Por ser um tema polémico - é abordado em muitas discussões e em tertúlias caninas - estes três conceitos têm-se tornado objecto de discordâncias em relação ao papel de cada um na evolução da aprendizagem do cão.
Para que, de uma vez por todas, se esclareça a importância que cada um deles têm no contexto em que se inserem, iremos de seguida ressaltar a importância de cada um.
Recorrendo-me do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, etimologicamente Educação é a “acção de desenvolver no indivíduo, especialmente na criança ou no adolescente, as suas capacidades mentais e físicas e de lhe transmitir valores morais e normas de conduta que visam a sua integração social”. Adestramento é a “acção ou resultado de ensinar, exercitar e potencializar conceitos de formação específica”.
Para facilitar a compreensão dos três conceitos e a diferença existente entre ambos, vamos utilizar o exemplo do ser humano.
O produto final de um ser vivo é o resultado da interacção do seu potencial genético com o meio em que se desenvolve. Sendo assim, podemos chegar à conclusão que, no ser humano, como no cão ou em qualquer ser vivo, a influência genética é pouco relevante na formação da personalidade de um indivíduo. Resta-nos a envolvente social para formarmos e moldarmos o carácter de cada ser.
A criança desde que nasce, começa a ser educada segundo os padrões culturais dos seus pais, através da experiência adquirida por estes e dos valores que defendem, irão ser transmitidas aos filhos com o objectivo de torna-los nos adultos de amanhã moldados à sua imagem ou à imagem daquilo que acham ser o tipo ideal; moral e socialmente. Assim, nos primeiros anos irão ser-lhes administrados conceitos básicos que, apesar de tudo, serão muito úteis e totalmente necessários para a vivência em sociedade: o conceito de hierarquia, a coesão familiar, ensiná-los a alimentarem-se, a vestirem-se, a sua higiene pessoal, os valores da solidariedade, da amizade, da honra, etc., a maneira como aceitar e lidar com os estranhos à família e muitos outros conceitos de primeira necessidade que lhes possibilitarão enfrentar o dia a dia. Isto é educar.
A aprendizagem mais formal e com objectivos de formação mais específica é aquela que é administrada nos bancos das escolas primeiro e nos anfiteatros das Universidades depois, administrados por pessoas com formação especifica para o fazer. Ler, escrever, deduzir matematicamente, interrelacionar conceitos de história, geografia, física, química, etc., adquirir cultura geral, enfim, formar-se intelectualmente. Isto é aprender e desenvolver o intelecto.
Depois de toda esta aprendizagem e do investimento na formação, precisamos de a colocar em prática. Para isso precisamos de ganhar experiência na actividade para o qual nos formámos, precisamos de praticar com vista a melhorar as nossas performances e a tornar-mo-nos mais competentes na profissão que escolhemos. Neste caso estamos a treinar os nossos atributos com vista a exercitar, a aperfeiçoar e a melhorar os conceitos já adquiridos.
Pois, se para nós humanos, isto é tão claro, porque não o será também para os cães? Não estarão neles relacionados estes ciclos de vida à semelhança do que acontece com os nossos filhos? Não necessitam eles de se socializarem e de se hierarquizarem? Não estamos nós obrigados a ensiná-los a comer a horas e em sítios certos, a fazerem as suas necessidades nos locais apropriados, a brincar, a jogar, a interagir connosco e com os da sua espécie, em suma, a torná-los sociáveis? Isto é educar um cão.
Tudo isso está muito correcto, mas essa aprendizagem ficaria incompleta se não conseguíssemos interagir e interrelacionar com eles de uma forma completa. Para isso o cão precisa de aprender mais e neste caso é uma aprendizagem já não tão abrangente do ponto de vista social e de cuidados primários de sobrevivência, mas mais específica em termos de obediência básica e social. Para vivermos em paz e harmonia com o nosso amigo canino ele tem que saber andar ao lado do dono calma e ordenadamente, tem que se sentar e deitar ao mando do dono, tem que saber ficar quieto e calmo quando o dono vai ao café ou à padaria, tem que vir quando é chamado, etc. E aqui, vamos ter que adestrar o nosso cão nessa componente.
Como nos humanos, há alguns cães que possuem características de carácter e capacidades intrínsecas para irem mais além na sua aprendizagem e esses, se tiverem um dono que esteja disposto a com eles colaborar para melhorar as performances, podem ir mais além numa actividade ou desporto canino. Neste caso, vamos melhorar, aperfeiçoar e potencializar a aprendizagem que foi feita durante a fase do adestramento com vista a tornar o cão mais competente na área do desporto ou da actividade que escolheu e para ser cada vez melhor e mais consistente no trabalho que realiza. Neste caso, estamos a treinar o nosso cão.
Do que foi dito podemos deduzir que, e infelizmente é pratica corrente em muitas das nossas escolas de adestramento canino, adestrar um cão que não tenha as bases consolidadas da sua educação primária é a mesma coisa que colocar uma criança de sete anos a tirar uma licenciatura em Engenharia ou em Medicina.
Por fim, é importante adiantar que tudo o que foi exposto, não é o resultado de uma mera opinião do articulista mas baseado em estudos efectuados pelos mais conceituados especialistas em Comportamento Canino.
24/10/08
02/10/08
"Imprinting" e Socialização
“Imprinting”
Conceito lançado pela primeira vez pelo naturalista Austríaco Konrad Lorenz (1903 – 1989) Prémio Nobel da Medicina em 1973 e considerado o pai da Etologia Moderna. Ele demonstrou que, no trabalho que realizou com gansos, estes seguiriam o primeiro objecto em movimento que encontrassem no seu meio ambiente, mal saíssem dos ovos, ocorrendo assim uma ligação social entre o pequeno ser e o objecto ou organismo que eles vissem em primeiro lugar. Foi o caso da experiência realizada pelo próprio Konrad Lorenz que ao criar uma ninhada de gansos cinzentos desde a oclusão dos ovos, os pequenos gansos o tomaram como sua mãe, seguindo-o incondicionalmente e, mesmo depois de se tornarem adultos, manifestaram sempre maior preferência por ele do que pelos outros gansos.
O comportamento de um animal, de qualquer animal, é o resultado da interacção de dois factores fundamentais: a genética e o meio ambiente, e em muitos casos é quase impossível separar o aspecto filogenético[1] do ambiental. Um dos exemplos mais curiosos dessas influências no referido comportamento animal é o chamado “imprinting” (estampagem ou impregnação em português, apesar do termo, em si ser intraduzível).
O imprinting é a primeira e mais duradoura forma de aprendizagem. Graças a ela, o animal aprende a ser membro da sua espécie, enquanto estabelece relações com os de outra.
Em todas as espécies existe um período, denominado período crítico, durante o qual o factor ambiental é mais susceptível de influenciar o comportamento e é nesse espaço de tempo da vida do animal que a acção do imprinting resulta particularmente intensa e duradoura, tendo grande importância no desenvolvimento dos padrões ontogenéticos[2] ou vitais.
O período crítico não é o mesmo em todas as espécies. Nas aves, por exemplo, por pertencerem a espécies precociais[3], o referido período emerge logo nas primeiras horas depois do nascimento, nos canídeos esse espaço de tempo inicia-se à terceira semana de vida, quando os cachorros começam a abrir os olhos, e a ouvir.
É importante que, nesta fase, a mãe esteja presente na altura do desenvolvimento sensorial dos cachorros, pois será ela o primeiro elemento que eles verão e será nela que se fixarão como pertencentes a uma determinada espécie.
Para a mãe também é extremamente importante esta fase, pois o desenvolvimento do comportamento maternal da fêmea está caracterizado pela aparição de um período sensível em que ela aprende a reconhecer as suas próprias crias assegurando, desta forma, que o instinto maternal se mantenha durante a época de amamentação.
Socialização
Nos canídeos o período de socialização está compreendido entre as 5 e as 12 semanas. Podemos definir esse período como o espaço de tempo compreendido entre o início da maturidade sensorial e a consolidação das estruturas nervosas que controlam a resposta de medo perante situações novas. É ainda durante este espaço de tempo que se dá o desenvolvimento sensorial e locomotor do animal e, graças a ele, o cachorro aprende a deslocar-se, explorar o seu meio envolvente e a interagir com os demais. Às 12 semanas acaba este período com a primeira demonstração de medo como resposta a alguns estímulos novos.
Em determinadas espécies, como os canídeos parece que se produz uma aceitação implícita do humano como companheiro social em pé de igualdade com os membros da sua própria espécie. Uma exposição breve durante o período sensível ou de socialização, é suficiente para que se estabeleça uma relação normal com os seres humanos. É nesta fase que o cachorro deve iniciar o contacto com outros cães e fundamentalmente, com adultos e crianças. É a altura de colocar o cachorro perante situações novas parecidas com as que encontrará na fase adulta.
Se até à 14ª semana não se proceder a esta integração do cachorro na sociedade onde irá viver, este deixará de responder e o seu futuro comportamento tenderá para a anormalidade.
Esta fase de socialização é particularmente importante para a vida futura do cachorro e daqueles que com ele irão conviver. É aqui que se irão lançar as bases que definirão a estrutura mental e social de um cão. 90% dos problemas comportamentais anómalos e desviantes de cães que têm chegado ao nosso conhecimento, têm origem numa deficiente, mal conduzida e mal executada fase de socialização.
Glossário
[1] Filogenético – Incluído no seu material genético. Herdado
[2] Ontogenéticos – Desenvolvidos durante o período de vida do animal
[3] Espécies precociais – Espécies de rápido desenvolvimento. Necessitam de poucos cuidados parentais. Contrário de Espécies altriciais.
Conceito lançado pela primeira vez pelo naturalista Austríaco Konrad Lorenz (1903 – 1989) Prémio Nobel da Medicina em 1973 e considerado o pai da Etologia Moderna. Ele demonstrou que, no trabalho que realizou com gansos, estes seguiriam o primeiro objecto em movimento que encontrassem no seu meio ambiente, mal saíssem dos ovos, ocorrendo assim uma ligação social entre o pequeno ser e o objecto ou organismo que eles vissem em primeiro lugar. Foi o caso da experiência realizada pelo próprio Konrad Lorenz que ao criar uma ninhada de gansos cinzentos desde a oclusão dos ovos, os pequenos gansos o tomaram como sua mãe, seguindo-o incondicionalmente e, mesmo depois de se tornarem adultos, manifestaram sempre maior preferência por ele do que pelos outros gansos.
O comportamento de um animal, de qualquer animal, é o resultado da interacção de dois factores fundamentais: a genética e o meio ambiente, e em muitos casos é quase impossível separar o aspecto filogenético[1] do ambiental. Um dos exemplos mais curiosos dessas influências no referido comportamento animal é o chamado “imprinting” (estampagem ou impregnação em português, apesar do termo, em si ser intraduzível).
O imprinting é a primeira e mais duradoura forma de aprendizagem. Graças a ela, o animal aprende a ser membro da sua espécie, enquanto estabelece relações com os de outra.
Em todas as espécies existe um período, denominado período crítico, durante o qual o factor ambiental é mais susceptível de influenciar o comportamento e é nesse espaço de tempo da vida do animal que a acção do imprinting resulta particularmente intensa e duradoura, tendo grande importância no desenvolvimento dos padrões ontogenéticos[2] ou vitais.
O período crítico não é o mesmo em todas as espécies. Nas aves, por exemplo, por pertencerem a espécies precociais[3], o referido período emerge logo nas primeiras horas depois do nascimento, nos canídeos esse espaço de tempo inicia-se à terceira semana de vida, quando os cachorros começam a abrir os olhos, e a ouvir.
É importante que, nesta fase, a mãe esteja presente na altura do desenvolvimento sensorial dos cachorros, pois será ela o primeiro elemento que eles verão e será nela que se fixarão como pertencentes a uma determinada espécie.
Para a mãe também é extremamente importante esta fase, pois o desenvolvimento do comportamento maternal da fêmea está caracterizado pela aparição de um período sensível em que ela aprende a reconhecer as suas próprias crias assegurando, desta forma, que o instinto maternal se mantenha durante a época de amamentação.
Socialização
Nos canídeos o período de socialização está compreendido entre as 5 e as 12 semanas. Podemos definir esse período como o espaço de tempo compreendido entre o início da maturidade sensorial e a consolidação das estruturas nervosas que controlam a resposta de medo perante situações novas. É ainda durante este espaço de tempo que se dá o desenvolvimento sensorial e locomotor do animal e, graças a ele, o cachorro aprende a deslocar-se, explorar o seu meio envolvente e a interagir com os demais. Às 12 semanas acaba este período com a primeira demonstração de medo como resposta a alguns estímulos novos.
Em determinadas espécies, como os canídeos parece que se produz uma aceitação implícita do humano como companheiro social em pé de igualdade com os membros da sua própria espécie. Uma exposição breve durante o período sensível ou de socialização, é suficiente para que se estabeleça uma relação normal com os seres humanos. É nesta fase que o cachorro deve iniciar o contacto com outros cães e fundamentalmente, com adultos e crianças. É a altura de colocar o cachorro perante situações novas parecidas com as que encontrará na fase adulta.
Se até à 14ª semana não se proceder a esta integração do cachorro na sociedade onde irá viver, este deixará de responder e o seu futuro comportamento tenderá para a anormalidade.
Esta fase de socialização é particularmente importante para a vida futura do cachorro e daqueles que com ele irão conviver. É aqui que se irão lançar as bases que definirão a estrutura mental e social de um cão. 90% dos problemas comportamentais anómalos e desviantes de cães que têm chegado ao nosso conhecimento, têm origem numa deficiente, mal conduzida e mal executada fase de socialização.
Glossário
[1] Filogenético – Incluído no seu material genético. Herdado
[2] Ontogenéticos – Desenvolvidos durante o período de vida do animal
[3] Espécies precociais – Espécies de rápido desenvolvimento. Necessitam de poucos cuidados parentais. Contrário de Espécies altriciais.
12/09/08
A Comunicação Canina - "Sinais e Displays"
A exemplo do que acontece em todas as espécies, os “sinais” no cão são uma forma de comunicação, imprescindíveis quando um individuo quer transmitir algo “importante” e que tenha a ver com a sua sobrevivência ou reprodução.
Um “sinal” só pode considerar-se como tal, quando ao ser lançado pelo emissor, consegue modificar o comportamento do receptor. Queremos dizer com isso que se este não acusa a recepção, a comunicação não está correcta e o emissor fracassou na sua intenção de comunicar algo.
Entre os humanos é normal comunicarmos sem obtermos resposta. Se quando falamos em público, coçamos a barba ou cofiamos o bigode, o que realmente queremos dizer é que encontramo-nos inquietos ou nervosos e o que percebe o receptor é: “a barba e o bigode picam-lhe”.
A educação, cultura ou comportamentos adquiridos, levam-nos inclusivamente a mudar de passeio se vemos um individuo embriagado cambaleando. Para nós é um sinal de perigo quando, realmente o que quer comunicar o emissor, é: “sinto-me mal”. Afinal ninguém entende o nosso nervosismo ao falar em público nem o pobre embriagado que, em vez de receber ajuda, provoca repulsão quando não, medo.
Efectivamente nos dois exemplos expostos, o receptor não modificou a sua conduta e, se o fez não foi no sentido pretendido pelo emissor. Queremos dizer que o que foi transmitido não foi um “sinal”. Portanto podemos definir uma comunicação autêntica como: “processo pelo qual os emissores usam “sinais”, especialmente desenvolvidos para modificar o comportamento dos receptores”
Resumindo, a Comunicação só existe quando emitida por “A” afecta a conduta de “B”.
O “sinal” entre os animais actua de três formas:
a. Resposta imediata do comportamento do receptor.
Cão gane, guia observa.
b. Resposta subtil.
Macho marca território e outro cão desvia-se.
c. Espaçados no tempo.
Cachorro destrói algo durante a noite, guia aborrece-se ao amanhecer.
Os “sinais” são construídos pelo cão, para comunicar:
a. Gregarismo.
Movimento da cauda, gemidos ou lamentos.
b. Cortejo.
Exibição de caracteres sexuais secundários.
c. Luta.
Comunicações agonísticas
As comunicações e seu tipo, são muito influenciadas pelo meio e pelo habitat. Assim há canídeos que lançam uivos e humanos que se comunicam por assobios, mais fáceis de detectar em áreas montanhosas e a longa distância.
Por outro lado, pensa-se que os “sinais” evoluíram a partir de outros mais simples (Lorenz e Timbergen). O cão mostra os dentes como ameaça, porque também o faz para comer. Portanto o agachar-se, também pode ser entendido como um “sinal” da ameaça.
Quando os “sinais” se encadeiam aparecem os “displays” que podemos definir como sendo “conjunto de atitudes que predissem um comportamento complexo”. É muito importante que o adestrador “aprenda” a distinguir entre “sinais” honestos e desonestos no cão. Na espécie canina, exactamente como na humana, a comunicação desonesta evoluiu. É comum encontrarmos cães que desenvolvem um “display” impressionante de ataque que inclusivamente chegam a convencer os seus próprios donos que atacam qualquer intruso, e, como tal, seriam capazes de defender a família de qualquer agressão. Mas a presença de um figurante corajoso faz com que o animal mude toda essa parafernália de ataque por condutas de fuga ou no mínimo de evitação.
Vejamos como na natureza também existem os “sinais” honesto e desonesto. Os animais quando “decidem” enfrentar-se levam a cabo duas classes de “displays” de informação:
1. Sobre força.
2. Sobre intenções.
Na informação sobre força é muito difícil mentir. Os gorilas batem contra o seu peito com enormes ramos e os mais fortes reiteram. Se o gorila decidiu comunicar com desonestidade mente sobre a sua força, acabará ferindo o seu peito antes de partir o ramo. Quando o animal informa sobre intenções vem dizer-nos algo como: “vou atacar-te” ou “penso resistir muito”. Isto é como jogar ao Poker e chegamos à conclusão que este tipo de informação não pode contribuir para a evolução da espécie.
Porque terão evoluído os cães? Como dizíamos atrás, o cão é uma espécie humanizada e como tal, sabe que o homem e outros cães por vezes impressionam-se com as suas “mentiras”. Entre eles a evolução é menor porque é mais difícil enganar um congénere do que um apreensivo humano.
Extrapolando o conceito da sucessão de atitudes num “display” no mundo canino vemos como os cães antes de se decidirem a atacar, executam com rigor as comunicações agonísticas: exibição de força, olhar fixo no oponente, ligeiro agachamento, vocalizações específicas e demonstração das suas defesas. Para um homem ou mulher não identificados com comportamento canino, isto é um “ataque em toda a escala” e a fuga espontânea perante o animal só contribui para o fazer ganhar outra batalha. Quantos cães de pouco carácter chegaram a morder a sério por correrem atrás de pessoas com medo e inseguras! Esta técnica de demonstração de medo será tratada em próximos artigos.
Um “sinal” só pode considerar-se como tal, quando ao ser lançado pelo emissor, consegue modificar o comportamento do receptor. Queremos dizer com isso que se este não acusa a recepção, a comunicação não está correcta e o emissor fracassou na sua intenção de comunicar algo.
Entre os humanos é normal comunicarmos sem obtermos resposta. Se quando falamos em público, coçamos a barba ou cofiamos o bigode, o que realmente queremos dizer é que encontramo-nos inquietos ou nervosos e o que percebe o receptor é: “a barba e o bigode picam-lhe”.
A educação, cultura ou comportamentos adquiridos, levam-nos inclusivamente a mudar de passeio se vemos um individuo embriagado cambaleando. Para nós é um sinal de perigo quando, realmente o que quer comunicar o emissor, é: “sinto-me mal”. Afinal ninguém entende o nosso nervosismo ao falar em público nem o pobre embriagado que, em vez de receber ajuda, provoca repulsão quando não, medo.
Efectivamente nos dois exemplos expostos, o receptor não modificou a sua conduta e, se o fez não foi no sentido pretendido pelo emissor. Queremos dizer que o que foi transmitido não foi um “sinal”. Portanto podemos definir uma comunicação autêntica como: “processo pelo qual os emissores usam “sinais”, especialmente desenvolvidos para modificar o comportamento dos receptores”
Resumindo, a Comunicação só existe quando emitida por “A” afecta a conduta de “B”.
O “sinal” entre os animais actua de três formas:
a. Resposta imediata do comportamento do receptor.
Cão gane, guia observa.
b. Resposta subtil.
Macho marca território e outro cão desvia-se.
c. Espaçados no tempo.
Cachorro destrói algo durante a noite, guia aborrece-se ao amanhecer.
Os “sinais” são construídos pelo cão, para comunicar:
a. Gregarismo.
Movimento da cauda, gemidos ou lamentos.
b. Cortejo.
Exibição de caracteres sexuais secundários.
c. Luta.
Comunicações agonísticas
As comunicações e seu tipo, são muito influenciadas pelo meio e pelo habitat. Assim há canídeos que lançam uivos e humanos que se comunicam por assobios, mais fáceis de detectar em áreas montanhosas e a longa distância.
Por outro lado, pensa-se que os “sinais” evoluíram a partir de outros mais simples (Lorenz e Timbergen). O cão mostra os dentes como ameaça, porque também o faz para comer. Portanto o agachar-se, também pode ser entendido como um “sinal” da ameaça.
Quando os “sinais” se encadeiam aparecem os “displays” que podemos definir como sendo “conjunto de atitudes que predissem um comportamento complexo”. É muito importante que o adestrador “aprenda” a distinguir entre “sinais” honestos e desonestos no cão. Na espécie canina, exactamente como na humana, a comunicação desonesta evoluiu. É comum encontrarmos cães que desenvolvem um “display” impressionante de ataque que inclusivamente chegam a convencer os seus próprios donos que atacam qualquer intruso, e, como tal, seriam capazes de defender a família de qualquer agressão. Mas a presença de um figurante corajoso faz com que o animal mude toda essa parafernália de ataque por condutas de fuga ou no mínimo de evitação.
Vejamos como na natureza também existem os “sinais” honesto e desonesto. Os animais quando “decidem” enfrentar-se levam a cabo duas classes de “displays” de informação:
1. Sobre força.
2. Sobre intenções.
Na informação sobre força é muito difícil mentir. Os gorilas batem contra o seu peito com enormes ramos e os mais fortes reiteram. Se o gorila decidiu comunicar com desonestidade mente sobre a sua força, acabará ferindo o seu peito antes de partir o ramo. Quando o animal informa sobre intenções vem dizer-nos algo como: “vou atacar-te” ou “penso resistir muito”. Isto é como jogar ao Poker e chegamos à conclusão que este tipo de informação não pode contribuir para a evolução da espécie.
Porque terão evoluído os cães? Como dizíamos atrás, o cão é uma espécie humanizada e como tal, sabe que o homem e outros cães por vezes impressionam-se com as suas “mentiras”. Entre eles a evolução é menor porque é mais difícil enganar um congénere do que um apreensivo humano.
Extrapolando o conceito da sucessão de atitudes num “display” no mundo canino vemos como os cães antes de se decidirem a atacar, executam com rigor as comunicações agonísticas: exibição de força, olhar fixo no oponente, ligeiro agachamento, vocalizações específicas e demonstração das suas defesas. Para um homem ou mulher não identificados com comportamento canino, isto é um “ataque em toda a escala” e a fuga espontânea perante o animal só contribui para o fazer ganhar outra batalha. Quantos cães de pouco carácter chegaram a morder a sério por correrem atrás de pessoas com medo e inseguras! Esta técnica de demonstração de medo será tratada em próximos artigos.
02/09/08
Relação com a espécie Humana
Desde sempre os cães trataram de se adaptar ao homem em todos os factores que os rodeiam. Assim adquiriram uma riqueza fónica superior ao da do Lobo, utiliza o nicho trófico do humano (alimenta-se do mesmo que este) e inclusivamente, mudou a sua morfologia para poder acompanhar o seu amigo na viagem dos tempos. O que nunca poderá evitar é deixar de se integrar num sistema hierárquico de grupo imprescindível para a sua própria sobrevivência. Se nas suas relações com o homem não estiver claro qual é a espécie dominante, ambos terão sérios problemas de adaptação mútua.
O adestrador, guia ou dono deve induzir no seu cão que ele, o humano, é o espécimen que está acima do próprio dominante da matilha. Como nós os humanos, possuímos algo que falta ao cão (uma inteligência quantitativamente superior), a tarefa é bastante fácil. Em termos gerais podemos dizer que a “única” coisa que devemos fazer é integramos na sua pirâmide hierárquica e colocarmo-nos no vértice, em primeiro lugar. Esta acção obriga-nos, como bons dominantes, a:
- Premiar qualquer conduta adequada.
- Castigar a desobediência.
- Administrar-lhe o recurso.
- Manter, na medida do possível, o seu êxito reprodutor.
- Não o castigar brutalmente (excepto em caso de disputas de nível hierárquico).
Um cão que é protegido pelo seu líder deve ver satisfeitas todas as suas necessidades, mas também deve saber quando ladrar ou calar-se na sua presença, morder ou deixar que lho “faça” o seu líder, acercar-se de uma fêmea ou “observar” a expressão do seu chefe… Em definitivo, nós devemos comportar-nos com ele como cão dominante e ele, como cão subordinado.
O conceito de castigo ou brutalidade deve ser analisado conscientemente antes de se decidir a aplicá-lo. Os cães não sentem a dor como nós, quer dizer, as suas manifestações não são as mesmas. Se bem que a concepção de dor implica as mesmas terminações nervosas que no homem, o seu nível de percepção é muito distinto do nosso. Inclusive entre as raças ou entre indivíduos da mesma raça esse nível varia de uma forma ostensiva.
O Humano deve ser o “SUPERALFA”
Muitos adestradores, guias ou donos, têm por habito integrar-se na hierarquia tentando assim, que o cão nos tome por macho ou fêmea Alfa da sua matilha, sem pensar que é impossível que o nosso cão nos “confunda” com outro cão Dominante. Ele sabe muito bem a que espécie pertencemos e a qual ele pertence. A nossa missão portanto, será a de nos impormos ao Alfa da matilha, ou seja, convencê-lo de que se ele é o Alfa, nos somos o SUPERALFA.
A sua relação com os humanos foi estabelecida antes do Neolítico e está baseada num Comensalismo ou, nalguns casos, numa relação de Simbioses. Esta relação contribui em cada espécie para o seguinte:
No cão
- Melhora a sua atitude em relação à sobrevivência já que obtém comida, evita a depredação e optimiza o seu Êxito Reprodutor.
- Melhora a sua atitude gregária e social, porque se integra numa sociedade mais ampla.
No Homem
- Pode optimizar a segurança o mesmo é dizer, a sobrevivência do seu grupo humano.
- Optimiza a necessidade gregária que também o homem possui.
- Nalguns casos pode, inconscientemente, converter-se num terapeuta que eleve a taxa de atitude humana, diminuindo os perigos de certas doenças (depressões, demências, etc.)
O adestrador, guia ou dono deve induzir no seu cão que ele, o humano, é o espécimen que está acima do próprio dominante da matilha. Como nós os humanos, possuímos algo que falta ao cão (uma inteligência quantitativamente superior), a tarefa é bastante fácil. Em termos gerais podemos dizer que a “única” coisa que devemos fazer é integramos na sua pirâmide hierárquica e colocarmo-nos no vértice, em primeiro lugar. Esta acção obriga-nos, como bons dominantes, a:
- Premiar qualquer conduta adequada.
- Castigar a desobediência.
- Administrar-lhe o recurso.
- Manter, na medida do possível, o seu êxito reprodutor.
- Não o castigar brutalmente (excepto em caso de disputas de nível hierárquico).
Um cão que é protegido pelo seu líder deve ver satisfeitas todas as suas necessidades, mas também deve saber quando ladrar ou calar-se na sua presença, morder ou deixar que lho “faça” o seu líder, acercar-se de uma fêmea ou “observar” a expressão do seu chefe… Em definitivo, nós devemos comportar-nos com ele como cão dominante e ele, como cão subordinado.
O conceito de castigo ou brutalidade deve ser analisado conscientemente antes de se decidir a aplicá-lo. Os cães não sentem a dor como nós, quer dizer, as suas manifestações não são as mesmas. Se bem que a concepção de dor implica as mesmas terminações nervosas que no homem, o seu nível de percepção é muito distinto do nosso. Inclusive entre as raças ou entre indivíduos da mesma raça esse nível varia de uma forma ostensiva.
O Humano deve ser o “SUPERALFA”
Muitos adestradores, guias ou donos, têm por habito integrar-se na hierarquia tentando assim, que o cão nos tome por macho ou fêmea Alfa da sua matilha, sem pensar que é impossível que o nosso cão nos “confunda” com outro cão Dominante. Ele sabe muito bem a que espécie pertencemos e a qual ele pertence. A nossa missão portanto, será a de nos impormos ao Alfa da matilha, ou seja, convencê-lo de que se ele é o Alfa, nos somos o SUPERALFA.
A sua relação com os humanos foi estabelecida antes do Neolítico e está baseada num Comensalismo ou, nalguns casos, numa relação de Simbioses. Esta relação contribui em cada espécie para o seguinte:
No cão
- Melhora a sua atitude em relação à sobrevivência já que obtém comida, evita a depredação e optimiza o seu Êxito Reprodutor.
- Melhora a sua atitude gregária e social, porque se integra numa sociedade mais ampla.
No Homem
- Pode optimizar a segurança o mesmo é dizer, a sobrevivência do seu grupo humano.
- Optimiza a necessidade gregária que também o homem possui.
- Nalguns casos pode, inconscientemente, converter-se num terapeuta que eleve a taxa de atitude humana, diminuindo os perigos de certas doenças (depressões, demências, etc.)
23/08/08
Factores de Dominância
O cão começa a estabelecer relações competitivas com cerca de 1 mês de vida. Podemos medir o grau de dominância de um individuo enfrentando-o com outro espécime. A diferença entre vitórias e derrotas do nosso exemplar nos enfrentamentos tidos é o que determina o seu Grau de Dominância.
Esta medição é relativa e só nos indica o grau de um exemplar em relação ao outro com quem está em contenda. Chama-se a este o Grau de dominância lógico, pois não significa que se A é dominante sobre B e B sobre C, A o seja sobre C.
Quando queremos saber o grau de dominância de um individuo dentro do grupo ou a magnitude da diferença de graus de cada um deles, utilizamos a Taxa de dominância, calculada para cada individuo como sendo o número total de vezes que ganha enfrentamentos, dividido pelo número das contendas em que esteve implicado com os diversos membros do grupo.
A pergunta que tem originado mais estudos sobre este tema é: o que faz com que um individuo seja ou não dominante? Numerosos etólogos lançaram as suas hipóteses e predições com diversos factores analisados. O etólogo Ketterson em 1979 realizou correlações múltiplas passo a passo tentando relacionar todas as variáveis entre si. O resultado foi que o factor mais importante é o tamanho, seguido da familiarização com a zona, a idade e finalmente o sexo. Os níveis de Testosterona são também um sinal de dominância quando se encontra muito elevado no sangue do individuo
Além das características fenotípicas, o genotipo pode também ter importância na hora de determinar o status de um individuo dentro do grupo. É certo que os filhos dos dominantes também têm tendência para o ser mas… Não será que estes cachorros desfrutam de um meio superior em relação aos demais? Não estará melhor alimentado e protegido um cão filho de um Alfa que um filho de um Beta? O etólogo Westman experimentou com ovos de aves mudando-as do ninho dos dominantes para o ninho dos subordinados e observou que os comportamentos das crias tinham mais a ver com os dos pais adoptivos do que com os dos pais biológicos. Podemos interpretar esta realidade com o facto de que as fêmeas e os machos dominantes dão mais valor aos cuidados parentais respectivos do que os seus congéneres subordinados. Assim se explica que os filhos de indivíduos dominantes apresentem melhores características para competir.
Entretanto vimos que os cães filhos de dominantes têm uma possibilidade muito alta de ser também dominantes sobre os outros cães filhos de subordinados e, para essa tendência, influi o carácter dos pais e as características ambientais da sua Ontogenia.
Resumindo; filogeneticamente[1] tendem a ser dominantes e ontogenicamente[2] podem chegar a sê-lo se os cuidados parentais e de imprinting[3] sejam realizados por individuos Alfa.
Pelo que foi exposto, pode-se melhorar enormemente o carácter de uma ninhada de pais medíocres se fizermos com que a ninhada seja criada por outros pais adoptivos de elevado status social.
Glossário:
[1] Padrões filogenéticos - Condutas inatas ou herdadas
[2] Padrões ontogenéticos - Condutas que o animal desenvolve desde o seu nascimento e durante toda a sua vida
[3] Imprinting - É a primeira e mais duradoura forma de aprendizagem. Faz com que um animal se identifique como membro de uma determinada espécie. Este período critico ou sensível produz-se entre as oito e as doze semanas de vida
Esta medição é relativa e só nos indica o grau de um exemplar em relação ao outro com quem está em contenda. Chama-se a este o Grau de dominância lógico, pois não significa que se A é dominante sobre B e B sobre C, A o seja sobre C.
Quando queremos saber o grau de dominância de um individuo dentro do grupo ou a magnitude da diferença de graus de cada um deles, utilizamos a Taxa de dominância, calculada para cada individuo como sendo o número total de vezes que ganha enfrentamentos, dividido pelo número das contendas em que esteve implicado com os diversos membros do grupo.
A pergunta que tem originado mais estudos sobre este tema é: o que faz com que um individuo seja ou não dominante? Numerosos etólogos lançaram as suas hipóteses e predições com diversos factores analisados. O etólogo Ketterson em 1979 realizou correlações múltiplas passo a passo tentando relacionar todas as variáveis entre si. O resultado foi que o factor mais importante é o tamanho, seguido da familiarização com a zona, a idade e finalmente o sexo. Os níveis de Testosterona são também um sinal de dominância quando se encontra muito elevado no sangue do individuo
Além das características fenotípicas, o genotipo pode também ter importância na hora de determinar o status de um individuo dentro do grupo. É certo que os filhos dos dominantes também têm tendência para o ser mas… Não será que estes cachorros desfrutam de um meio superior em relação aos demais? Não estará melhor alimentado e protegido um cão filho de um Alfa que um filho de um Beta? O etólogo Westman experimentou com ovos de aves mudando-as do ninho dos dominantes para o ninho dos subordinados e observou que os comportamentos das crias tinham mais a ver com os dos pais adoptivos do que com os dos pais biológicos. Podemos interpretar esta realidade com o facto de que as fêmeas e os machos dominantes dão mais valor aos cuidados parentais respectivos do que os seus congéneres subordinados. Assim se explica que os filhos de indivíduos dominantes apresentem melhores características para competir.
Entretanto vimos que os cães filhos de dominantes têm uma possibilidade muito alta de ser também dominantes sobre os outros cães filhos de subordinados e, para essa tendência, influi o carácter dos pais e as características ambientais da sua Ontogenia.
Resumindo; filogeneticamente[1] tendem a ser dominantes e ontogenicamente[2] podem chegar a sê-lo se os cuidados parentais e de imprinting[3] sejam realizados por individuos Alfa.
Pelo que foi exposto, pode-se melhorar enormemente o carácter de uma ninhada de pais medíocres se fizermos com que a ninhada seja criada por outros pais adoptivos de elevado status social.
Glossário:
[1] Padrões filogenéticos - Condutas inatas ou herdadas
[2] Padrões ontogenéticos - Condutas que o animal desenvolve desde o seu nascimento e durante toda a sua vida
[3] Imprinting - É a primeira e mais duradoura forma de aprendizagem. Faz com que um animal se identifique como membro de uma determinada espécie. Este período critico ou sensível produz-se entre as oito e as doze semanas de vida
06/08/08
Organização Hierarquica dos Lobos e Cães em Liberdade
O conceito de hierarquia implica uma relação em “pirâmide” entre os membros de uma matilha. Os cães formam grupos estáveis e duradouros à semelhança do que acontece nas alcateias de Lobos. A autoridade absoluta é ostentada por um macho que normalmente é o que mais lutas tem travado e melhores resultados tem obtido. Secunda-o uma fêmea, subordinada ao macho mas que ocupa o segundo grau na hierarquia e que, no caso dos Lobos, só pode ser coberta pelo dominante. Depois destes dois “patriarcas” a pirâmide hierárquica completa-se com os machos e fêmeas subordinadas que, passado algum tempo, se convertem por sua vez, em dominantes quer pela disputa e vitória sobre o chefe, quer pela morte deste.
Nas últimas investigações levadas a cabo sobre uma alcateia de Lobos Canadenses, observou-se que era uma fêmea que liderava o grupo. Neste caso concreto o dimorfismo sexual[1] está a favor dessa fêmea como em todos os casos de fêmeas dominantes entre as hienas. Apesar disso, o normal é que a autoridade absoluta seja exercida pelo macho dominante.
Em psicologia experimental chama-se Alfa ao individuo dominante e Beta ao subordinado. O conceito de dominância implica uma relação assimétrica, entre dois indivíduos, que se manifesta em dois níveis de interacção. O Alfa, para se impor, produz a maior parte das comunicações agonísticas e agressões que se manifesta entre os dois. Também quando se disputa uma fonte de recurso é o Alfa que invariavelmente a consegue obter. Uma vez estabelecidas as posições hierárquicas, a agressividade deixa de estar presente em quase todos os seus actos sociais. O stress é mais frequente nos indivíduos de menor nível social submetidos quase sempre, a uma contínua “luta” por uma valorização do seu posto na hierarquia. Pelo contrário nos dominantes, o nível de stress crónico diminui como consequência da falta de agressões que sofrem por parte dos subordinados.
Para manter estas relações sem necessidade de enfrentamentos directos e constantes, o cão desenvolveu uma linguagem corporal que estabelece claramente, “quem manda”, nas interacções quotidianas. O Beta demonstrará submissão quando se encontra em perigo de agressão cabendo ao Alfa a tarefa de tranquilizar o resto da matilha com a sua presença altiva e tranquila.
O cão, à semelhança do Lobo, tem uns mecanismos de inibição do acto final de dominância, quer dizer, quase nunca uma luta por posto ou status termina com a morte do vencido. Este desenvolveu toda uma comunicação de submissão que impede o vencedor de chegar à eliminação do contendor.
A dominância que exerce a fêmea Alfa sobre as demais, chega ao ponto de actuar com as suas feromonas para impedir o cio das fêmeas subordinadas optimizando desta forma o seu êxito reprodutor.
A hierarquia é tão forte entre eles que, inclusivamente para caçar, é o dominante que estabelece as tácticas venatórias[2] da matilha.
Esta forma de actuação dos cães em liberdade mantém-se nos domésticos de tal forma que, ao fazer-se a experiência de se libertar vários exemplares, passado muito pouco tempo, converteram-se no que eram há 16.000 anos atrás.
Glossário –
[1] Dimorfismo Sexual é a presença de caracteres sexuais secundários que permitem distinguir o macho da fêmea correspondente.
[2] Venatória que diz respeito à caça.
Nas últimas investigações levadas a cabo sobre uma alcateia de Lobos Canadenses, observou-se que era uma fêmea que liderava o grupo. Neste caso concreto o dimorfismo sexual[1] está a favor dessa fêmea como em todos os casos de fêmeas dominantes entre as hienas. Apesar disso, o normal é que a autoridade absoluta seja exercida pelo macho dominante.
Em psicologia experimental chama-se Alfa ao individuo dominante e Beta ao subordinado. O conceito de dominância implica uma relação assimétrica, entre dois indivíduos, que se manifesta em dois níveis de interacção. O Alfa, para se impor, produz a maior parte das comunicações agonísticas e agressões que se manifesta entre os dois. Também quando se disputa uma fonte de recurso é o Alfa que invariavelmente a consegue obter. Uma vez estabelecidas as posições hierárquicas, a agressividade deixa de estar presente em quase todos os seus actos sociais. O stress é mais frequente nos indivíduos de menor nível social submetidos quase sempre, a uma contínua “luta” por uma valorização do seu posto na hierarquia. Pelo contrário nos dominantes, o nível de stress crónico diminui como consequência da falta de agressões que sofrem por parte dos subordinados.
Para manter estas relações sem necessidade de enfrentamentos directos e constantes, o cão desenvolveu uma linguagem corporal que estabelece claramente, “quem manda”, nas interacções quotidianas. O Beta demonstrará submissão quando se encontra em perigo de agressão cabendo ao Alfa a tarefa de tranquilizar o resto da matilha com a sua presença altiva e tranquila.
O cão, à semelhança do Lobo, tem uns mecanismos de inibição do acto final de dominância, quer dizer, quase nunca uma luta por posto ou status termina com a morte do vencido. Este desenvolveu toda uma comunicação de submissão que impede o vencedor de chegar à eliminação do contendor.
A dominância que exerce a fêmea Alfa sobre as demais, chega ao ponto de actuar com as suas feromonas para impedir o cio das fêmeas subordinadas optimizando desta forma o seu êxito reprodutor.
A hierarquia é tão forte entre eles que, inclusivamente para caçar, é o dominante que estabelece as tácticas venatórias[2] da matilha.
Esta forma de actuação dos cães em liberdade mantém-se nos domésticos de tal forma que, ao fazer-se a experiência de se libertar vários exemplares, passado muito pouco tempo, converteram-se no que eram há 16.000 anos atrás.
Glossário –
[1] Dimorfismo Sexual é a presença de caracteres sexuais secundários que permitem distinguir o macho da fêmea correspondente.
[2] Venatória que diz respeito à caça.
15/07/08
Os Canídeos
Supõe-se que o primeiro parente dos canídeos apareceu no Plioceno há cerca de 10 milhões de anos, mas o actual cão (canis familiaris) tem apenas 16 mil anos de idade.
Há muitas teorias avançadas por prestigiados investigadores que defendem que o cão actual descende do Chacal, Lobo ou Coiote. No seu livro "Quando o Homem encontrou o Cão" Konrad Lorenz marca uma clara diferença entre as raças que descendem do Lobo (Pastor Alemão, Dobermann ou Boieiros) e das que descendem do Chacal Dourado (Collie, Dalmata, Caniche ou Labrador).
Actualmente a maior parte dos autores estão em sintonia com o facto de que todas as raças de Cães descendem do Lobo (Canis Lupus), pois as duas espécies são idênticas e a sequência de ADN mitocondrial de ambas são iguais em 99,8%, enquanto que a comparação entre a do Lobo e do Coiote (Canis Latrans) coincidem somente em 96%.
Nos estudos que existem sobre este tema encontra-se uma multiplicidade de especulações, mais ou menos científicas, mas em Etologia tomaremos sempre os padrões do Lobo como ponto de referência, para podermos compreender os comportamentos de uma espécie que foi domesticada pelo Homem no inicio da sua civilização. Apesar disso, por outro lado temos um grave problema em mãos: é que os padrões de conduta deste animal não podem ser enfocados através de um ponto de vista puramente etológico. O seu contacto diário com o Homem, a sua enorme capacidade de adaptação a um meio artificial, a sua falta de liberdade na Selecção Sexual e uma série de condicionantes mais, impossibilitam a publicação de estudos experimentais sobre esta espécie. Para podermos compreender o seu comportamento precisamos de nos apoiar na Etologia Aplicada, neste caso na canina, já que, apesar de todos os seus problemas, é uma espécie que, ainda que doméstica, apresente uma grande número de condutas que apresentaria em liberdade.
O Grupo e a Matilha.
Define-se matilha como sendo um grupo estável e duradouro que se mantém, salvo em muito raras excepções, no mesmo território. Portanto, a matilha obtém a sua variedade genética (o oposto da endogamia[1]) baseando-se na expulsão dos machos jovens, mantendo-se no território fêmeas com laços de parentesco e muito poucos machos.
Actualmente só existem em liberdade as seguintes espécies:
- Canis Lupos (Lobo)
- Canis Latrans (Coiote)
- Canis Aureus (Chacal)
- Canis Hienae (Hiena)
- Dingo Australiano ou Lobo Amarelo
Como o Cão doméstico evoluiu do Canis Lupus o efeito da sua domesticação potenciou a sua variedade racial (assunto que iremos abordar em próximos artigos), o homem foi seleccionando e aperfeiçoando as raças em função das suas próprias necessidades. Apesar de existirem actualmente centenas de raças caninas o seu código genético é exactamente o mesmo quer sejam pinchers miniaturas ou Grand Danois.
O Cão em liberdade tende ao sistema de emparelhamento monogamico, mas o cão domestico, devido Selecção artificial imposta pelo homem (nós é que escolhemos e impomos o/a parceiro/a), prevalece o sistema de poliginia[2]. Assim, e neste caso, os cuidados parentais são outorgados na sua totalidade pela fêmea, dado que os progenitores nunca têm a certeza da paternidade das ninhadas, pois enquanto que nos cães selvagens ou nos lobos, devido à sua organização social, o macho dominante, aquele que cobre todas as fêmeas, sabe que todos os jovens são filhos dele e, sendo assim, ajuda no desenvolvimento da ninhada, principalmente na protecção da mesma e na procura de alimento para a progenitora, no macho doméstico o facto de não investir na partilha da árdua tarefa de criar uma ninhada tem a ver com o desconhecimento por parte deste da paternidade da mesma.
A cadela, devido à domesticação, à abundância de alimento e não precisar de o procurar, à segurança transmitida pelo domesticador e à constância climática, apresenta dois ou três ciclos estrais por ano, contra um único da fêmea de Lobo (na Primavera), que tem contra si os imponderáveis de ter que depender de si em todas as circunstâncias.
Glossário
[1] Endogamia é o acasalamento dentro da própria família.
[2] Poliginia O contrário de monogamia. Situação em que o macho ou a fêmea têm vários parceiras/os
Há muitas teorias avançadas por prestigiados investigadores que defendem que o cão actual descende do Chacal, Lobo ou Coiote. No seu livro "Quando o Homem encontrou o Cão" Konrad Lorenz marca uma clara diferença entre as raças que descendem do Lobo (Pastor Alemão, Dobermann ou Boieiros) e das que descendem do Chacal Dourado (Collie, Dalmata, Caniche ou Labrador).
Actualmente a maior parte dos autores estão em sintonia com o facto de que todas as raças de Cães descendem do Lobo (Canis Lupus), pois as duas espécies são idênticas e a sequência de ADN mitocondrial de ambas são iguais em 99,8%, enquanto que a comparação entre a do Lobo e do Coiote (Canis Latrans) coincidem somente em 96%.
Nos estudos que existem sobre este tema encontra-se uma multiplicidade de especulações, mais ou menos científicas, mas em Etologia tomaremos sempre os padrões do Lobo como ponto de referência, para podermos compreender os comportamentos de uma espécie que foi domesticada pelo Homem no inicio da sua civilização. Apesar disso, por outro lado temos um grave problema em mãos: é que os padrões de conduta deste animal não podem ser enfocados através de um ponto de vista puramente etológico. O seu contacto diário com o Homem, a sua enorme capacidade de adaptação a um meio artificial, a sua falta de liberdade na Selecção Sexual e uma série de condicionantes mais, impossibilitam a publicação de estudos experimentais sobre esta espécie. Para podermos compreender o seu comportamento precisamos de nos apoiar na Etologia Aplicada, neste caso na canina, já que, apesar de todos os seus problemas, é uma espécie que, ainda que doméstica, apresente uma grande número de condutas que apresentaria em liberdade.
O Grupo e a Matilha.
Define-se matilha como sendo um grupo estável e duradouro que se mantém, salvo em muito raras excepções, no mesmo território. Portanto, a matilha obtém a sua variedade genética (o oposto da endogamia[1]) baseando-se na expulsão dos machos jovens, mantendo-se no território fêmeas com laços de parentesco e muito poucos machos.
Actualmente só existem em liberdade as seguintes espécies:
- Canis Lupos (Lobo)
- Canis Latrans (Coiote)
- Canis Aureus (Chacal)
- Canis Hienae (Hiena)
- Dingo Australiano ou Lobo Amarelo
Como o Cão doméstico evoluiu do Canis Lupus o efeito da sua domesticação potenciou a sua variedade racial (assunto que iremos abordar em próximos artigos), o homem foi seleccionando e aperfeiçoando as raças em função das suas próprias necessidades. Apesar de existirem actualmente centenas de raças caninas o seu código genético é exactamente o mesmo quer sejam pinchers miniaturas ou Grand Danois.
O Cão em liberdade tende ao sistema de emparelhamento monogamico, mas o cão domestico, devido Selecção artificial imposta pelo homem (nós é que escolhemos e impomos o/a parceiro/a), prevalece o sistema de poliginia[2]. Assim, e neste caso, os cuidados parentais são outorgados na sua totalidade pela fêmea, dado que os progenitores nunca têm a certeza da paternidade das ninhadas, pois enquanto que nos cães selvagens ou nos lobos, devido à sua organização social, o macho dominante, aquele que cobre todas as fêmeas, sabe que todos os jovens são filhos dele e, sendo assim, ajuda no desenvolvimento da ninhada, principalmente na protecção da mesma e na procura de alimento para a progenitora, no macho doméstico o facto de não investir na partilha da árdua tarefa de criar uma ninhada tem a ver com o desconhecimento por parte deste da paternidade da mesma.
A cadela, devido à domesticação, à abundância de alimento e não precisar de o procurar, à segurança transmitida pelo domesticador e à constância climática, apresenta dois ou três ciclos estrais por ano, contra um único da fêmea de Lobo (na Primavera), que tem contra si os imponderáveis de ter que depender de si em todas as circunstâncias.
Glossário
[1] Endogamia é o acasalamento dentro da própria família.
[2] Poliginia O contrário de monogamia. Situação em que o macho ou a fêmea têm vários parceiras/os
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