos sintomas que o cão pode apresentar nos transtornos relacionados com a separação de algum dos membros da família. Para que possa ser considerado como ansiedade por separação tem que se dar nas seguintes circunstâncias:
• Que a conduta de eliminação aconteça quando o dono ou algum dos membros da família não estão em casa;
• Nunca o fazem com o dono em casa;
• Sabe-se que o animal teve uma aprendizagem adequada em relação à eliminação;
• Não há nenhuma causa médica;
• As mudanças de rotina são menos importantes que a presença ou ausência do dono
• Existem outros comportamentos inadequados como destruição.
Marcação
É um comportamento facilitado social e hormonalmente. É especialmente frequente em machos inteiros.
Nas fêmeas é menos comum o comportamento de marcação através de urina, ainda que, se estão em cio efectuam padrões de urina mais frequentemente, em menores quantidades e geralmente diante de outras fêmeas e machos.
A marcação frequente com urina está relacionada com o estabelecimento da posição dentro da hierarquia do grupo. Quando um cão marca há que fazer uma análise muito detalhada de todas as interacções sociais do animal. Pode ser também um sinal de dominância, de agressividade ou de ansiedade.
A marcação com fezes é menos frequente que com urina, tanto em fêmeas como em machos.
Micção por submissão
Acontece com frequência em cachorros, fêmeas jovens e cães castigados inconsistentemente. Pode-se evitar ignorando esta conduta e premiando outras incompatíveis com a mesma. Sobretudo não se devem adoptar posturas demasiado dominantes com o animal. Sendo assim o uso do castigo é desaconselhado já que o cão, não entendendo o que queremos dele, fortalecerá a conduta e esta tende a perpetuar-se no tempo.
Há que procurar eliminar bem o odor, sobretudo em cães que não aprenderam a eliminar adequadamente, porque cheirar a sua própria urina estimula-os a fazer continuamente no mesmo local.
Micção por excitação
É frequente em cães jovens que todavia não têm controlo sobre os esfíncteres. Quanto mais excitação lhes provocamos, mais fortalecido aparecerá o problema. A urina não se evacua numa postura correcta, mas enquanto o cão anda ou salta. Há que reforçar as condutas compatíveis com a tranquilidade e a relaxação, assim como o exercício físico.
Micção por medo
Produz-se por uma contracção dos músculos da bexiga e do cólon devido ao medo extremo. Para a diferenciar da micção por submissão, esta micção e defecação deve ir acompanhada por outros sinais de medo, como taquicardia, taquipnéia (aumento da frequência respiratória), pelo eriçado, midríase (dilatação do diâmetro da pupila ocular) ou salivação.
Para eliminar este comportamento há que tratar da causa do medo, programas de alteração de conduta e medicação se for necessário.
Chamar à atenção
Acontece em cães que tentam chamar à atenção do seu dono eliminando no interior da casa, para que sejam levados para o exterior ou simplesmente para serem notados.
Incontinência de cães velhos dependente de estrogénios, ou Disfunção Cognitiva
Dá-se em fêmeas esterilizadas ou em cães de idade avançada, enquanto estão despertos ou relaxados. Não têm cabimento, aqui, as medidas de alteração de comportamento nem o castigo. Podem ser usados medicamentos que aumentem a funcionalidade do esfíncter.
• Tratamento
O tratamento deste problema de comportamento pode ser interminável e de difícil correcção se não estivermos na posse de um diagnóstico correcto e não tenhamos realizado uma análise suficientemente exaustiva do problema.
Os princípios gerais do tratamento a considerar são três:
• Eliminar a possibilidade do cão fazer as suas necessidades dentro de casa;
• Proporcionar-lhe frequentes oportunidades para a eliminação;
• Fazer da eliminação, num local adequado, algo muito agradável para o cão.
Quanto às causas médicas, supostamente o começo está em diagnosticá-las definitivamente, mediante exames complementares e tratá-las devidamente.
Se foi diagnosticada uma eliminação inadequada por falta de aprendizagem, o tratamento será canalizado para começar do zero e conseguir que o cão entenda que o local adequado para eliminar é fora de casa e a umas horas certas. Não se deve usar o castigo, sobretudo inconsequente.
Os cães velhos que sofrem de disfunção cognitiva, dores nas articulações ou incontinência dependente de estrogenios, devem-se tratar com medicação adequada. Neste caso pouco podem fazer as medidas de actuação, ainda que pode servir, em determinados cães, facilitar-lhes o acesso às zonas de eliminação tornando-as mais curtas e mais fáceis, como por exemplo não ter que subir ou descer escadas.
Nos casos de micção por submissão ou por excitação o que mais ajuda é precisamente evitar as situações nas quais o cão se sente ameaçado ou excitado, por exemplo quando nos aproximamos dele ou quando lhe colocamos a coleira. É muito difícil convencer um dono de que não se deve aproximar do seu cão ou, nalgumas ocasiões, nem olhá-lo, mas isto é parte fundamental da solução deste problema. Em casos muito específicos, ou naqueles em que o cão foi sistematicamente castigado, deve-se incluir a medicação no programa de tratamento.
O tratamento nos casos diagnosticados como ansiedade por separação, deve-se aplicar um programa específico para o tratamento desta patologia comportamental.
Por último, se se trata de marcação, devemos estabelecer programas de correcção comportamental relacionadas com a causa principal: estabelecimento de estatuto hierárquico condizente com a posição do cão no seio da matilha humana, diminuição da ansiedade por um estatuto indefinido ou castigos indiscriminados e castração ou fármacos nos casos em que se diagnostiquem como medidas úteis de tratamento.
Em resumo
Como mencionámos anteriormente, este é um problema que tem solução, mas esta passa irremediavelmente pela aplicação do dono num plano de tratamento que lhe seja sugerido.
Como o cão ainda não aprendeu a falar como efeito da domesticação – agradecemos tal ainda não ter acontecido – não podemos explicar-lhe com palavras onde queremos que faça as suas necessidades. Portanto, teremos que utilizar os princípios básicos da aprendizagem animal e sobretudo toda a paciência, muita e muita paciência. O dono não deve entrar em desespero mas ver positivamente todos os avanços, por muito pequenos que sejam, e comunicar ao terapeuta qualquer mudança não esperada no plano de tratamento, na sua rotina ou na atitude do seu cão.
O dono tem que ter em conta que tem um cão que em cachorro habituou-se a um certo local e modo de vida, e que, se decidiu adquiri-lo é porque pesou os prós e os contras. Mas também é verdade: Que aborrecido seria ter-mos um cão robot!
11/08/10
INGESTÃO INADEQUADA - Alimentação Estranha – Coprogafia – Objectos
Por ser sempre um tema que causa grande angústia aos donos, a Ingestão Inadequada deve ser tratada com a devida cautela e com o rigor que, como todos os temas em que pode estar a vida do animal em causa, deve ser abordado. Como em todas as patologias, comportamentais ou fisiologias, a prevenção é sempre o melhor meio para serem combatidas. Sendo assim, decidi escrever este artigo, não só para ajudar todos os donos a prevenirem-se contra este pesadelo, mas também ajudar aqueles que, já estando confrontados com ele, o possam tratar da melhor forma possível, dispondo de todos os mecanismos existentes neste momento para o combater. De qualquer maneira, é sempre importante o acompanhamento de um profissional com conhecimentos nesta área.
• Alimentação Estranha
Um cão deve saber recusar sempre a comida que não lhe tenha sido oferecida pelo dono ou pelos familiares que com ele convivem. Este hábito pode salvar-lhe a vida.
Por razões evidentes, ensinar a recusar a comida é um dos pontos essenciais no adestramento dos cães, principalmente de cães que também são utilizados como guarda, já que, infelizmente, cada vez e com mais frequência é utilizada a bola de carne envenenada por ladrões, intrusos ou até, por vizinhos moralmente mal formados desejosos de se livrarem de um animal ruidoso ou de que não gostam.
Regras Básicas
Para se conseguir obter um bom resultado é necessário respeitar escrupulosamente certas regras, mesmo antes de ensinar um cão a recusar alimento oferecido por um estranho:
- O cão deve estar bem alimentado com uma comida de qualidade que lhe proporcione todos os nutrientes necessários.
- Nunca se deve dar comida ao cão fora das horas de refeições.
- Não lhe dar comida quando se está sentado à mesa. Se o cão perder o hábito de mendigar comida, deixará comer tranquilamente os donos e permanecerá no seu lugar.
- Não deixar os amigos ou convidados oferecer guloseimas ao cão. Os Veterinários têm por hábito oferecer aos cães, que estão em consulta, guloseimas para lhes conquistar a confiança. Esse procedimento não deve ser permitido pelo dono.
- Dar de comer ao cão sempre no mesmo comedouro, à mesma hora e no mesmo local.
- Não dar de comer com a mão.
- Não o deixar ingerir comida abandonada durante os passeios (o cão ao passear deve andar com a cabeça levantada e não a farejar permanentemente o solo).
Apenas quando o cão e o dono tiverem adquirido estes hábitos se pode iniciar o treino para que o cão recuse comida que um estranho lhe ofereça.
O Início
Deve iniciar-se o treino por volta dos dez, doze meses, quando o animal já estiver habituado ao seu horário de refeições e aprendeu as regras elementares de obediência, pelo que já responde correctamente, às ordens de sentado, deitado, quieto, larga e vem à chamada. Existem vários métodos de treino mas todos têm uma regra comum: nunca abandonar um cão perante um fracasso. O objectivo é que o cão desconfie perante qualquer guloseima ou alimento que encontre casualmente ou lhe seja oferecido por alguém que não sejam os donos.
O Treino
Para o treino deste problema comportamental somos forçados a utilizar o Castigo Positivo uma vez que pode estar em causa a vida do animal.
É necessária uma pessoa desconhecida do cão. Será encarregue de dar ou lançar alimentos que devem surpreender desagradavelmente o animal: pedaços com pimenta, com mostarda forte, com malaguetas, com óleo de rícino; alimentos que estejam unidos à ponta de um elástico que lhe baterá no focinho ao morder e puxar
Para dissuadir o cão de comer alimento abandonado no solo, existem vários métodos: colocar comida sobre um ratoeira dissimulada com ervas ou terra, unir a bola de carne a latas de refrigerante que cairão sobre o cão ao puxar a comida com os dentes, etc.
Não obstante, não há cães infalíveis, pelo que há que ter em conta que se durante os seus passeios um cão encontra habitualmente o mesmo tipo de comida, pode acostumar-se a ela e esquecer os efeitos nocivos que o comê-la lhe poderiam provocar. Por isso, voltamos a lembrar, que é importante acostumar o cão a não ingerir nada que não lhe tenha sido dado pelo dono, sendo assim, também não é superficial insistir que o cão não coma fora do sítio ou das suas horas habituais, dando-lhe sempre uma ração suficiente e alta qualidade, se bem que não excessiva, de maneira a que evite a obesidade e não passe fome o resto do dia.
Podemos igualmente utilizar um processo mais soft, que consiste em pedirmos a uma pessoa desconhecida para o cão que atire um pedaço de alimento apetitoso enquanto andamos a passear o cão à trela, primeiro fora e depois dentro do quintal, e na altura em que o cão vai para o comer, devemos dar um puxão forte na trela e repreender o cão com um “NÃO” forte e depois, quando já se tiver desligado do estímulo, recompensá-lo com uma carícia e um suave “MUITO BEM”. Pode-se também utilizar este método quando o passeamos na rua e ele fica tentado a comer algo que encontrou no chão junto a um caixote do lixo.
Qualquer que seja o método, é conveniente praticar o treino em diversos locais, como a casa, o jardim, a rua ou o carro, e em diferentes situações e com alimentos diversos.
A recusa de comida constitui em alguns países uma prova que se pratica em concursos de trabalho. Para isso, colocam-se diferentes tipos de comida nos lugares que o juiz determinar, sendo sempre suficientemente grandes para serem claramente visíveis e apetitosas, tais como: carne crua ou guisada, ossos, peixe, queijo, bolos, açúcar, etc., o cão deve efectuar o seu percurso sem comer nem lamber nenhuma das comidas.
Em seguida, o cão deve permanecer quieto e recusar pedaços de comida atirados de uma distância de 3 metros sem estar presente o proprietário. Concluída a prova, o cão é chamado pelo nome e deve correr para o lado do seu guia. Durante toda a prova, o cão não pode demonstrar medo ou agressividade.
• Coprofagia
A coprofagia é um comportamento anómalo que se traduz no acto de os cães ingerirem as suas próprias fezes ou as de outros animais.
Este comportamento só é normal em mães em fase de amamentação que ingerem as fezes e urina dos seus cachorros com o objectivo de limpar o ninho e de evitar a propagação de odores a fim de não atraírem os predadores. Em todas as outras situações este é um comportamento anormal mas não patológico.
Causas
As causas deste comportamento podem ser várias, sendo que, os próprios investigadores não são unânimes nas suas conclusões. De seguida descrevemos as teorias definidas pelos referidos investigadores
- Enfermidades tais: como parasítoses, intoxicação por chumbo, insuficiência pancreática e qualquer processo que afecte a amígdala que é a estrutura do SNC (Sistema Nervoso Central) encarregue da selecção de alimento. Como exemplo deste último temos o vírus da raiva, que por vezes se aloja neste órgão.
- Carência de elementos nutritivos como o ferro, vitamina B ou zinco
- Conduta reforçada pelo dono. O cão fá-lo para chamar a atenção do dono ou para evitar ser castigado se este vê as fezes.
- Pode igualmente dever-se ao ambiente vivido pelos cachorros durante a amamentação. Isto implicaria que o cachorro fixa comportamentos como o de estar em ambiente sujo da caixa parideira e comendo no mesmo local, como tal associa as fezes à ingestão de alimentos. Por vezes também as poderá associar a condutas exploratórias e lúdicas mordendo-as e jogando com elas. Também se tem especulado com a ideia de que associe o hálito da mãe que ingere as fezes, com o odor da comida.
- Situações de deficiência nutricional, má nutrição ou fome. É suposto que em condições em que o cachorro esteja mal alimentado ou com fome ingira as suas fezes para sobreviver. Assim como uma dieta desequilibrada ou de baixa qualidade poderia influir numa conduta de ingestão das próprias fezes ou de outros.
- Como meio de aproveitar enzimas digestivas presentes nas fezes como é o caso do ácido deoxicólico que diminui o risco de enterites e facilita a assimilação dos ácidos gordos.
- Resposta a situações de stress devidas a confinamento a espaços reduzidos com total ausência de estímulos, e a consequente restrição de movimentos e de interacção social.
Tratamento
Em primeiro lugar deve de se fazer um check-up total ao cão para despistar eventuais problemas orgânicos que possam existir.
No caso das funções orgânicas se encontrarem em perfeitas condições e que tenha sido descartado também a possível causa de uma alimentação deficitária ou de baixa qualidade, centrar-nos-emos nas outras possíveis causas deste comportamento.
Ao animal deve ser proporcionado um ambiente rico em jogos interactivos, uma rotina fixa que inclua saídas ao exterior para fazer as suas necessidades e adestramento em obediência com enfoque no comando “larga”.
Como é lógico o ambiente do cão deve ser o mais higiénico possível eliminando as fezes rapidamente. Se temos vários cães seria útil utilizarmos uma câmara de vídeo para podermos averiguar o causador ou responsável por esta conduta.
Para eliminar este comportamento utiliza-se o fenómeno da aversão alimentar que consiste no seguinte: cobre-se as fezes com uma substância desagradável para o animal, quer seja pelo odor ou pelo sabor e que provoque vómitos ou dores abdominais. As consequências gastrointestinais subsequentes sofridas pelo cão devido à ingestão das fezes cobertas por esses produtos, farão com que o animal condicione que sofrerá consequências se as ingerir e não queira provar de novo.
Conclusão
O tema é muito polémico mesmo entre os estudiosos da matéria. Não há receitas milagrosas o que deve haver é um cuidado emergente em proporcionar ao cão o máximo de estímulos positivos e que viva num meio o mais higiénico possível.
• Objectos
Pedras, bolas, meias de senhora, peúgas, pedaços de sapato, trapos, brinquedos, objectos em plástico, etc., são objectos que poderão ser engolidos por um animal com graves consequências para a sua saúde se não forem rapidamente retirados, muitas das vezes cirurgicamente. Para evitar este grave problema, é uma boa prática treinar o cão a reconhecer e evitar engolir esses objectos.
Treino
Devido à sua gravidade, vamos utilizar novamente o Castigo Positivo como método de adestramento e, basicamente, o treino é idêntico ao segundo processo de treino de rejeição de alimentação estranha. Assim, vamos proceder da seguinte forma:
Dispomos pelo chão uma série de objectos que sabemos que o cão gosta mas que não deve engolir. Colocamos-lhe a trela e propositadamente aproximamo-nos dos objectos e, na altura em que o cão vai para os cheirar, devemos dar um puxão forte na trela e repreender o cão com um “NÃO” forte e depois, quando já se tiver desligado do estímulo, recompensá-lo com uma carícia e um suave “MUITO BEM”. Pode-se também utilizar este método quando o passeamos na rua e ele fica tentado a engolir algo que encontrou no chão.
Como todos os treinos, este só é eficaz quando repetido muitas vezes até o cão ter a percepção de que nem tudo serve para comer.
Conclusões
A ingestão inadequada de alimentos, fezes ou objectos é uma patologia comportamental grave, mas com uma taxa de sucesso no seu tratamento bastante alta. Cabe ao terapeuta e fundamentalmente ao dono, adoptarem os procedimentos correctos e, não desanimarem perante algum fracasso que possa aparecer durante o processo de resolução do problema, uma vez que na grande maioria dos casos está em jogo a própria vida do animal.
• Alimentação Estranha
Um cão deve saber recusar sempre a comida que não lhe tenha sido oferecida pelo dono ou pelos familiares que com ele convivem. Este hábito pode salvar-lhe a vida.
Por razões evidentes, ensinar a recusar a comida é um dos pontos essenciais no adestramento dos cães, principalmente de cães que também são utilizados como guarda, já que, infelizmente, cada vez e com mais frequência é utilizada a bola de carne envenenada por ladrões, intrusos ou até, por vizinhos moralmente mal formados desejosos de se livrarem de um animal ruidoso ou de que não gostam.
Regras Básicas
Para se conseguir obter um bom resultado é necessário respeitar escrupulosamente certas regras, mesmo antes de ensinar um cão a recusar alimento oferecido por um estranho:
- O cão deve estar bem alimentado com uma comida de qualidade que lhe proporcione todos os nutrientes necessários.
- Nunca se deve dar comida ao cão fora das horas de refeições.
- Não lhe dar comida quando se está sentado à mesa. Se o cão perder o hábito de mendigar comida, deixará comer tranquilamente os donos e permanecerá no seu lugar.
- Não deixar os amigos ou convidados oferecer guloseimas ao cão. Os Veterinários têm por hábito oferecer aos cães, que estão em consulta, guloseimas para lhes conquistar a confiança. Esse procedimento não deve ser permitido pelo dono.
- Dar de comer ao cão sempre no mesmo comedouro, à mesma hora e no mesmo local.
- Não dar de comer com a mão.
- Não o deixar ingerir comida abandonada durante os passeios (o cão ao passear deve andar com a cabeça levantada e não a farejar permanentemente o solo).
Apenas quando o cão e o dono tiverem adquirido estes hábitos se pode iniciar o treino para que o cão recuse comida que um estranho lhe ofereça.
O Início
Deve iniciar-se o treino por volta dos dez, doze meses, quando o animal já estiver habituado ao seu horário de refeições e aprendeu as regras elementares de obediência, pelo que já responde correctamente, às ordens de sentado, deitado, quieto, larga e vem à chamada. Existem vários métodos de treino mas todos têm uma regra comum: nunca abandonar um cão perante um fracasso. O objectivo é que o cão desconfie perante qualquer guloseima ou alimento que encontre casualmente ou lhe seja oferecido por alguém que não sejam os donos.
O Treino
Para o treino deste problema comportamental somos forçados a utilizar o Castigo Positivo uma vez que pode estar em causa a vida do animal.
É necessária uma pessoa desconhecida do cão. Será encarregue de dar ou lançar alimentos que devem surpreender desagradavelmente o animal: pedaços com pimenta, com mostarda forte, com malaguetas, com óleo de rícino; alimentos que estejam unidos à ponta de um elástico que lhe baterá no focinho ao morder e puxar
Para dissuadir o cão de comer alimento abandonado no solo, existem vários métodos: colocar comida sobre um ratoeira dissimulada com ervas ou terra, unir a bola de carne a latas de refrigerante que cairão sobre o cão ao puxar a comida com os dentes, etc.
Não obstante, não há cães infalíveis, pelo que há que ter em conta que se durante os seus passeios um cão encontra habitualmente o mesmo tipo de comida, pode acostumar-se a ela e esquecer os efeitos nocivos que o comê-la lhe poderiam provocar. Por isso, voltamos a lembrar, que é importante acostumar o cão a não ingerir nada que não lhe tenha sido dado pelo dono, sendo assim, também não é superficial insistir que o cão não coma fora do sítio ou das suas horas habituais, dando-lhe sempre uma ração suficiente e alta qualidade, se bem que não excessiva, de maneira a que evite a obesidade e não passe fome o resto do dia.
Podemos igualmente utilizar um processo mais soft, que consiste em pedirmos a uma pessoa desconhecida para o cão que atire um pedaço de alimento apetitoso enquanto andamos a passear o cão à trela, primeiro fora e depois dentro do quintal, e na altura em que o cão vai para o comer, devemos dar um puxão forte na trela e repreender o cão com um “NÃO” forte e depois, quando já se tiver desligado do estímulo, recompensá-lo com uma carícia e um suave “MUITO BEM”. Pode-se também utilizar este método quando o passeamos na rua e ele fica tentado a comer algo que encontrou no chão junto a um caixote do lixo.
Qualquer que seja o método, é conveniente praticar o treino em diversos locais, como a casa, o jardim, a rua ou o carro, e em diferentes situações e com alimentos diversos.
A recusa de comida constitui em alguns países uma prova que se pratica em concursos de trabalho. Para isso, colocam-se diferentes tipos de comida nos lugares que o juiz determinar, sendo sempre suficientemente grandes para serem claramente visíveis e apetitosas, tais como: carne crua ou guisada, ossos, peixe, queijo, bolos, açúcar, etc., o cão deve efectuar o seu percurso sem comer nem lamber nenhuma das comidas.
Em seguida, o cão deve permanecer quieto e recusar pedaços de comida atirados de uma distância de 3 metros sem estar presente o proprietário. Concluída a prova, o cão é chamado pelo nome e deve correr para o lado do seu guia. Durante toda a prova, o cão não pode demonstrar medo ou agressividade.
• Coprofagia
A coprofagia é um comportamento anómalo que se traduz no acto de os cães ingerirem as suas próprias fezes ou as de outros animais.
Este comportamento só é normal em mães em fase de amamentação que ingerem as fezes e urina dos seus cachorros com o objectivo de limpar o ninho e de evitar a propagação de odores a fim de não atraírem os predadores. Em todas as outras situações este é um comportamento anormal mas não patológico.
Causas
As causas deste comportamento podem ser várias, sendo que, os próprios investigadores não são unânimes nas suas conclusões. De seguida descrevemos as teorias definidas pelos referidos investigadores
- Enfermidades tais: como parasítoses, intoxicação por chumbo, insuficiência pancreática e qualquer processo que afecte a amígdala que é a estrutura do SNC (Sistema Nervoso Central) encarregue da selecção de alimento. Como exemplo deste último temos o vírus da raiva, que por vezes se aloja neste órgão.
- Carência de elementos nutritivos como o ferro, vitamina B ou zinco
- Conduta reforçada pelo dono. O cão fá-lo para chamar a atenção do dono ou para evitar ser castigado se este vê as fezes.
- Pode igualmente dever-se ao ambiente vivido pelos cachorros durante a amamentação. Isto implicaria que o cachorro fixa comportamentos como o de estar em ambiente sujo da caixa parideira e comendo no mesmo local, como tal associa as fezes à ingestão de alimentos. Por vezes também as poderá associar a condutas exploratórias e lúdicas mordendo-as e jogando com elas. Também se tem especulado com a ideia de que associe o hálito da mãe que ingere as fezes, com o odor da comida.
- Situações de deficiência nutricional, má nutrição ou fome. É suposto que em condições em que o cachorro esteja mal alimentado ou com fome ingira as suas fezes para sobreviver. Assim como uma dieta desequilibrada ou de baixa qualidade poderia influir numa conduta de ingestão das próprias fezes ou de outros.
- Como meio de aproveitar enzimas digestivas presentes nas fezes como é o caso do ácido deoxicólico que diminui o risco de enterites e facilita a assimilação dos ácidos gordos.
- Resposta a situações de stress devidas a confinamento a espaços reduzidos com total ausência de estímulos, e a consequente restrição de movimentos e de interacção social.
Tratamento
Em primeiro lugar deve de se fazer um check-up total ao cão para despistar eventuais problemas orgânicos que possam existir.
No caso das funções orgânicas se encontrarem em perfeitas condições e que tenha sido descartado também a possível causa de uma alimentação deficitária ou de baixa qualidade, centrar-nos-emos nas outras possíveis causas deste comportamento.
Ao animal deve ser proporcionado um ambiente rico em jogos interactivos, uma rotina fixa que inclua saídas ao exterior para fazer as suas necessidades e adestramento em obediência com enfoque no comando “larga”.
Como é lógico o ambiente do cão deve ser o mais higiénico possível eliminando as fezes rapidamente. Se temos vários cães seria útil utilizarmos uma câmara de vídeo para podermos averiguar o causador ou responsável por esta conduta.
Para eliminar este comportamento utiliza-se o fenómeno da aversão alimentar que consiste no seguinte: cobre-se as fezes com uma substância desagradável para o animal, quer seja pelo odor ou pelo sabor e que provoque vómitos ou dores abdominais. As consequências gastrointestinais subsequentes sofridas pelo cão devido à ingestão das fezes cobertas por esses produtos, farão com que o animal condicione que sofrerá consequências se as ingerir e não queira provar de novo.
Conclusão
O tema é muito polémico mesmo entre os estudiosos da matéria. Não há receitas milagrosas o que deve haver é um cuidado emergente em proporcionar ao cão o máximo de estímulos positivos e que viva num meio o mais higiénico possível.
• Objectos
Pedras, bolas, meias de senhora, peúgas, pedaços de sapato, trapos, brinquedos, objectos em plástico, etc., são objectos que poderão ser engolidos por um animal com graves consequências para a sua saúde se não forem rapidamente retirados, muitas das vezes cirurgicamente. Para evitar este grave problema, é uma boa prática treinar o cão a reconhecer e evitar engolir esses objectos.
Treino
Devido à sua gravidade, vamos utilizar novamente o Castigo Positivo como método de adestramento e, basicamente, o treino é idêntico ao segundo processo de treino de rejeição de alimentação estranha. Assim, vamos proceder da seguinte forma:
Dispomos pelo chão uma série de objectos que sabemos que o cão gosta mas que não deve engolir. Colocamos-lhe a trela e propositadamente aproximamo-nos dos objectos e, na altura em que o cão vai para os cheirar, devemos dar um puxão forte na trela e repreender o cão com um “NÃO” forte e depois, quando já se tiver desligado do estímulo, recompensá-lo com uma carícia e um suave “MUITO BEM”. Pode-se também utilizar este método quando o passeamos na rua e ele fica tentado a engolir algo que encontrou no chão.
Como todos os treinos, este só é eficaz quando repetido muitas vezes até o cão ter a percepção de que nem tudo serve para comer.
Conclusões
A ingestão inadequada de alimentos, fezes ou objectos é uma patologia comportamental grave, mas com uma taxa de sucesso no seu tratamento bastante alta. Cabe ao terapeuta e fundamentalmente ao dono, adoptarem os procedimentos correctos e, não desanimarem perante algum fracasso que possa aparecer durante o processo de resolução do problema, uma vez que na grande maioria dos casos está em jogo a própria vida do animal.
07/07/10
Explicação Etológica para a ANSIEDADE POR SEPARAÇÃO CANINA
Os problemas derivados da angústia por separação canina agrupam uma grande diversidade de manifestações de hipervinculação social e de lugar. A angústia por separação pode-se encontrar de maneira natural em muitas espécies de canídeos, sobretudo nas mais sociais como são o caso dos Lobos e dos cães domésticos.
Os comportamentos de ansiedade, incluindo a vocalização e a tentativa de conseguir proximidade em relação ao objecto de apego, são comportamentos adaptativos. O propósito evolutivo dos comportamentos de angústia por separação é prevenir que o cachorro se afaste para demasiado longe da unidade familiar e também para ajudar a mãe e outros membros da família a encontrá-lo. A angústia experimentada motiva o cachorro a permanecer junto do seu objecto de apego (primeiro o local de abrigo e depois a mãe). As vocalizações têm como objectivo actuar como localizador de forma que a mãe, ou outros membros da matilha, possam localizar o cachorro perdido. As vocalizações do cachorro podem provocar uma resposta de base psicológica na mãe que a leve a localizá-lo. No fundo, o propósito da angústia por separação é recalcar a importância do contacto directo e a vinculação entre o cachorro e a unidade familiar que o cria.
A ansiedade por separação não se observa em espécies de animais que não criam a sua prole. Há muitos répteis como as tartarugas marinhas, por exemplo, que não mostram comportamentos de angustia por separação. Grande parte deste sistema está presente de forma instintiva no cachorro cão e a aprendizagem adquire um efeito modulador à medida que passa o tempo. O alivio e consolo do contacto social (a mãe) e do local (abrigo) reforçam o contacto e o apego enquanto que a ausência relativa de consolo e a experiência negativa do jovem actuam para castigar o desenraizamento. Reunir o cachorro com o objecto de apego reforça os comportamentos de angústia. Quando o cachorro se afasta para demasiado longe é castigado com o isolamento. A dependência está afiançada no sistema social canino na criação dos cachorros. O período critico – ou de socialização - seguramente tem um papel fundamental no desenvolvimento de objectos de apego.
O ancestral do cão doméstico é o Lobo. Apesar dos cães serem uma espécie aparte, não há duvida de que compartilham a maioria das suas características mais enraizadas. Em ambiente selvagem, um lobito normalmente não deixa a sua toca antes das 3 ou 4 semanas de idade, nesse momento as excursões acabam com o regresso à segurança da toca. Os lobitos começam com um apego espacial (a toca) mais que social (a mãe). Nas semanas seguintes o cachorro vai amadurecendo, adquire maior confiança e familiariza-se mais com o mundo exterior. Começa a desenvolver um maior apego social com os membros da alcateia e familiariza-se cada vez mais com o mundo que rodeia a toca. Entre as 10 e as 12 semanas, os lobitos abandonam a toca de vez. Espera-se dos lobitos que, gradualmente, participem mais na vida da alcateia, também na caça dado que já ninguém lhe proporciona comida. Passam os dias ao lado das presas mortas onde comem e brincam. Logo vão a outra zona onde foi abatida outra presa. Este processo de maturação biológica e integração na alcateia é gradual e tem uma temporização perfeita. A ansiedade por separação raramente se converte num problema ou transtorno nestas condições.
O que ocorre com os cachorros é um pouco diferente. Quando estão na ninhada é possível que os criadores manipulem a proximidade dos cachorros à mãe. Parecendo que não, este procedimento pode ter resultados nocivos. Muitas vezes retira-se os cachorros da ninhada antes que estejam preparados, do ponto de vista biológico e psicológico. Nesta situação, a transição é brusca e traumática totalmente contrária ao pretendido que seria uma alteração gradual e sem problemas. Os novos donos, em muitos casos, enjaulam o cachorro num local separado da casa (canil, por ex.). Durante os dias seguintes o cachorro sente-se traumatizado por lhe ser estranho o local e o meio social. A isto muitas vezes junta-se o isolamento intolerável dos novos “objectos sociais” (a família). Os donos saiem para os empregos ou vão para a escola e querem que o cão fique sossegado longe do olhar da família. O isolamento provoca ansiedade, naturalmente, e o cachorro vocaliza constantemente para que o objecto de apego se reúna a ele. Isto não ocorre e o cachorro começa a sentir que não pode controlar o seu próprio meio envolvente: estamos a criar um animal neurótico. O cão sente-se desesperado.
Há muitos donos que não percebem o sofrimento do pobre cachorro, sentem-se frustrados e castigam-no por ladrar ou uivar. Gritar, ou o que é pior, bater no cão agrava o problema ao fazer com que o cachorro se sinta mais perdido e com maior necessidade de apego social. O apego social do cão pode reforçar-se (às vezes a níveis nada saudáveis) com este tipo de tratamento porque procura consolo no contacto social. Esta situação aumenta a incidência, duração e intensidade da angustia e tem como resultado vocalizações de ansiedade.
Se o cachorro não tem uma predisposição genética para a ansiedade por separação (sensibilidade/reactividade), e o dano não é muito grave, então pode aprender a adaptar-se a esse meio ambiente. Em situações novas é onde os cachorros se mostram mais ansiosos, tal como acontecem com as suas vocalizações às seis semanas de idade. A partir deste pico as vocalizações começam a baixar em circunstâncias normais, e entre as 12 e as 16 semanas os cachorros apresentam uma adaptação cada vez maior ao seu meio e menos ansiedade perante o isolamento.
Este é um processo adaptativo normal. Com uma predisposição genética ou práticas de criação inadequadas a angústia pode transformar-se em ansiedade, frustração e pânico, situação que marca o declive do estado psicológico do cão e da relação entre este e o seu dono.
Os comportamentos de ansiedade, incluindo a vocalização e a tentativa de conseguir proximidade em relação ao objecto de apego, são comportamentos adaptativos. O propósito evolutivo dos comportamentos de angústia por separação é prevenir que o cachorro se afaste para demasiado longe da unidade familiar e também para ajudar a mãe e outros membros da família a encontrá-lo. A angústia experimentada motiva o cachorro a permanecer junto do seu objecto de apego (primeiro o local de abrigo e depois a mãe). As vocalizações têm como objectivo actuar como localizador de forma que a mãe, ou outros membros da matilha, possam localizar o cachorro perdido. As vocalizações do cachorro podem provocar uma resposta de base psicológica na mãe que a leve a localizá-lo. No fundo, o propósito da angústia por separação é recalcar a importância do contacto directo e a vinculação entre o cachorro e a unidade familiar que o cria.
A ansiedade por separação não se observa em espécies de animais que não criam a sua prole. Há muitos répteis como as tartarugas marinhas, por exemplo, que não mostram comportamentos de angustia por separação. Grande parte deste sistema está presente de forma instintiva no cachorro cão e a aprendizagem adquire um efeito modulador à medida que passa o tempo. O alivio e consolo do contacto social (a mãe) e do local (abrigo) reforçam o contacto e o apego enquanto que a ausência relativa de consolo e a experiência negativa do jovem actuam para castigar o desenraizamento. Reunir o cachorro com o objecto de apego reforça os comportamentos de angústia. Quando o cachorro se afasta para demasiado longe é castigado com o isolamento. A dependência está afiançada no sistema social canino na criação dos cachorros. O período critico – ou de socialização - seguramente tem um papel fundamental no desenvolvimento de objectos de apego.
O ancestral do cão doméstico é o Lobo. Apesar dos cães serem uma espécie aparte, não há duvida de que compartilham a maioria das suas características mais enraizadas. Em ambiente selvagem, um lobito normalmente não deixa a sua toca antes das 3 ou 4 semanas de idade, nesse momento as excursões acabam com o regresso à segurança da toca. Os lobitos começam com um apego espacial (a toca) mais que social (a mãe). Nas semanas seguintes o cachorro vai amadurecendo, adquire maior confiança e familiariza-se mais com o mundo exterior. Começa a desenvolver um maior apego social com os membros da alcateia e familiariza-se cada vez mais com o mundo que rodeia a toca. Entre as 10 e as 12 semanas, os lobitos abandonam a toca de vez. Espera-se dos lobitos que, gradualmente, participem mais na vida da alcateia, também na caça dado que já ninguém lhe proporciona comida. Passam os dias ao lado das presas mortas onde comem e brincam. Logo vão a outra zona onde foi abatida outra presa. Este processo de maturação biológica e integração na alcateia é gradual e tem uma temporização perfeita. A ansiedade por separação raramente se converte num problema ou transtorno nestas condições.
O que ocorre com os cachorros é um pouco diferente. Quando estão na ninhada é possível que os criadores manipulem a proximidade dos cachorros à mãe. Parecendo que não, este procedimento pode ter resultados nocivos. Muitas vezes retira-se os cachorros da ninhada antes que estejam preparados, do ponto de vista biológico e psicológico. Nesta situação, a transição é brusca e traumática totalmente contrária ao pretendido que seria uma alteração gradual e sem problemas. Os novos donos, em muitos casos, enjaulam o cachorro num local separado da casa (canil, por ex.). Durante os dias seguintes o cachorro sente-se traumatizado por lhe ser estranho o local e o meio social. A isto muitas vezes junta-se o isolamento intolerável dos novos “objectos sociais” (a família). Os donos saiem para os empregos ou vão para a escola e querem que o cão fique sossegado longe do olhar da família. O isolamento provoca ansiedade, naturalmente, e o cachorro vocaliza constantemente para que o objecto de apego se reúna a ele. Isto não ocorre e o cachorro começa a sentir que não pode controlar o seu próprio meio envolvente: estamos a criar um animal neurótico. O cão sente-se desesperado.
Há muitos donos que não percebem o sofrimento do pobre cachorro, sentem-se frustrados e castigam-no por ladrar ou uivar. Gritar, ou o que é pior, bater no cão agrava o problema ao fazer com que o cachorro se sinta mais perdido e com maior necessidade de apego social. O apego social do cão pode reforçar-se (às vezes a níveis nada saudáveis) com este tipo de tratamento porque procura consolo no contacto social. Esta situação aumenta a incidência, duração e intensidade da angustia e tem como resultado vocalizações de ansiedade.
Se o cachorro não tem uma predisposição genética para a ansiedade por separação (sensibilidade/reactividade), e o dano não é muito grave, então pode aprender a adaptar-se a esse meio ambiente. Em situações novas é onde os cachorros se mostram mais ansiosos, tal como acontecem com as suas vocalizações às seis semanas de idade. A partir deste pico as vocalizações começam a baixar em circunstâncias normais, e entre as 12 e as 16 semanas os cachorros apresentam uma adaptação cada vez maior ao seu meio e menos ansiedade perante o isolamento.
Este é um processo adaptativo normal. Com uma predisposição genética ou práticas de criação inadequadas a angústia pode transformar-se em ansiedade, frustração e pânico, situação que marca o declive do estado psicológico do cão e da relação entre este e o seu dono.
09/06/10
Os Mecanismos do CONDICIONAMENTO OPERANTE
Este é um artigo fundamentalmente destinado aos Adestradores Profissionais que utilizam o Adestramento Positivo como método de ensino e que, por qualquer motivo, desconheçam as bases e os mecanismos que esse método utiliza na aprendizagem animal. Também é uma excelente oportunidade para corrigir um pouco a denominação de “Adestramento Positivo” que se atribui a este método uma vez que, mesmo nesta forma de aprendizagem, para corrigir os comportamentos inadequados utiliza-se sempre o “Castigo Negativo”.
O conceito de Condicionamento Operante, também por vezes chamado Condicionamento Instrumental ou Aprendizagem Instrumental foi criado por B. F. Skinner (1904-1990), baseando-se na Lei do Efeito de Edward L. Thorndike (1874-1949) que teorizou; as respostas que produziam consequências mais satisfatórias, foram "escolhidas" pela experiência e portanto, aumentaram de frequência. Algumas consequências reforçavam o comportamento, outras enfraqueciam-no.
O Condicionamento Operante
O condicionamento operante é o que ocorre quando aumenta ou diminui a frequência de um comportamento baseado nas consequências que o produziu anteriormente. Os comportamentos operantes são influenciados pelas suas consequências. O condicionamento operante aplica-se ao comportamento para alcançar objectivos. Os cães motivam-se para conseguir certos objectivos na vida, sejam de necessidade imediata, como conseguir oxigénio, ou o que seria alcançar uma experiência agradável subjectiva como pode encontrar no brinquedo preferido ou num odor para cheirar. Os cães fazem aquilo que os ajuda a conseguir o que querem ou que necessitam. Os comportamentos que realizam para conseguir tais objectivos estão muito influenciados pelo nível de êxito de métodos utilizados no contexto actual. Se um cão quer que o seu dono volte para ele, ladra e consegue que ele volte, seja por casualidade ou intencionalmente por parte do dono, então a probabilidade de que ladre no futuro aumentará exponencialmente. Se a estratégia teve êxito então repeti-la-á de novo.
A lei de efeito de Thorndike estabelece a noção básica do condicionamento operante: “se um comportamento tem como resultado um evento satisfatório então esse comportamento vê-se reforçado (fortalecido) e se um comportamento tem como consequência um evento desagradável então esse comportamento enfraquecerá”. Recordamos que o facto de que uma consequência seja considerada “satisfatória” ou “irritante” depende totalmente da perspectiva do animal que realiza o comportamento. Se o cão quer que o deixemos em paz e nos afastamos então o comportamento utilizado para conseguir tal objectivo ver-se-á reforçado positivamente. Por outro lado, se o cão quer que nos mantenhamos ao pé dele ou que lhe façamos festas e se nos afastamos, isso não seria um reforço positivo. De facto, para o cão isso seria um castigo negativo. Ao fim de contas tudo se reduz ao que o cão quer e se consegue o que quer como resultado do seu comportamento ou não. O facto de que algo se reforce ou se castigue não determina como nós o sentimos ou o que pensamos sobre o estímulo que foi apresentado ou retirado. A única maneira de sabermos se algo foi reforçado ou castigado é observar a frequência do comportamento, se é aumentada ou não. Tentemos concentrarmo-nos no efeito das nossas acções no comportamento em questão, mais do que pensarmos que algo deveria ter efeito de reforço ou de castigo.
Procedimentos do Condicionamento Operante
Genericamente existem quatro procedimentos que produzem um condicionamento operante.
Um animal pode experimentar consequências que provenham de distintas fontes. O dono ou outros animais podem ser a origem de tais consequências. O ambiente também. Há outras consequências que podem provir do próprio cão: os produtos químicos excitantes ou analgésicos que chegam ao cérebro do cão quando se sensibiliza podem-lhe provocar uma experiência agradável, por exemplo, e esta situação pode aumentar a frequência do comportamento que levou a essa resposta sensibilizada. Alguns cães aprendem a auto-mutilarem-se devido às respostas químicas que provocam no seu corpo. Poderá entender-se este comportamento como uma forma de se auto-medicarem.
Reforço Positivo (R+)
R+ implica o aparecimento de algo agradável para o animal. Se lhe apresentamos algo que ele entende como bom, então o comportamento que apresentou quando o recebeu será reforçado. Os cães com este tipo de comportamentos reforçados continuam a apresentá-los para que obtenham respostas positivas. São os primeiros a procurar e maximizar reforços.
O instante da apresentação do reforço é importante. O comportamento que realizava o cão quando recebeu o reforço aumentará em frequência. Assim que fizer algo que queremos premiar e se esperamos três segundos para o fazer, fica-se sem saber o que foi efectivamente premiado (e aí é muito importante o uso do clicker como marcador). Pode dar-se o caso de o cão ter feito uma dezena de coisas nesse espaço de tempo, e uma ou duas delas são as que serão reforçadas e nenhuma delas poderá ter nada a ver com o comportamento que queríamos reforçar. Pode acontecer também que julgamos que estamos a castigar um comportamento mas não importa o que nós achamos: só importa o que pensa o animal e se o toma como reforço positivo, então, isso é o que conta. Por exemplo, muitas pessoas pensam que gritar e empurrar o cão quando salta para atrair a nossa atenção é um castigo mas de facto essas acções podem reforçar o comportamento porque o cão procura atenção quando salta; gritar-lhe e empurrá-lo é dar-lhe atenção. O comportamento aumenta em frequência e nós não somos capazes de o reconhecer porque sentimos que as nossas acções deveriam castigar e esta situação bloqueia a nossa capacidade para avaliar de forma correcta os efeitos das suas acções. Outro exemplo: uma vez que o cão se habitua ao castigo, o seu corpo liberta uma grande quantidade de hormonas de luta contra o stress quando é castigado. Estes produtos químicos são muito aditivos desde o ponto de vista fisiológico e provocam prazer. O dono não consegue notar o aumento do comportamento porque está “seguro” de que deveria ser um castigo quando na realidade o castigo resulta num grande reforço. Para evitar estas situações devemos observar o efeito real sobre o comportamento para determinar se algo é um reforço ou não.
Castigo Negativo (C-)
C- implica retirar ao cão algo que lhe dá satisfação. Se o cão quer a nossa atenção ou apoio, afastamo-nos dele quando faz algo errado. Com este procedimento irá diminuir o frequência do seu comportamento. Se lhe colocamos uma guloseima diante do nariz, como isco, e entretanto se comporta de forma inapropriada, se lha tiramos (se a damos a outro cão ou se a comemos nós) a frequência desse comportamento inapropriado será reduzido, já que não deu resultado para conseguir o reforço.
Castigo Positivo (C+)
C+ implica apresentar ao animal algo que ele conote como negativo ou desagradável. Se lhe damos um puxão de trela, uma palmada ou uma severa reprimenda então o comportamento que realizava nesse momento seguramente diminuiu de frequência. Os cães são os primeiros a quererem minimizar os castigos e portanto comportam-se de maneira a evitá-los, a menos que exista um reforço que supere a experiência negativa. Não se deveria usar o C+ se existem opções de R+ e só deverá ser utilizado por um profissional que o deve programar com cuidado. O uso indiscriminado e sem conhecimento do C+ não é ético. Para se usar um C+ devem ser observados numerosos critérios. Primeiro deve ser suficientemente intenso para surpreender e erradicar o comportamento. Segundo, deve se aplicado cada vez que se produz o comportamento. Terceiro, o C+ deve ser utilizado imediatamente depois de ter acontecido o comportamento a corrigir. Quarto, devemos ensinar ao cão um comportamento alternativo que pode realizar para evitar o C+. Quinto, o comportamento deverá cessar ou reduzir-se significativamente com um par de aplicações do C+. Numa situação ideal o cão deveria apresentar um novo comportamento imediatamente depois de se aplicar o C+. Se existe um historial de reforço desse comportamento então será muito difícil que seja afectado pelo C+.
Não é que o castigo não funcione. Funciona se aplicado correctamente (que raramente acontece, mesmo aplicado por profissionais). O problema é que a aplicação do castigo não é ético se existe uma opção de R+ disponível e esse pode ser o caso. O C+ tão pouco é desejável se tivermos em conta os efeitos secundários. O condicionamento operante ocorre ao mesmo tempo que o condicionamento clássico (ou pavloviano). O cão associa as coisas agradáveis e desagradáveis com a pessoa que lhas apresenta, nós!. A menos que as façamos correctamente, inclusivamente neste caso, o cão experimentará uma resposta de stress e a aprendizagem será inibida. Além disso o cão tem que realizar um comportamento para ser castigado e cada ensaio do comportamento reforça de forma intrínseca e lhe dá mais confiança. E por que não prevenir o ensaio, baixar o valor do reforço do comportamento e aumentar o valor do reforço de um comportamento ou opção alternativa? Além disso, utilizar um C+ faz-nos entrar em areias movediças. Uma vez que se decide considerar o C+ como uma opção, normalmente deixamos de ser criativos para procurar um método de R+. A explicação está no facto da utilização do C+ ser mais fácil e requerer menos reflexão e também porque reforça descarregar coisas sobre o pobre animal. Aqueles que não utilizam o uso do C+ por opção são mais criativos e procuram maneiras menos arriscadas para alterar o comportamento.
Reforço Negativo (R-)
R- implica eliminar algo que o animal considere desagradável, a sua aplicação obriga à presença do C+. Se estrangularmos o cão, quando o levamos num colar de estrangulamento, na altura em que ele deixar de puxar estamos a aplicar um R- e uma vez que o animal o experimenta várias vezes reduzir-se-á a frequência do comportamento, a menos que exista um reforço que compense a má experiência ou a menos que a experiência do estímulo aversivo seja tão intensa que iniba o córtex cerebral (parte do cérebro que realiza a função cognitiva e a aprendizagem) ou a menos que se habitue a ele. Uma resposta emocional a uma experiência negativa inibirá a aprendizagem. O R- não deverá ser utilizado se existirem opções de R+ (é seguro que existem se se tiver disposição para pensar no assunto de forma criativa).
É importante salientar, por ser de extrema importância, que um C+ deve sempre terminar com um R-
Conheça melhor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Condicionamento_operante
http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/877.html
O conceito de Condicionamento Operante, também por vezes chamado Condicionamento Instrumental ou Aprendizagem Instrumental foi criado por B. F. Skinner (1904-1990), baseando-se na Lei do Efeito de Edward L. Thorndike (1874-1949) que teorizou; as respostas que produziam consequências mais satisfatórias, foram "escolhidas" pela experiência e portanto, aumentaram de frequência. Algumas consequências reforçavam o comportamento, outras enfraqueciam-no.
O Condicionamento Operante
O condicionamento operante é o que ocorre quando aumenta ou diminui a frequência de um comportamento baseado nas consequências que o produziu anteriormente. Os comportamentos operantes são influenciados pelas suas consequências. O condicionamento operante aplica-se ao comportamento para alcançar objectivos. Os cães motivam-se para conseguir certos objectivos na vida, sejam de necessidade imediata, como conseguir oxigénio, ou o que seria alcançar uma experiência agradável subjectiva como pode encontrar no brinquedo preferido ou num odor para cheirar. Os cães fazem aquilo que os ajuda a conseguir o que querem ou que necessitam. Os comportamentos que realizam para conseguir tais objectivos estão muito influenciados pelo nível de êxito de métodos utilizados no contexto actual. Se um cão quer que o seu dono volte para ele, ladra e consegue que ele volte, seja por casualidade ou intencionalmente por parte do dono, então a probabilidade de que ladre no futuro aumentará exponencialmente. Se a estratégia teve êxito então repeti-la-á de novo.
A lei de efeito de Thorndike estabelece a noção básica do condicionamento operante: “se um comportamento tem como resultado um evento satisfatório então esse comportamento vê-se reforçado (fortalecido) e se um comportamento tem como consequência um evento desagradável então esse comportamento enfraquecerá”. Recordamos que o facto de que uma consequência seja considerada “satisfatória” ou “irritante” depende totalmente da perspectiva do animal que realiza o comportamento. Se o cão quer que o deixemos em paz e nos afastamos então o comportamento utilizado para conseguir tal objectivo ver-se-á reforçado positivamente. Por outro lado, se o cão quer que nos mantenhamos ao pé dele ou que lhe façamos festas e se nos afastamos, isso não seria um reforço positivo. De facto, para o cão isso seria um castigo negativo. Ao fim de contas tudo se reduz ao que o cão quer e se consegue o que quer como resultado do seu comportamento ou não. O facto de que algo se reforce ou se castigue não determina como nós o sentimos ou o que pensamos sobre o estímulo que foi apresentado ou retirado. A única maneira de sabermos se algo foi reforçado ou castigado é observar a frequência do comportamento, se é aumentada ou não. Tentemos concentrarmo-nos no efeito das nossas acções no comportamento em questão, mais do que pensarmos que algo deveria ter efeito de reforço ou de castigo.
Procedimentos do Condicionamento Operante
Genericamente existem quatro procedimentos que produzem um condicionamento operante.
Um animal pode experimentar consequências que provenham de distintas fontes. O dono ou outros animais podem ser a origem de tais consequências. O ambiente também. Há outras consequências que podem provir do próprio cão: os produtos químicos excitantes ou analgésicos que chegam ao cérebro do cão quando se sensibiliza podem-lhe provocar uma experiência agradável, por exemplo, e esta situação pode aumentar a frequência do comportamento que levou a essa resposta sensibilizada. Alguns cães aprendem a auto-mutilarem-se devido às respostas químicas que provocam no seu corpo. Poderá entender-se este comportamento como uma forma de se auto-medicarem.
Reforço Positivo (R+)
R+ implica o aparecimento de algo agradável para o animal. Se lhe apresentamos algo que ele entende como bom, então o comportamento que apresentou quando o recebeu será reforçado. Os cães com este tipo de comportamentos reforçados continuam a apresentá-los para que obtenham respostas positivas. São os primeiros a procurar e maximizar reforços.
O instante da apresentação do reforço é importante. O comportamento que realizava o cão quando recebeu o reforço aumentará em frequência. Assim que fizer algo que queremos premiar e se esperamos três segundos para o fazer, fica-se sem saber o que foi efectivamente premiado (e aí é muito importante o uso do clicker como marcador). Pode dar-se o caso de o cão ter feito uma dezena de coisas nesse espaço de tempo, e uma ou duas delas são as que serão reforçadas e nenhuma delas poderá ter nada a ver com o comportamento que queríamos reforçar. Pode acontecer também que julgamos que estamos a castigar um comportamento mas não importa o que nós achamos: só importa o que pensa o animal e se o toma como reforço positivo, então, isso é o que conta. Por exemplo, muitas pessoas pensam que gritar e empurrar o cão quando salta para atrair a nossa atenção é um castigo mas de facto essas acções podem reforçar o comportamento porque o cão procura atenção quando salta; gritar-lhe e empurrá-lo é dar-lhe atenção. O comportamento aumenta em frequência e nós não somos capazes de o reconhecer porque sentimos que as nossas acções deveriam castigar e esta situação bloqueia a nossa capacidade para avaliar de forma correcta os efeitos das suas acções. Outro exemplo: uma vez que o cão se habitua ao castigo, o seu corpo liberta uma grande quantidade de hormonas de luta contra o stress quando é castigado. Estes produtos químicos são muito aditivos desde o ponto de vista fisiológico e provocam prazer. O dono não consegue notar o aumento do comportamento porque está “seguro” de que deveria ser um castigo quando na realidade o castigo resulta num grande reforço. Para evitar estas situações devemos observar o efeito real sobre o comportamento para determinar se algo é um reforço ou não.
Castigo Negativo (C-)
C- implica retirar ao cão algo que lhe dá satisfação. Se o cão quer a nossa atenção ou apoio, afastamo-nos dele quando faz algo errado. Com este procedimento irá diminuir o frequência do seu comportamento. Se lhe colocamos uma guloseima diante do nariz, como isco, e entretanto se comporta de forma inapropriada, se lha tiramos (se a damos a outro cão ou se a comemos nós) a frequência desse comportamento inapropriado será reduzido, já que não deu resultado para conseguir o reforço.
Castigo Positivo (C+)
C+ implica apresentar ao animal algo que ele conote como negativo ou desagradável. Se lhe damos um puxão de trela, uma palmada ou uma severa reprimenda então o comportamento que realizava nesse momento seguramente diminuiu de frequência. Os cães são os primeiros a quererem minimizar os castigos e portanto comportam-se de maneira a evitá-los, a menos que exista um reforço que supere a experiência negativa. Não se deveria usar o C+ se existem opções de R+ e só deverá ser utilizado por um profissional que o deve programar com cuidado. O uso indiscriminado e sem conhecimento do C+ não é ético. Para se usar um C+ devem ser observados numerosos critérios. Primeiro deve ser suficientemente intenso para surpreender e erradicar o comportamento. Segundo, deve se aplicado cada vez que se produz o comportamento. Terceiro, o C+ deve ser utilizado imediatamente depois de ter acontecido o comportamento a corrigir. Quarto, devemos ensinar ao cão um comportamento alternativo que pode realizar para evitar o C+. Quinto, o comportamento deverá cessar ou reduzir-se significativamente com um par de aplicações do C+. Numa situação ideal o cão deveria apresentar um novo comportamento imediatamente depois de se aplicar o C+. Se existe um historial de reforço desse comportamento então será muito difícil que seja afectado pelo C+.
Não é que o castigo não funcione. Funciona se aplicado correctamente (que raramente acontece, mesmo aplicado por profissionais). O problema é que a aplicação do castigo não é ético se existe uma opção de R+ disponível e esse pode ser o caso. O C+ tão pouco é desejável se tivermos em conta os efeitos secundários. O condicionamento operante ocorre ao mesmo tempo que o condicionamento clássico (ou pavloviano). O cão associa as coisas agradáveis e desagradáveis com a pessoa que lhas apresenta, nós!. A menos que as façamos correctamente, inclusivamente neste caso, o cão experimentará uma resposta de stress e a aprendizagem será inibida. Além disso o cão tem que realizar um comportamento para ser castigado e cada ensaio do comportamento reforça de forma intrínseca e lhe dá mais confiança. E por que não prevenir o ensaio, baixar o valor do reforço do comportamento e aumentar o valor do reforço de um comportamento ou opção alternativa? Além disso, utilizar um C+ faz-nos entrar em areias movediças. Uma vez que se decide considerar o C+ como uma opção, normalmente deixamos de ser criativos para procurar um método de R+. A explicação está no facto da utilização do C+ ser mais fácil e requerer menos reflexão e também porque reforça descarregar coisas sobre o pobre animal. Aqueles que não utilizam o uso do C+ por opção são mais criativos e procuram maneiras menos arriscadas para alterar o comportamento.
Reforço Negativo (R-)
R- implica eliminar algo que o animal considere desagradável, a sua aplicação obriga à presença do C+. Se estrangularmos o cão, quando o levamos num colar de estrangulamento, na altura em que ele deixar de puxar estamos a aplicar um R- e uma vez que o animal o experimenta várias vezes reduzir-se-á a frequência do comportamento, a menos que exista um reforço que compense a má experiência ou a menos que a experiência do estímulo aversivo seja tão intensa que iniba o córtex cerebral (parte do cérebro que realiza a função cognitiva e a aprendizagem) ou a menos que se habitue a ele. Uma resposta emocional a uma experiência negativa inibirá a aprendizagem. O R- não deverá ser utilizado se existirem opções de R+ (é seguro que existem se se tiver disposição para pensar no assunto de forma criativa).
É importante salientar, por ser de extrema importância, que um C+ deve sempre terminar com um R-
Conheça melhor:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Condicionamento_operante
http://psicologiaexperimental.blogs.sapo.pt/877.html
10/05/10
A Responsabilidade da Criação na Agressividade e Taras Hereditárias Caninas
2ª Parte
Hoje em dia, quando a aceitação da “biodiversidade” não científica é quase tão comum como a aceitação da “pureza da raça” o era há um século, a criação consanguínea é muitas vezes retratada como um mal absoluto. A criação consanguínea foi realmente uma técnica fundamental no desenvolvimento de praticamente todas as plantas e de todos os animais usados na agricultura e é a única forma de desenvolver rapidamente um caminho que produzirá consistentemente determinadas linhas desejadas. Isto é, no fundo, uma consequência do facto biológico de que os cromossomas vêm em pares e que cada um é herdado de cada um dos pais. Os indivíduos directamente relacionados – irmãos e irmãs, pais e filhos – certamente têm os mesmos genes. O cruzamento entre dois indivíduos directamente relacionados aumenta a possibilidade de o filho ter o mesmo gene para uma determinada característica em ambos os cromossomas – um estado denominado “homozigose”. Um organismo que é heterozigótico numa determinada característica, ou seja, que tem versões diferentes do mesmo gene em cada cromossoma, pode parecer-se a um outro que seja homozigótico, mas não passará essa característica ao seu descendente de uma forma tão consistente. Senão, vejamos o exemplo clássico. Tanto um indivíduo homozigótico como um indivíduo heterozigótico podem ter olhos castanhos, embora o segundo tenha um gene para olhos castanhos e outro para olhos azuis. O Castanho é “dominante” neste caso, embora os genes “recessivos” (azuis) de dois indivíduos heterozigóticos podem combinar na reprodução e produzir um descendente que seja homozigótico na característica recessiva e que por isso mesmo tenha um aspecto diferente: uma pessoa com dois genes azuis tem olhos azuis. Com um cruzamento entre homozigóticos, nada há a dizer. Seja qual for o par de cromossomas que passa para o filho, não haverá qualquer diferença nos resultados. Por outras palavras, os homozigóticos criam “a verdade do tipo” para determinadas características para as quais foram seleccionados.
Uma vez que os indivíduos aparentados têm muitos outros genes em comum, o cruzamento consanguíneo também aumenta a possibilidade de alguns genes de características indesejáveis noutros campos do genoma criarem problemas. Falhas em cruzamentos da mesma raça em animais domésticos tendem a ser recessivas, porque as doenças genéticas provocadas por marcadores dominantes são rapidamente eliminadas num programa de reprodução. Se eliminarmos da população reprodutora todos os animais que manifestaram sinais de uma determinada doença, displasia da anca por exemplo, estaremos também a eliminar os genes da doença de toda a população reprodutora. (Basta um só gene dominante para provocar uma doença dominante, então não existem portadores “silenciosos” destes genes). Mas as doenças genéticas que aparecem num só animal homozigótico numa característica recessiva podem ser transmitidas em silêncio durante várias gerações. Só quando há a combinação entre dois portadores desse gene recessivo é que a doença se manifesta.
Os dados genéticos confirmam que o último século de criação de cães produziu animais extremamente puros. Investigações utilizando marcadores de genes mostram que dois membros e uma família humana normal terão uma combinação de genes diferente de 71%. Em cães arraçados, essa quantidade de genes é de 57%, na maioria dos cães puros é de 22% e em certas raças raras é de 4%. Até os rafeiros são mais puros do que as populações humanas mais “puras” (os Amish, por exemplo, ou famílias na Índia em que existem casamentos entre tio e sobrinha).
Este grau de uniformidade significa que quando um marcador mau entra por acaso ele vai ficar restrito ao grupo. Uma série de doenças genéticas tem surgido em várias raças caninas. Algumas são verdadeiramente estranhas: a epilepsia dos poodles, rigidez muscular súbita nos terriers escoceses, febre crónica nos shar-peis, tumores em retrievers, problemas cardíacos em boxers e Dobermanns, etc.
O mundo do espectáculo canino e a preocupação obsessiva pela aparência das raças são frequentemente apontados como grandes responsáveis pela origem destas doenças genéticas. Mas nessa crítica não está o essencial: seleccionar uma coisa apenas (como a aparência) não invalida a escolha simultânea de outras coisas, como o comportamento gregário (social) e a saúde. Os criadores podem seleccionar as características que mais lhes agradam e não conseguirem travar o surgimento de doenças indesejáveis. Isto se começarem por uma população de início e fizerem os possíveis por manter o gene fundador nas gerações seguintes. Os cães de caça são testados frequentemente pra confirmação da condição física para competições. São seleccionados cuidadosamente pelo faro apurado que têm, pelo trabalho em “equipa” e pela habilidade em “falar” quando apanham o faro. Os border collies são seleccionados pela capacidade gregária. Quase todos por acaso também têm pescoços brancos e a cauda com a ponta branca.
A verdadeira origem do problema genético em muitas raças não está tanto na criação de raças com critérios de aparência, até porque a raça tem poucos ascendentes. Muitas raças também sofrem o “efeito de popularidade”, e aqui justificam-se as críticas feitas aos criadores. Um campeão dos ringues de exposição poderá dar origem a centenas de ninhadas , espalhando os seus genes virtuosos – e defeituosos – e afastando outras linhagens ancestrais. O problema é mais grave em raças que sofreram uma selecção genética. Raças que exibiam padeceres recessivos estranhos como os pastores irlandeses , os retrievers de pelo curto, os cães de água portugueses ou os shar-pei, quase desapareceram durante o último século e foram repescados de outras raças.
Ataques de agressividade em raças como os springer spaniel podem muito bem ser o resultado da existência de características recessivas numa população inadvertidamente fechada onde existem poucos genes originais. Mas os Juízes dos eventos de morfologia canina também têm culpas no cartório. Senão vejamos: os cães que têm a cabeça e a cauda direitas e erguidas atraem a atenção dos juízes e ganham os concursos. Mas estas são também marcadores de um cão dominador e agressivo. Alguns criadores de cães de exposição não vivem com os seus animais (são deixados nos canis) e estão perfeitamente dispostos a esquecer as características recessivas em detrimento de um pelo perfeito, por exemplo.
Reparar os danos
A conclusão surpreendente dos estudos genéticos modernos leva a crer que a pior maneira de corrigir estes erros é eliminar os portadores das doenças genéticas da população reprodutora. A falácia do ponto de vista racista foi centralizada na ideia de que a purificação da raça é geneticamente forte. De facto, o que se passa é o oposto – a diversidade genética é fortalecida porque ajuda a assegurar a reprodução entre homozigóticos em características desejáveis noutras partes do genoma. Até os portadores de doenças contribuem para a manutenção da heterozigose . Por exemplo, um cão que possui o gene da epilepsia pode também ser o portador do gene que o protege contra o cancro, tal como defende Deborah Lynch, da Fundação para a Protecção Canina (que investe cerca de um milhão de dólares anualmente em investigação de doenças caninas).
A chave está em não cruzar dois portadores de genes defeituosos. A solução está em manter os laços parentais o mais diversos possível enquanto se corrige o problema, e esta correcção vai sendo aos poucos e poucos mais fácil à medida que se vão descobrindo mais medidas de detecção de doenças genéticas nos cães.
Actualmente os criadores de cães já procuram obter formação nesta área (já existem Cursos, em Portugal inclusive, que formam criadores caninos) e já começam a entender cada vez melhor as questões genéticas e, como consequência dessa formação, hoje em dia têm mais capacidade de enfrentar problemas do que há alguns anos. No entanto, ainda existem criadores que em vez de utilizarem os conhecimentos existentes para detectar as doenças utilizam-nos para medir a pureza genética. Mas a criação de raças puras é como contratar um contador de histórias tendo somente em conta a quantidade de gerações que o precederam. O facto é que alguns marcadores genéticos podem estar associados a uma determinada raça por mero acaso. É possível, devido ao cruzamento consanguíneo entre cães, encontrar DNA (alterado) que é característico de uma determinada raça. Mas a estratégia mais sensata é basear a criação de cães na diversidade genética. De um ponto de vista científico, é perfeitamente possível fazer isto e simultaneamente satisfazer os desejos dos criadores em manterem pura uma determinada raça.
Porém, certos criadores de cães não têm o mesmo incentivo e as recompensas ainda vão para aqueles fecundados por campeões. Mas, a longo prazo, a disponibilidade cada vez maior de testes genéticos comprovará que os criadores sacrificaram bons genes na busca de cachorros que tenham no seu pedigree um ou mais campeões. Muitos clubes de raça incentivam o uso de testes disponíveis no mercado.
A verdade é que a diversidade genética canina é tão vasta como a dos seus antepassados selvagens.
Mas podemos ficar descansados porque teremos sempre os cães rafeiros ao nosso lado, apesar das tentativas sucessivas de os pormos de parte. Os rafeiros normalmente são saudáveis devida à sua energia híbrida e, em geral, são bons cães. De facto, os rafeiros simbolizam a herança da evolução do “Verdadeiro Cão”, esse animal que viveu connosco, que se adaptou e explorou a nossa sociedade e que o fez por si só. Os rafeiros são os verdadeiros cães e caso o pior aconteça talvez eles consigam abrir-nos novos caminhos, tal como os seus antepassados tão habilmente o fizeram pelo menos durante 15 900 dos últimos dezasseis mil anos.
Hoje em dia, quando a aceitação da “biodiversidade” não científica é quase tão comum como a aceitação da “pureza da raça” o era há um século, a criação consanguínea é muitas vezes retratada como um mal absoluto. A criação consanguínea foi realmente uma técnica fundamental no desenvolvimento de praticamente todas as plantas e de todos os animais usados na agricultura e é a única forma de desenvolver rapidamente um caminho que produzirá consistentemente determinadas linhas desejadas. Isto é, no fundo, uma consequência do facto biológico de que os cromossomas vêm em pares e que cada um é herdado de cada um dos pais. Os indivíduos directamente relacionados – irmãos e irmãs, pais e filhos – certamente têm os mesmos genes. O cruzamento entre dois indivíduos directamente relacionados aumenta a possibilidade de o filho ter o mesmo gene para uma determinada característica em ambos os cromossomas – um estado denominado “homozigose”. Um organismo que é heterozigótico numa determinada característica, ou seja, que tem versões diferentes do mesmo gene em cada cromossoma, pode parecer-se a um outro que seja homozigótico, mas não passará essa característica ao seu descendente de uma forma tão consistente. Senão, vejamos o exemplo clássico. Tanto um indivíduo homozigótico como um indivíduo heterozigótico podem ter olhos castanhos, embora o segundo tenha um gene para olhos castanhos e outro para olhos azuis. O Castanho é “dominante” neste caso, embora os genes “recessivos” (azuis) de dois indivíduos heterozigóticos podem combinar na reprodução e produzir um descendente que seja homozigótico na característica recessiva e que por isso mesmo tenha um aspecto diferente: uma pessoa com dois genes azuis tem olhos azuis. Com um cruzamento entre homozigóticos, nada há a dizer. Seja qual for o par de cromossomas que passa para o filho, não haverá qualquer diferença nos resultados. Por outras palavras, os homozigóticos criam “a verdade do tipo” para determinadas características para as quais foram seleccionados.
Uma vez que os indivíduos aparentados têm muitos outros genes em comum, o cruzamento consanguíneo também aumenta a possibilidade de alguns genes de características indesejáveis noutros campos do genoma criarem problemas. Falhas em cruzamentos da mesma raça em animais domésticos tendem a ser recessivas, porque as doenças genéticas provocadas por marcadores dominantes são rapidamente eliminadas num programa de reprodução. Se eliminarmos da população reprodutora todos os animais que manifestaram sinais de uma determinada doença, displasia da anca por exemplo, estaremos também a eliminar os genes da doença de toda a população reprodutora. (Basta um só gene dominante para provocar uma doença dominante, então não existem portadores “silenciosos” destes genes). Mas as doenças genéticas que aparecem num só animal homozigótico numa característica recessiva podem ser transmitidas em silêncio durante várias gerações. Só quando há a combinação entre dois portadores desse gene recessivo é que a doença se manifesta.
Os dados genéticos confirmam que o último século de criação de cães produziu animais extremamente puros. Investigações utilizando marcadores de genes mostram que dois membros e uma família humana normal terão uma combinação de genes diferente de 71%. Em cães arraçados, essa quantidade de genes é de 57%, na maioria dos cães puros é de 22% e em certas raças raras é de 4%. Até os rafeiros são mais puros do que as populações humanas mais “puras” (os Amish, por exemplo, ou famílias na Índia em que existem casamentos entre tio e sobrinha).
Este grau de uniformidade significa que quando um marcador mau entra por acaso ele vai ficar restrito ao grupo. Uma série de doenças genéticas tem surgido em várias raças caninas. Algumas são verdadeiramente estranhas: a epilepsia dos poodles, rigidez muscular súbita nos terriers escoceses, febre crónica nos shar-peis, tumores em retrievers, problemas cardíacos em boxers e Dobermanns, etc.
O mundo do espectáculo canino e a preocupação obsessiva pela aparência das raças são frequentemente apontados como grandes responsáveis pela origem destas doenças genéticas. Mas nessa crítica não está o essencial: seleccionar uma coisa apenas (como a aparência) não invalida a escolha simultânea de outras coisas, como o comportamento gregário (social) e a saúde. Os criadores podem seleccionar as características que mais lhes agradam e não conseguirem travar o surgimento de doenças indesejáveis. Isto se começarem por uma população de início e fizerem os possíveis por manter o gene fundador nas gerações seguintes. Os cães de caça são testados frequentemente pra confirmação da condição física para competições. São seleccionados cuidadosamente pelo faro apurado que têm, pelo trabalho em “equipa” e pela habilidade em “falar” quando apanham o faro. Os border collies são seleccionados pela capacidade gregária. Quase todos por acaso também têm pescoços brancos e a cauda com a ponta branca.
A verdadeira origem do problema genético em muitas raças não está tanto na criação de raças com critérios de aparência, até porque a raça tem poucos ascendentes. Muitas raças também sofrem o “efeito de popularidade”, e aqui justificam-se as críticas feitas aos criadores. Um campeão dos ringues de exposição poderá dar origem a centenas de ninhadas , espalhando os seus genes virtuosos – e defeituosos – e afastando outras linhagens ancestrais. O problema é mais grave em raças que sofreram uma selecção genética. Raças que exibiam padeceres recessivos estranhos como os pastores irlandeses , os retrievers de pelo curto, os cães de água portugueses ou os shar-pei, quase desapareceram durante o último século e foram repescados de outras raças.
Ataques de agressividade em raças como os springer spaniel podem muito bem ser o resultado da existência de características recessivas numa população inadvertidamente fechada onde existem poucos genes originais. Mas os Juízes dos eventos de morfologia canina também têm culpas no cartório. Senão vejamos: os cães que têm a cabeça e a cauda direitas e erguidas atraem a atenção dos juízes e ganham os concursos. Mas estas são também marcadores de um cão dominador e agressivo. Alguns criadores de cães de exposição não vivem com os seus animais (são deixados nos canis) e estão perfeitamente dispostos a esquecer as características recessivas em detrimento de um pelo perfeito, por exemplo.
Reparar os danos
A conclusão surpreendente dos estudos genéticos modernos leva a crer que a pior maneira de corrigir estes erros é eliminar os portadores das doenças genéticas da população reprodutora. A falácia do ponto de vista racista foi centralizada na ideia de que a purificação da raça é geneticamente forte. De facto, o que se passa é o oposto – a diversidade genética é fortalecida porque ajuda a assegurar a reprodução entre homozigóticos em características desejáveis noutras partes do genoma. Até os portadores de doenças contribuem para a manutenção da heterozigose . Por exemplo, um cão que possui o gene da epilepsia pode também ser o portador do gene que o protege contra o cancro, tal como defende Deborah Lynch, da Fundação para a Protecção Canina (que investe cerca de um milhão de dólares anualmente em investigação de doenças caninas).
A chave está em não cruzar dois portadores de genes defeituosos. A solução está em manter os laços parentais o mais diversos possível enquanto se corrige o problema, e esta correcção vai sendo aos poucos e poucos mais fácil à medida que se vão descobrindo mais medidas de detecção de doenças genéticas nos cães.
Actualmente os criadores de cães já procuram obter formação nesta área (já existem Cursos, em Portugal inclusive, que formam criadores caninos) e já começam a entender cada vez melhor as questões genéticas e, como consequência dessa formação, hoje em dia têm mais capacidade de enfrentar problemas do que há alguns anos. No entanto, ainda existem criadores que em vez de utilizarem os conhecimentos existentes para detectar as doenças utilizam-nos para medir a pureza genética. Mas a criação de raças puras é como contratar um contador de histórias tendo somente em conta a quantidade de gerações que o precederam. O facto é que alguns marcadores genéticos podem estar associados a uma determinada raça por mero acaso. É possível, devido ao cruzamento consanguíneo entre cães, encontrar DNA (alterado) que é característico de uma determinada raça. Mas a estratégia mais sensata é basear a criação de cães na diversidade genética. De um ponto de vista científico, é perfeitamente possível fazer isto e simultaneamente satisfazer os desejos dos criadores em manterem pura uma determinada raça.
Porém, certos criadores de cães não têm o mesmo incentivo e as recompensas ainda vão para aqueles fecundados por campeões. Mas, a longo prazo, a disponibilidade cada vez maior de testes genéticos comprovará que os criadores sacrificaram bons genes na busca de cachorros que tenham no seu pedigree um ou mais campeões. Muitos clubes de raça incentivam o uso de testes disponíveis no mercado.
A verdade é que a diversidade genética canina é tão vasta como a dos seus antepassados selvagens.
Mas podemos ficar descansados porque teremos sempre os cães rafeiros ao nosso lado, apesar das tentativas sucessivas de os pormos de parte. Os rafeiros normalmente são saudáveis devida à sua energia híbrida e, em geral, são bons cães. De facto, os rafeiros simbolizam a herança da evolução do “Verdadeiro Cão”, esse animal que viveu connosco, que se adaptou e explorou a nossa sociedade e que o fez por si só. Os rafeiros são os verdadeiros cães e caso o pior aconteça talvez eles consigam abrir-nos novos caminhos, tal como os seus antepassados tão habilmente o fizeram pelo menos durante 15 900 dos últimos dezasseis mil anos.
09/04/10
Workshop de Iniciação ao Adestramento Positivo Canino
O Centro Canino de Vale de Lobos em parceria com a Associação Amigo do Rottweiler realizou no passado dia 8 de Maio um Workshop de Iniciação ao Adestramento Positivo Canino. Foi uma excelente jornada de trabalho e que contou com a presença de quinze pessoas extremamente interessadas em conhecer melhor a mente canina.
No final do evento, formadores e participantes mostraram-se bastante agradados com o produtivo dia de trabalho e alguns dos comentários que foram ouvidos foi de que "nunca pensei que se podia adestrar um cão sem ser através da obrigação..." ou que "nunca pensei que a mente canina fosse tão complexa e ao mesmo tempo tão simples e com interacções tão básicas e tão fáceis de perceber...".
Por fim, todos sentiram a necessidade de se continuar com este tipos de eventos para que cada vez mais pessoas possam ter acesso a um conhecimento mais profundo e correcto da mente canina e dos mecanismos que estão ao nosso alcance para os podermos ensinar ao mesmo tempo que brincamos com eles, e a tornarem-se membros de pleno direito da nossa sociedade.
Até à próxima.
A acção de formação teve a seguinte estrutura programática:
Data: Sábado, 08 de Maio de 2010
Local: Instalações do Centro Canino de Vale de Lobos
Horário:
9,30h às 13,00h
COMPONENTE TEÓRICA
Formador: Cláudio Nogueira (AAR)
* Apresentação da Associação Amigo do Rottweiler
* A Educação de um Cão
* A Socialização de um Cão
* O Adestramento de um Cão
* Ser dono de um Cão - Direitos e Deveres
Formador: Sílvio Pereira (CCVL)
* Apresentação do Centro Canino de Vale de Lobos
* Conhecer o Cão
- O Carácter
- O Temperamento
- Os Instintos
- A comunicação
* Condicionamento Operante
- O que é o clicker
- O treino com clicker
13,00h às 14,30h
Almoço
14,30 às 18,00h
COMPONENTE PRÁTICA
* Demonstrações de Adestramento
* Adestramento com cães dos participantes
* Encerramento com entrega de Diplomas
Condições de Inscrição:
* Esta acção de formação está limitada a 20 participantes
* Cada participante pode levar 1 cão
* Data limite para inscrições: 04-05-2010
* Preço da formação: 20,00 € (os subscritores do site da AAR têm um desconto de 5,00€)
De seguida apresentamos algumas fotos do evento:



No final do evento, formadores e participantes mostraram-se bastante agradados com o produtivo dia de trabalho e alguns dos comentários que foram ouvidos foi de que "nunca pensei que se podia adestrar um cão sem ser através da obrigação..." ou que "nunca pensei que a mente canina fosse tão complexa e ao mesmo tempo tão simples e com interacções tão básicas e tão fáceis de perceber...".
Por fim, todos sentiram a necessidade de se continuar com este tipos de eventos para que cada vez mais pessoas possam ter acesso a um conhecimento mais profundo e correcto da mente canina e dos mecanismos que estão ao nosso alcance para os podermos ensinar ao mesmo tempo que brincamos com eles, e a tornarem-se membros de pleno direito da nossa sociedade.
Até à próxima.
A acção de formação teve a seguinte estrutura programática:
Data: Sábado, 08 de Maio de 2010
Local: Instalações do Centro Canino de Vale de Lobos
Horário:
9,30h às 13,00h
COMPONENTE TEÓRICA
Formador: Cláudio Nogueira (AAR)
* Apresentação da Associação Amigo do Rottweiler
* A Educação de um Cão
* A Socialização de um Cão
* O Adestramento de um Cão
* Ser dono de um Cão - Direitos e Deveres
Formador: Sílvio Pereira (CCVL)
* Apresentação do Centro Canino de Vale de Lobos
* Conhecer o Cão
- O Carácter
- O Temperamento
- Os Instintos
- A comunicação
* Condicionamento Operante
- O que é o clicker
- O treino com clicker
13,00h às 14,30h
Almoço
14,30 às 18,00h
COMPONENTE PRÁTICA
* Demonstrações de Adestramento
* Adestramento com cães dos participantes
* Encerramento com entrega de Diplomas
Condições de Inscrição:
* Esta acção de formação está limitada a 20 participantes
* Cada participante pode levar 1 cão
* Data limite para inscrições: 04-05-2010
* Preço da formação: 20,00 € (os subscritores do site da AAR têm um desconto de 5,00€)
De seguida apresentamos algumas fotos do evento:
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